Cinema

50 TONS E 1.000 EXPECTATIVAS

50 TONS E 1.000 EXPECTATIVAS

A estreia do filme 50 Tons de Cinza começou muito bem; pelo menos no que se refere à bilheteria. Nas filas, muitas mulheres com vários estilos e de todas as idades. As conversas? Carregadas de expectativas, sorrisos largos e assuntos que compuseram o enredo do livro. E o que fazer com os resultados pós filme?

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Mulherada reunida só pode apresentar um cenário: conversas em uníssono, risos altos, perfumes misturados e expectativas do que estava por vir. A presença masculina também foi notada no cinema, mas sem muito destaque; afinal, o homem da noite era outro.

As luzes se apagaram e na grande tela surgiram os elementos que iriam apimentar – ou não! – as próximas duas horas: cores de cinza impregnavam fotografias belíssimas que traduziam poder e sedução envoltos a uma música que intensificava sensações.

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Para aqueles que assistiram ao famoso e polêmico 9 ½ Semanas de Amor – lançado em 1986 e baseado no livro de Elisabeth McNeill -, algumas comparações , logo nos primeiros minutos de 50 Tons de Cinza , puderam ser feitas: o tão sonhado Christian Grey (Jamie Dornan) de hoje era John (Mickey Rourke) da década de 80, o qual morava em um apartamento sofisticado, com uma coleção de camisas brancas impecavelmente penduradas, uma gaveta com várias gravatas em tons neutros, termos escuros e alinhadíssimos. Na vida profissional, um executivo muito bem sucedido, poderoso e discreto – diria misterioso -; características que eram mantidas de certa forma quando estava no domínio de uma relação a dois. Já Anastacia (Dakota Johnson) apresentou apenas duas características semelhante as de Elizabet (Kim Basinger): ambas ficaram literalmente de quatro pelos homens poderosos e com caras de mal, permitindo que eles fizessem delas o que bem entendessem.

E outros tantos paralelos podem ser feitos não apenas entre filmes, mas, também, entre inúmeras obras literárias que surgiram depois da de E.L.James com temáticas eróticas a partir de vertentes em que homens poderosos e encantados proporcionam jogos sexuais cada vez mais elaborados e sofisticados, conduzindo a mulher a total submissão tanto do corpo como da mente.

Saber que os livros que impulsionam as películas são infinitamente melhores, isso já é do conhecimento de muitos. O livro – por si só – traz detalhes e leituras que separam o leitor do enredo apenas por uma linha tênue. Há um mergulho nas palavras , as quais levam o leitor a imaginações únicas. Quando esses enredos viram películas, as palavras não estão mais sozinhas: há fotografias, músicas, sons, olhares, movimentos. Esse emaranhado de elementos causa sempre sensações; agora não mais sentidas como no livro, mas conduzidas pelos recursos escolhidos a dedo.

O filme está ai para quem quiser assistir. Com isso, vêm as criticas: alguns gostam, outros se decepcionam, outros rebatem sem ao menos ter visto. Por que será que a trilogia 50 Tons foi um estrondoso sucesso mundial? Por que o sucesso de bilheteria logo no primeiro dia do filme 50 Tons de Cinza foi o esperado?

Seguindo as palavras de Leonardo Boff “cada um lê com os olhos que tem e interpreta a partir de onde os pés pisam”, é claro que as opiniões – não apenas referente a essa obra tanto do livro ou do filme – serão divergentes. Agradar a todos é querer demais. No entanto, uma coisa é certa: há muitos olhos carentes de leituras ligadas à sexualidade.

Tudo que envolve sexo torna-se polêmico; em escalas maiores ou menores, polêmico será, sim. Seja em casa ou na escola, seja na ciência ou na literatura, a sexualidade vem sempre repleta de entrelinhas e de discursos indiretos permeados de erotismo e/ou pornografia.

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Quando saiu – em 2014 – o filme Ninfomaníaca volumes 1 e 2 – direção de Lars Von Trier -, boa parte do público fez comentários negativos sobre a narrativa das aventuras sexuais vivenciadas por Joe (Charlotte Gainsbourg). Cenas pesadas que propiciavam a reflexão a partir de sexo real e da psicanálise deixaram muitos – que foram assistir ao volume 1 – longe do 2. Agora, o discurso é contrário: o sexo em 50 Tons deixou muito a desejar; chegou a ser bobinho; no livro é mais “picante”.

Partindo do pressuposto que o leitor – seja do livro, do filme, do teatro … – deva fazer uma leitura previa antes de qualquer uma que se disponha a conhecer como , por exemplo, saber quem é o autor ou o diretor e ter a curiosidade para compreender um pouco sobre o gênero do enredo e as diferenças que existe entre as palavras que norteiam o mote, fica uma dúvida: será que os leitores estão preparados para essa combinação de literatura e erotismo?

Conversando com um público feminino com faixa etária entre 17 a 50 anos, cada uma fez a sua leitura – caminho mais do que natural dessa habilidade: umas adoraram em função do romantismo; outras imaginavam que seria do jeito que foi e ficaram satisfeitas; outras se decepcionaram , pois queriam ver um sexo mais pesado, uma F**A forte – como diz o Grey em uma de suas falas -; outras esperavam menos romantismo fantástico e mais realismo sexual. Como já foi dito: agradar a todos é querer demais.

Afinal, qual é o tom exato: as palmadas que Anastacia levou, ou as chibatadas que fez Joe sangrar? Talvez esse tom esteja intimamente ligado às necessidades de cada um; aos desejos de cada um; aos tesões de cada um; aos ranços de cada um; às histórias não concluídas de cada um devido ao sexo ruim e sem o devido ponto final para poder virar a página. Cada um fará a sua leitura e (re)leitura.

As reações advindas de leituras assim precisam ser cuidadas. O foco das discussões não é se o livro é bem escrito com uma história impecável ou se o filme deve ser indicado para o Oscar, mas como melhorar o entendimento do ser humano com as suas próprias questões sobre sexualidade; ou ainda, como ensinar bem – e a todos – que as leituras de alguma forma sempre agregam se feitas com a clareza de que elas são o único meio de conhecer a si e o outro.

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