DIA 8 DE MARÇO, UMA FARSA CONTRA A MULHER

DIA 8 DE MARÇO, UMA FARSA CONTRA A MULHER

“As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do “eterno feminino”: a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina”. (Simone de Beauvoir, O Segundo Sexo)

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O Dia Internacional da Mulher é comemorado no dia 8 de março. “Bom, isso todos sabem!”, alguém pode dizer. Até mesmo citará que nesta data, no ano de 1857, houve uma greve de trabalhadoras, na qual 129 operárias, que protestavam por melhores condições de trabalho, foram trancadas propositalmente pelo propritário da fábrica para coibir o movimento grevista. Assim, acabaram carbonizadas. Este é o episódio mais conhecido, quando algumas pessoas se referem ao Dia da Mulher. Só que há um problema: tal fato foi distorcido.

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Sabe-se que em Nova York, no dia 25 de março de 1911, ocorreu um incêndio que vitimou 146 operários, dos quais 125 eram mulheres. Essa tragédia se deu porque as instações elétricas estavam em péssímas condições, e somado a estrutura do prédio e a grande quantidade de tecidos existentes no local, o fogo se alastrou rapidamente. Naquela época, muitos proprietários de fábricas tinham o hábito de trancar os trabalhadores, durante o expediente. Foi o que ocorreu na ocasião, transformando em um lamentável episódio na vida dos trabalhadores.

É importante ressaltar que o movimento feminista nas duas primeiras décadas do século XX crescia muito e havia propostas da criação de uma data para comemorar o Dia Internacional da Mulher. Aliás, um ano antes da tragédia ocorrida em Nova York, ocorreu o II Congresso Internacional de Mulheres Socialistas que propôs estipular uma data que lembrasse a constante luta das mulheres contra a opressão social e patriarcal. O feminismo, nesta época, teve uma forte influência das correntes socialista e anarquista, dentre as grandes ativistas, podemos destacar Emma Goldman.

Mas foi na Rússia em 1917, exatamente num 8 de março, que trabalhadoras do setor de tecelagem iniciaram uma greve que foi considerada por Trotsky o primeiro momento revolucionário que culminaria na Revolução Russa, que destituiu o Czar e que levaria os bolcheviques ao poder, em outubro daquele ano. A partir desse evento, associado a outros, nos quais as mulheres foram protagonistas em suas lutas contra a opressão, esta data, aos poucos, se consolidou como o dia de comemoração da mulher, lembrando não só suas conquistas, mas também a necessidade de prosseguir exigindo seus direitos.

A data, no entanto, nos dias de hoje,transformou-se numa espécie de dia especial para as mulheres se lembrarem que são “apenas” mulheres. Não há uma percepção por parte da maioria das pessoas de que esse dia deveria ser um momento para refletir sobre as relações de gênero, a manutenção da dominação machista, a sexualidade feminina, as relações de poder no local de trabalho etc.

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Se alguém nos poucos dias que antecede à comemoração desta data notar, verá outdoors espalhados por vários pontos da cidade, com dizeres maravilhosos, mais ou menos assim: “Mulher, a mais bela e delicada das flores” ou “A força da mulher motiva a existência do mundo”. Há também o lado comercial. Ah, sempre o comércio! Instiga-se a presenteá-las com perfumes, sapatos e, como não poderia deixar de ser, joias. Parece que todas as mulheres têm as mesmas características. É bom observar que não há, aqui, a intenção de afirmar que aquelas que gostam desses tipos de presente devem ser consideradas “traidoras da causa feminina”. O que se critica é o comportamento da publicidade que, reforçando preconceitos, acredita que tal data deva ser vista apenas como algo alegre, sem conflitos. Camufla a realidade das mulheres, não só no Brasil, mas no mundo todo, em que em alguns lugares, em maior ou menor grau, as dificuldades vivenciadas por milhares delas ainda são consideradas subumanas, nas mais diversas culturas. O uso deste termo (“subumana), para muitos, parece forte demais. Mas, no fundo expressa bem o que o comportamento misógino indica.

O dia 8 de março deveria ser um momento para relembrar o porquê da própria comemoração. Diga-se, de passagem, o próprio verbo “comemorar” significa “lembrar”, “recordar”. E como tal, a sociedade tem a obrigação de entender por que ela existe. Não pode somente ser uma data comercial para se presentear mães, esposas, namoradas, filhas, amantes, com flores. Deve ter a finalidade de se voltar para os vários eventos que levaram às tantas conquistas que o “sexo frágil” obteve a duras penas. Compreender não só o contexto social em que se encontravam e, necessariamente, perceber que a opressão persiste, sob uma nova ou mesmo uma velha roupagem.

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Lembrando Simone de Beauvoir: “As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do “eterno feminino”: a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina”. (trecho do livro O Segundo Sexo)

Que muitos homens possam ser solidários, sempre lembrando que elas devem ser as protagonistas dessa luta. Feliz Dia da Mulher, a todas as mulheres guerreiras espalhadas por este mundo afora!

 

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