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Os 10 mais assustadores desastres ecológicos da história – Parte 2

Os 10 mais assustadores desastres ecológicos da história – Parte 2

(superinteressante)
Por Fabio Marton

5. O deserto que a burocracia criou

Mar de Aral (Cazaquistão e Uzbequistão, 1960 até hoje)

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Tudo isso já foi mar

O mar virou sertão. No início da década de 60, o Aral era o quarto maior lago do mundo – tanto que ganhava o nome de “mar”, ainda que fosse só uma enorme lagoa de água salgada. Cidades em volta floresciam com a indústria da pesca, fornecendo 1/6 de todos os peixes que iam parar às mesas soviéticas.

Então veio o algodão. Em 1960, como parte de um dos planos de cinco anos, o governo soviético desviou o curso de dois rios que abasteciam o Mar de Aral para plantações no deserto. O impacto não foi sentido imediatamente: o mar começou a descer uma média de 20 cm por ano na década de 60, que passou a 60 cm nos 70, e 90 cm nos anos 80. O mar deu lugar a um deserto salino e poluído com agrotóxicos das tais plantações. A salinidade matou os peixes, e os navios pesqueiros foram encalhados e abandonados no lugar.

Os engenheiros soviéticos sabiam no que estavam se metendo quando divergiram o curso dos rios. Mas ninguém teve coragem em contestar os planos do Politburo, o comitê central do Partido Comunista. Era, afinal, a União Soviética.

O fim do comunismo não mudou em nada a situação. Durante os anos 90, enquanto ainda era possível se falar em Mar de Aral, o governo do Uzbequistão continuou investindo firme em algodão no deserto. Em 2014, pela primeira vez, a planície do Mar de Aral tornou-se completamente seca.

O Mar de Aral prova que desastres ambientais não nascem sempre do capitalismo. Eles também podem surgir de burocracia estúpida e autoritária. O caso é que burocracia estúpida não precisa de comunismo para surgir. Voltando ao país que ocupa o maior número de posições nessa lista…

 

4. Segredo macabro
Contaminação química em Love Canal (Niagara Falls, EUA, 1955-1978)

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Barris de lixo tóxico ficavam embaixo de escolinha

Com um nome tão adorável assim (“Canal do Amor”), não é difícil entender porque muita gente se interessou em mudar para o loteamento criado na cidade de Niagara Fallsaquela das cataratas – em 1955.

A primeira construção foi uma escola primária, que atraiu trabalhadores a se instalarem em volta. Logo nos primeiros anos, os moradores começaram a notar coisas esquisitas: das paredes do porão, vazava um líquido preto e viscoso. O lugar inteiro tinha um cheiro químico e uma cabeleireira teve de abandonar seu trabalho, num salão no subsolo, após desenvolver uma doença misteriosa. As árvores morriam. As crianças tinham uma brincadeira que só existia em Love Canal: jogavam lama no chão. Que explodia como um traque.

Isso acontecia porque a lama era rica em fósforo. O solo inteiro de Love Canal estava contaminado por milhões de barris de lixo tóxico, cortesia da Hooker Chemical, que usou o local como aterro entre 1942 e 1953.

A ficha só caiu mesmo em 21 de novembro de 1968, quando Karen Schoreder, criada em Love Canal, deu à luz a um bebê chamado Sherri. A criança era parcialmente surda, com buraco no septo do coração, ossos bloqueando a cavidade do nariz, orelhas deformadas e lábios leporinos. Quando começou a crescer, seus dentes se desenvolveram em duas linhas, como um tubarão, e a mãe percebeu que ela tinha deficiência mental.

Apôs inúmeros protestos e um grande escândalo na imprensa, a vizinhança de Love Canal acabou evacuada em 1978. Nisso foi descoberto que a indústria química nem era a maior vilã. Em 1953, ela foi procurada pelo Comitê Escolar de Niagara Falls, interessada em comprar o aterro. Apesar da recusa insistente da empresa, que deixou clara a situação do local, o comitê ameaçou com processo, e o negócio foi fechado por um dólar. Lá foi construída a escola primária, ao que se seguiu o loteamento. A empresa teve de pagar 129 milhões de dólares em 1995. Nenhuma autoridade municipal foi a julgamento.

Se você achou a história medonha, se prepare, que só piora daqui para a frente. A próxima aconteceu bem ao ladinho de casa…

 

3. Terror tupiniquim
Acidente do césio 137 (Goiânia, Brasil, 1987)

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Via / Vítimas tiveram de ser enterradas em caixões de chumbo

O pior desastre ecológico do Brasil um caráter amargamente tupiniquim: surgiu de uma mistura de miséria, ignorância e descaso.

Tudo começou quando dois catadores de sucata invadiram um prédio em ruínas, sem janelas, telhas ou portas, no centro da cidade. Até onde dois anos antes, lá funcionava o Instituto Radiológico de Goiânia. Levaram do local o núcleo de um aparelho de radioterapia – um feixe focado de radiação usado para matar células cancerígenas.

A cápsula foi parar no ferro-velho de Devair Ferreira, que a abriu a marretadas, para revender o que encontrasse dentro. O que achou foi o pó de césio 137, fonte da radiação. O pó brilhava no escuro com uma luz azul, o que deixou o sucateiro encantado. Devair decidiu mostrar para todo mundo o achado. Ele até mesmo deu um pouquinho do pó para seus amigos e família.

