Frase/Curiosidade

Quando Eike bateu Chuck Norris

Quando Eike bateu Chuck Norris

(superinteressante)
Alexandre Versignassi

No final dos anos 80, Eike Batista começou a competir em provas de powerboat – lanchas com motor de 1.100 cavalos. Depois de ganhar tudo o que dava para ganhar no Brasil, foi disputar o Offshore Professional Tour (OPT) em 1990. Era o campeonato americano de superlanchas, disputado na costa de várias cidades dos EUA. A coisa estava começando a ganhar alguma atenção da imprensa esportiva graças à presença de atores no grid. Por exemplo: na última prova do ano, Eike tirou uma fina do barco de Don Johnson, tentando ultrapassá-lo por dentro de uma curva – o ator de Miami Vice venceu o duelo, e fechou a prova em primeiro. Mas nenhum dos dois levou o campeonato. O título ficou com outro piloto, que só precisava de um quarto lugar para garantir a taça: Chuck Norris.
No final do ano, terminado o campeonato americano, vinha a cereja do bolo da Offshore Professional Tour: o campeonato mundial. Apesar do nome, era um evento mais simples que o campeonato americano. Em vez de várias provas pelo país, só uma série de baterias ao longo de três dias, em Key West, na Florida.
Chuck Norris e Don Jonhson não participaram – o primeiro se aposentou das lanchas, o segundo saiu temporariamente do circuito para gravar o futuro cult Harley Davidson e Marlboro Man – Caçada Sem Tréguas.
Mas quem não deu trégua mesmo foi Eike. O brasileiro se cercou dos melhores profissionais que o dinheiro podia comprar. Seu copiloto para o mundial, por exemplo, era o americano Bob Moore, um multicampeão de corridas marítimas, com 25 anos de experiência, e que tinha participado das últimas três equipes campeãs mundiais.
Isso de não economizar em RH, aliás, era exatamente o que Eike faria em algumas de suas empresas anos depois. Principalmente na OGX, quando trouxe executivos de primeira grandeza da Pertrobras dobrando os salários dos caras e completando os contra-cheques com bônus anuais de 7 dígitos. Só tem uma diferença: nas corridas de lancha deu certo.
Muito certo. Eike venceu o mundial sem problemas. Aos 34 anos, sem nunca ter sido exatamente um atleta profissional, ele já podia se dizer campeão mundial num esporte. E com um bônus que não tem preço: no mesmo esporte do Chuck Norris. Enquanto o ícone hollywoodiano da imbatibilidade detinha só o título americano de 1990, o campeão mundial do mesmo ano era Eike Batista. Um shiatsu para o ego. De quebra, Eike também podia dizer que a mulher mais cobiçada do Brasil era dele: conehceu Luma de Oliveira numa das corridas de 1990, e engatou ali uma relação que duraria 13 anos.
Eike estava levando tão a sério a carreira de piloto que prometeu bancar os próximos campeonatos da OPT caso a organização não conseguisse levantar os US$ 2 milhões que precisava para se manter. Outra coincidência com o futuro, aliás. Mais de 20 anos depois, quando sua OGX já estava à beira da falência, ele faria uma promessa parecida. Se comprometeu a injetar US$ 1 bilhão das próprias contas bancárias para sanear o caixa da empresa, caso fosse necessário. No momento em que seus próprios diretores avisaram que, sim, era necessário, ele pulou fora. E a OGX naufragou.
Mas no mundo das lanchas as coisas foram mais redondas. Eike já começou a temporada de 1991 esmerilhando. Seu superboat, o Spirit of Amazon, era pelo menos 30% mais veloz que as outras. Na primeira prova, fez 145 km/h de média, conra 115 km/h do segundo colocado. É praticamente a diferença entre um Fórmula 1 e um Stock Car.
O título mundial mais esse desempenho no campeonato americano de 1991 transformou Eike numa celebridade entre os fãs de motonáutica esportiva – e como nos EUA tem até fã de competição de quem come mais cachorro quente, dá para dizer que ele ficou relativamente famoso. Tanto que apareceu com destaque no New York Times. A primeira reportagem do maior jornal do mundo sobre Eike não foi no caderno de economia, mas no de esportes. O título: Brazilian Superboat Driver Finds Speed in the Blood (“Piloto brasileiro de superboat tira sua velocidade do sangue”).
Eike disse ali que era amigo de Ayrton Senna e de Nelson Piquet. E completou: “A velocidade está no sangue da maioria dos brasileiros. As pessoas dirigem o mais rápido que podem. Existem limites oficiais de velocidade, mas pouca fiscalização. É uma cultura diferente”.
No mesmo ano da entrevista, nasceria seu primeiro filho, Thor Batista. O mesmo que, 21 anos depois, atropelou e matou um ciclista com o Mercedes SLR McLaren do pai, na Baixada Fluminense. A velocidade, pelo jeito, estava no sangue mesmo. E a “cultura diferente” também.

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Esse é um trecho de um dos capítulos novos da edição ampliada do meu livro, o Crash, que acabou de sair. Vai aqui um link da Saraiva:

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