A CENSURA AINDA EXISTE

A CENSURA AINDA EXISTE

Apesar de tudo, aos poucos, aqui e ali, me embebo de coragem e mudo o “mundo” ao meu redor, meu alcance. Venço o medo e me supero. Tento sambar na censura. Somos pequenos, mas não somos nulos, não é?

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Antes de qualquer palavra, ressalto: vou me ater às percepções pessoais de alguém que faz Jornalismo e sente medo. Isso mesmo. Medo. Quem nunca leu por aí sobre pessoas que, ao se expressarem contra alguma questão, sofreram agressões morais, físicas e até ameaças? Dói mais ainda saber que a maioria destas pessoas se manifestava contra algo prejudicial à sociedade: o conservadorismo desenfreado, o machismo, o abuso de poder violento de certos policiais.

Se você precisa refrescar a memória, te concedo alguns exemplos: a garota que sofreu inúmeras ameaças após denunciar um caso de machismo, o moço que denunciou um caso de racismo por parte da polícia e precisou sair da cidade por conta das ameaças, a jovem que foi morta após defender uma vítima de assédio, enfim, infinitos casos que foram ou não noticiados. E todos eles têm algo em comum: lutar por algo bom sacrificou a paz (ou a vida) dessas pessoas.

Como estudante de Jornalismo e, principalmente, como pessoa, eu sinto um medo quase que diário de lutar contra o que eu acho errado. Tenho medo de sofrer ameaças, e assim oscilo entre o receio absurdo e a raiva por hesitar em fazer minha voz ser ouvida por todos. E fico mais triste ainda por saber que inúmeras pessoas mundo afora resolvem se calar porque assim é mais “fácil”. A gente sofre quieto, aguenta a pressão imensa do mundo sobre nossas cabeças e isso, com certeza, não é saudável. Nem para nós mesmos, nem para a humanidade.

Dizer que a censura ainda existe parece algo “pesado”, mas é a realidade de muitos e muitas. Ser coagida a não conversar sobre violência contra a mulher porque “há coisas melhores e mais importantes a serem abordadas” já aconteceu comigo. E se isso não foi uma tentativa de censura, eu não sei o que é. Absurdos à parte, eu consegui desenvolver a pauta que eu queria, nada aconteceu. Mas e se, no lugar de um estagiário de mente fechada, fosse um chefe com tendências violentas? Sim, a censura com certeza deve existir em vários lugares por aí.

Eu mesma tenho na cabeça inúmeras pautas sobre coisas que eu sou contra e que gostaria de discutir sobre, mas reluto eternamente em escrever por puro medo do mundo. E quando escrevo, fico inquieta e receosa por semanas. Não sinto orgulho por essa mostra de covardia, mas tenho consciência de que isso não é apenas culpa minha. Talvez seja por isso que eu sinto tanto orgulho daqueles que se manifestam pelo que acham certo, tanta compaixão e amor por aqueles que sofreram algo e tanta admiração por essa coragem toda.

Esse texto tímido, cheio de receio e escrito por uma guria que digitou tudo como quem anda no escuro com medo do barulho é, para mim, um passo enorme, uma libertação. Creio que muita gente por aí sofra da “síndrome da delicadeza” quando sabe que está submetendo um assunto possivelmente polêmico a um público relativamente grande. Gostaria que um dia a libertação viesse de todos os lados: das pessoas que desejam mudar o mundo e das mentes fechadas que podem, sim, se abrir. Gostaria, mais do que tudo, de ter a garantia de que todas as pessoas possam lutar pelo que acham certo e contra as maldades do mundo sem sentir medo de ver suas vidas desabarem devido a isso. Afinal, precisamos de ideologias para que nossas vidas tenham um sentido maior, e apesar de ter a consciência de que uma pessoa sozinha não pode mudar o mundo inteiro, eu tenho a plena certeza de que este ser individual pode, perfeitamente, mudar as pessoas ao seu redor. E quem ousará me dizer que isso não é mudar o mundo também?

A censura, a opressão e a violência são grandes galhos de uma árvore gigante, que não pode ser cortada assim tão facilmente. Mas a gente luta, a gente poda.

A gente pode.

 

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