Todo mundo exposto ao césio começou a apresentar náuseas, tonturas e vômitos – os primeiros sintomas que o DNA das células foi destruído pela radiação, e elas não podem mais se reproduzir. Os médicos levaram 16 dias para entender.

Oficialmente, 4 pessoas morreram de exposição aguda à radioatividade: a mulher e a sobrinha do sucateiro, que sobreviveu, e dois funcionários.Segundo a Associação das Vítimas do Césio 137, foram 104. 13,4 toneladas de lixo atômico, como roupas, plantas, corpos de animais e objetos tocados pelas vítimas foram enterradas num depósito a 24 quilômetros de Goiânia, e devempermanecer lá por pelo menos 180 anos.

Isso dá ao Brasil a duvidosa medalha de prata em matéria de catástrofes radiológicas, perdendo apenas para Chernobyl. Falando no diabo…

 

2. Tragédia pop
Central Nuclear Chernobyl (Pripyat, Ucrânia, 1986)

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Máquinas abandonadas na zona de exclusão

Claro, não podia faltar na lista o desastre número um na memória coletiva. É provável que o leitor tenha uma ideia do que aconteceu: em 26 de abril de 1986, explodiu um dos reatores da Usina Nuclear Chernobyl, na Ucrânia. O incêndio que se seguiu liberou uma nuvem radioativa que atingiu países tão distantes quanto a Itália e Finlândia. A cidade de Pripyat foi evacuada, e a zona de exclusão permanece até hoje. Atraindo turistas.

O total de mortes é extremamente controverso, e nunca vai ser conhecido exatamente. Simplesmente não dá pra dizer com certeza que alguém que morreu de leucemia na Bielorússia em 2015 só teve a doença por causa da nuvem radioativa em 1986. 31 bombeiros e funcionários da usina, que trabalharam na contenção do fogo, morreram de exposição aguda à radiação. Outros 246 trabalhadores morreram entre 1991 e 1998 de doenças circulatórias e leucemia. Quanto ao resto da população afetada, aí começa a controvérsia: relatórios das Nações Unidas estimam que, descontados os sobreviventes, 4 mil pessoas morreram ou vão morrer pela exposição. O Greenpeace fala em 200 mil – mas não é, vamos convir, uma fonte neutra.

Vamos falar de algumas coisas que talvez você não saiba de Chernobyl. A mais surpreendente: a usina continuou operando com seus outros reatores (eram quatro)… até 2000. E isso só após a Ucrânia receber dinheiro dos países ocidentais para construir outros geradores de energia.

Outra: o desastre talvez tenha um lado positivo para a natureza. Apesar da contaminação, plantas e animais tomaram conta da paisagem antes dominada pela cidade. Isto é, a contaminação radioativa não é tão ruim quanto a presença humana. Faz pensar.

Chernobyl é o número um na memória popular, mas apenas o dois na nossa lista. Porque nada se compara ao pior desastre industrial da história. Cuidado, imagem forte a seguir…

 

Pior que a Primeira Guerra
Vazamento de gás industrial (Bhopal, India, 1984)

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Via / Bebê morto no desastre

Válvula de segurança. Saída de lições como o desastre do melado, ela está lá para impedir que um tanque com produtos químicos exploda com a pressão. Mas “segurança” talvez seja um pouquinho de otimismo. Na fábrica de pesticidas Union Carbide India, madrugada de 2 para 3 de dezembro de 1984, uma falha de manutenção fez com que um tanque com isocianato de metila começasse a ser enchido de água. Isso causou uma reação química descontrolada, que elevou a temperatura interna a 200o C. O tanque começou a acumular pressão e a válvula de segurança fez seu trabalho, abrindo-se automaticamente. Liberando 30 toneladas de veneno no ar.

O isocianato de metila é altamente tóxico, destrói olhos, pele e as vias respiratórias. A nuvem de destruição foi levada pelo vento para uma favela próxima, onde a maioria já estava no sétimo sono. Quem foi acordado tratou de correr, o que só piorou a situação: eles inalaram mais veneno do que quem ficou parado em casa. As crianças eram particularmente susceptíveis, porque os gases eram mais pesados que o ar, e eram mais densos próximos ao chão. No dia seguinte, as vítimas cobriram as ruas da cidade, numa cena de guerra.

Literalmente guerra. Durante os quatro anos da Primeira Guerra Mundial, 90 mil pessoas morreram por ataques com armas químicas. Em Bhopal, apenas um dia, 25 mil pereceram, segundo as estimativas mais altas. Isso é seis vezes mais que Chernobyl e mais que todos os franceses, alemães e ingleses somados na Grande Guerra. O governo indiano ressarciu apenas 5.295, o número oficial.

O tamanho da desgraça em Bhopal não cabe nas palavras de um post. Imagens dizem mais, e – esteja avisado, é coisa forte – podem ser vistas aqui.

Depois dessa, vamos terminar com um refresco. De bônus, um desastre sem vítimas, que entra só pela foto…

 

Bônus: A Porta do Inferno
Incêndio de gás natural (Turcomenistão, 1971 até hoje)

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No deserto de Karakum, no Turcomenistão, a temperatura chega a 50 graus. Mas isso é fichinha para quem chega perto da Porta do Inferno. Há 43 anos, uma cratera com 60 metros de largura e 20 de profundidade queima perto da vila de Darweze.

A coisa começou em 1971, quando engenheiros soviéticos (sempre eles) descobriam que havia um depósito de gás natural no local. Isso geralmente é indício de petróleo, e puseram-se a furar o chão, fazendo alojamentos e armazenando o gás em grandes botijões perto da perfuratriz. