A FADIGA E O CAOS DE ERIC BOUVET

A FADIGA E O CAOS DE ERIC BOUVET

O fotojornalista francês Eric Bouvet captou, nos embates ucranianos de há um ano, na Praça da Independência de Kiev, um conjunto impressionante de imagens que nos dá muito mais do que um simples registo dos instantes decisivos.

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Eric Bouvet, Sem título, da série Heroes from Maidan, Kiev, Ucrânia, Fevereiro de 2014

Existe uma corrente opinativa, sobretudo entre os comentaristas económicos, que defende que o investimento educativo em estudos históricos é um devaneio caro e improdutivo. Para ela, o mundo é unidimensional e organiza-se segundo critérios de estrita racionalidade. Os conhecimentos não quantificáveis, os procedimentos não deriváveis de equações, as acções não produtivas, são parcelas da realidades negligenciáveis.

Ora, qualquer modelo que ignore parcelas substanciais do objecto que estuda, ou comenta, tende a produzir, na melhor das hipóteses, uma caricatura. Nunca um conhecimento.

No mundo do fotojornalismo actual, verifica-se igualmente uma tendência que, assente em justificações alegadamente económicas e tecnológicas, tende a descartar os fotojornalistas, e a substituí-los por uma selecção feita na massa de fotografias anónimas que enchem as redes sociais. Os fotojornalistas saem caros e os media vivem num mundo de receitas instáveis e decrescentes desde o advento público da internet. Com a fotografia digital e a proliferação de telemóveis equipados com câmara fotográfica, o número de fotógrafos e de operadores de vídeo ocasionais, e acidentais, subiu exponencialmente, levando a acreditar que é sempre possível, estatisticamente, encontrar uma boa imagem amadora (e gratuita) dum acontecimento público.

Esta tendência encerra um claro desconhecimento da própria natureza da imagem fotográfica. Decorre duma confusão antiga e dum equivoco comum. Assume que a fotografia é um registo meramente mecânico, objectivo, da realidade. Entende o fotógrafo como um simples agente habilidoso da técnica.

Mas a imagem fotográfica dificilmente, ou nunca, é um registo meramente factual, científico. Aliás, a própria realidade dificilmente poderá ser reduzida a uma soma de factos objectivos. A ideia de realidade é uma construção, um olhar elaborado pelos instrumentos conceptuais que possuímos.

A chamada Revolução de Maidan, uma onda de protestos que levaram à queda dum Governo da Ucrânia, e ao início duma guerra civil e duma invasão não assumida da Rússia (que ainda decorrem), foi continuamente seguida nos meios noticiosos. E, sinal dos tempos, as redes sociais foram inundadas por uma vaga de imagens produzidas pelos próprios agentes do conflito. Cada barricado, cada apoiante do Governo, era muitas vezes um mediador visual.

Mas, apesar do esmagamento dos números, as imagens que melhor caracterizaram o fenómeno de Maidan, foram as dalguns profissionais. Os fotojornalistas “clássicos” continuam ser os mais eficazes porque são aqueles que mais têm a capacidade de construir um olhar.

Indo além das sinopses noticiosas que reduzem os acontecimentos do dia a um, dois minutos, num noticiário televisivo, os grandes fotojornalistas conseguem edificar, em conjuntos de imagens, uma impressão mais global dos acontecimentos. Ao contrário dos manifestantes de telemóvel ao alto, e dos seus contrários também de telemóvel em riste, tem a distância conceptual e a capacidade técnica para registar, escolher e ligar os fragmentos da realidade que lhes são pertinentes.

O conflito ucraniano, como generalidade dos conflitos, não pode ser reduzido, como muitas vezes é, a meia dúzia de sequências causa-efeito. É mais do que uma simples opção racional entre seguir os valores da União Europeia ou continuar os laços ancestrais com a Rússia, do que uma reacção proto-fascista contra um governo eleito ou um levantamento popular contra um governo corrupto e autoritário, do que uma luta entre russófonos e falantes da língua ucraniana. Nele observa-se a erupção de inúmeros factores, alguns racionais, outros duma irracionalidade e duma complexidade tais que apenas um conhecimento profundo da Europa oriental permite observar. Existe naquela secção da Europa uma densa teia de acontecimentos, ressentimentos, equívocos e mitos, que levou séculos a urdir. Uma teia facilmente inflamável, como actualmente se vê.

Uma das interessantes e completas reportagens de Maidan, foi feita pelo experiente fotógrafo francês Eric Bouvet. As imagens, de natureza distinta, foram divididas pelo autor em três séries: “Heroes from Maidan”, “Kiev’s fatigue” e “Chaos”.

Na primeira, Bouvet parece seguir as lições de Robert Capa, um dos fundadores do fotojornalismo moderno, que terá dito que, se uma imagem não é boa, é porque não se estava suficientemente perto. Com uma pequena câmara Fuji XT1 (à semelhança de Capa com a sua ligeira leica), seguiu os mais perigosos momentos de forma tão próxima quanto a dos próprios elementos em embate.

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Eric Bouvet, Sem título, da série Heroes from Maidan, Kiev, Ucrânia, Fevereiro de 2014

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Eric Bouvet, Sem título, da série Heroes from Maidan, Kiev, Ucrânia, Fevereiro de 2014

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Eric Bouvet, Sem título, da série Heroes from Maidan, Kiev, Ucrânia, Fevereiro de 2014

Na série “Kiev’s fatigue”, Eric Bouvet agrupou as imagens das longas esperas junto às barricadas. São imagens de cansaço dos barricados, a quem meses do pouco sono, temperaturas gélidas e fuligem das fogueiras deixaram marcas evidentes. Imagens de expectativa, de oponentes que aguardam uma acção que, por vezes, levou dias, semanas até, a acontecer. De momentos de estranhos enfrentamentos, em que ao hino nacional cantado num dos lados eram contrapostas velhas canções soviéticas. Imagens também surreais, como as dum pintor que retratou a cena de batalha em tela, ou as dos pianistas que tocavam ao ar livre para os manifestantes.

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Eric Bouvet, Sem título, da série Kiev’s fatigue, Kiev, Ucrânia, Fevereiro de 2014

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Eric Bouvet, Sem título, da série Kiev’s fatigue, Kiev, Ucrânia, Fevereiro de 2014

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Eric Bouvet, Sem título, da série Kiev’s fatigue, Kiev, Ucrânia, Fevereiro de 2014

Estas duas séries tem a capacidade de demonstrar como um conflito em pleno século XXI se pode assemelhar espantosamente a um embate medieval. Numa Europa que já viveu o Iluminismo, a Revolução Industrial e as revoluções tecnológicas que se lhe seguiram, voltámos a ver hordas com estandartes e canções guerreiras, facções que se cercam numa capital, e guerreiros de capacete e escudo, armados com pouco mais que pedras e mocas, que avançam enfrentando um verdadeiro banho de sangue para os baluartes opostos. Com combates em que a vitória é estranhamente triste, sem celebrações, semelhante a uma derrota.

A terceira série, “Chaos”, tem uma natureza muito diferente das demais. Em vez da pequena Fuji, Bouvet usou nela a sua Linhof Technika, uma câmara analógica de grande formato, montada num tripé. A intenção inicial era a de realizar com este equipamento retratos dos manifestantes, mas acabou depois por enveredar por uma via mais abstracta e experimental. Realizou sobreposições de imagens, em que os ocupantes das barricadas se fundiam com as ruas, o lixo, a lama e a desordem de Maidan.

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Eric Bouvet, Sem título, da série Chaos, Kiev, Ucrânia, Fevereiro de 2014

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Eric Bouvet, Sem título, da série Chaos, Kiev, Ucrânia, Fevereiro de 2014

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Eric Bouvet, Sem título, da série Chaos, Kiev, Ucrânia, Fevereiro de 2014

Eric Bouvet explica esta opção dizendo que as imagens de “Chaos” acabam por dar uma percepção mais fiel e duradoura da desordem da célebre praça. Mas estas imagens de Bouvet, que nos espantam, encerram um outra leitura. O presente que vivemos dificilmente é algo criado numa tabula rasa, redutível a folhas de cálculo e matemáticas simples. As sociedades são muito mais próximas de escavações arqueológicas, com estratos sobrepostos de pó e de cultura material, que nos dão uma impressão vaga do que somos. Só analisando meticulosamente estes elementos que nos constituem historicamente, é que podemos ter uma noção aproximada da nossa natureza, identidade e situação. Só assim é que podemos lidar sabiamente com os possíveis desastres que as experiências passadas nos anunciam.

O investimento no conhecimento e no profissionalismo podem ser caros, mas dificilmente serão improdutivos. Citando abusivamente o poeta quinhentista Sá de Miranda, que sabia bem que os amores (e os ódios) são irracionais, não serão certamente a ignorância e o amadorismo a dizer-nos o que fazer quando tudo arde.

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Eric Bouvet, Sem título, da série Heroes from Maidan, Kiev, Ucrânia, Fevereiro de 2014

 

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