DARREN ARONOFSKY: O CAOS À FLOR DA PELE

DARREN ARONOFSKY: O CAOS À FLOR DA PELE

Cisne Negro, Réquiem Para Um Sonho e Pi: Três grandes filmes capazes de impactar o seu psicológico, te tirar o sono e te levar ao limite. O que eles têm em comum? A alucinante direção de Darren Aronofsky!

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Diante da modesta e rica filmografia do diretor e roteirista estadunidense Darren Aronofsky, não tem como ficar imune, nem tampouco negar o convite à inquietude feito em cada obra.

Com roteiros pesados aliados a uma direção capaz de transformar tal densidade em uma autêntica obra de arte, Aronofsky não economiza nos recursos cinematográficos, não hesita ao inserir o espectador nos universos sombrios e envolventes de seus personagens. A expectativa, o sonho, a tragédia e o caos compõem o terror psicológico que marcam a genialidade e a individualidade do diretor. Apesar de manter uma filmografia ainda curta, é inegável a contribuição de Aronofsky para o cinema mundial a partir do final do século XX. Suas produções marcantes e envolventes não escapam aos olhos atentos dos verdadeiros amantes de cinema. Ainda assim, ousarei um destaque especial e inevitável para três grandes obras: Pi, Réquiem Para Um Sonho e Cisne Negro.

O alucinante Pi, de 1998, marcou a estréia do diretor no universo dos longas metragens. A saga de Max, um gênio da matemática que está prestes a descobrir o número completo do Pi, é marcada pela sua riqueza e complexidade. O filme faz um singelo convite ao exercício mental do início ao fim. Durante suas descobertas, Max entra em uma busca desenfreada por um padrão por trás da infinitude dos números, um padrão matemático capaz de decifrar eventos da natureza, assim como desvendar todo o universo.

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A filmagem em preto e branco, o excesso de contraste, as técnicas de aproximação e movimentação das câmeras resultam em um surrealismo frenético, que embala o espectador no processo desgastante e esquizofrênico que acompanharia Max ao longo de seus estudos e descobertas. Pi é um delírio inteligente, mas que dispensa a compreensão. As geniais técnicas de direção propositalmente se sobressaem à complexidade do roteiro, o que te permite a um desfrute, ainda que despretensioso, do clima sombrio e inquietante dessa imperdível obra.

Se Pi foi uma marca inicial na carreira de Darren Aronofsky, a singularidade de Réquiem Para Um Sonho é a mais impactante e genial expressão artística do diretor. (Tá, sou suspeita, esse é o meu favorito!). Réquiem Para Um Sonho, de 2000, é um verdadeiro fenômeno, capaz de provocar efeitos colaterais irreversíveis no espectador. Quem já se rendeu a essa desenfreada obra prima, ainda tem arrepiada a espinha dorsal ao primeiro acorde de sua pertubadora trilha sonora. Um daqueles filmes de tirar o fôlego, o sossego e o sono, é do tipo que te causa um irresistível desconforto. Aronofsky nos oferta um soco na boca do estômago, assim, impiedosamente. Não recomendável àqueles que pretendem relaxar durante a exibição, mas imperdível pelos apreciadores de um belo espetáculo cinematográfico.

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O elenco e suas atuações são impecáveis. Jared Leto, Jennifer Connelly e Marlon Wayans deram um show de interpretação na pele de três jovens viciados que planejam entrar para o tráfico de drogas. Mas é Ellen Burstyn quem rouba as cenas. No papel de Sara, mãe de Harry (Jared Leto), Ellen retratou com maestria os efeitos devastadores de dois vícios lícitos: a televisão e os remédios emagrecedores. Aronofsky deu originalidade ímpar a Réquiem ao expandir o mundo das drogas para o universo dos vícios. E coube à refugiada Sara, que tinha como único entretenimento sua televisão, mostrar o trágico efeito das dosagens irresponsáveis de medicamentos pelas vítimas da indústria da beleza. Réquiem Para Um Sonho é um filme crítico, que condena o uso de drogas em sentido amplo, mas não espere uma lição de moral digna de novelas das oito. O filme trata do tema de forma puramente realista, não hesita no retrato do desespero da forma mais crua, o que levará o espectador ao limite do início ao fim. Mas o grande auge da perturbação, que certamente deixará abalado até o cinéfilo mais resistente, se dará durante o mergulho na imensidão do caótico desfecho dessa estonteante realização de Aronofsky. Uma dica: segurem-se na poltrona, amigos, e apreciem sem moderação.

Enquanto Réquiem Para Um Sonho pertuba, o indicado a cinco categorias do Oscar, Cisne Negro, atormenta. A obra de 2011, rendeu uma estatueta a Natalie Portman pela incrível interpretação na pele de Nina, nossa protagonista. Cisne Negro é um filme sombrio, altamente psicológico e Aronofsky novamente nos presenteia com uma direção alucinante.

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Nina é uma meiga bailarina sufocada pela mãe super protetora, mas encontra-se conflitada após uma grande oportunidade na carreira: protagonizar o espetáculo O Lago dos Cisnes, oscilando entre o papel do Cisne Branco e o do Cisne Negro. O Cisne Branco não desafia Nina, que tem a doçura e a delicadeza necessária ao personagem. O grande obstáculo é a libertação de seu lado “negro”, é o despertar de sua espontaneidade, de sua sensualidade, é a descoberta de qualidades internas e até então ocultas para a bailarina. A obra de Aronofsky reflete o contraste, o branco e o preto, o bem e o mal, a pureza e a sedução. A tormenta psicológica da trama é desenvolvida a partir da frágil superfície de Nina, que alimenta uma obsessiva e desgastante busca pela perfeição. O espectador é inserido na angustiante imersão da personagem, no confronto contra seu próprio reflexo, na procura pelo seu lado negro interior. O diretor gentilmente nos convida a vivenciar toda a tensão psicológica que enriquece a trama e nos fornece passe livre para entrar no sufocado universo de Nina. Cisne Negro é tecnicamente impecável! A câmera, a iluminação, a fotografia e a trilha sonora compõem a atmosfera perfeita, que transcende a realidade e faz o público se equilibrar entre a insanidade e a alucinação que se materializam na pele e no olhar da bela interpretação de Portman. Aronofsky conduz o espectador no paradoxo entre a densidade do roteiro e a harmonia dos passos do balé, levando-o à inevitável redenção, desde a primeira cena até o último grande salto, em um belíssimo “gran finale”, digno de um autêntico espetáculo!

 

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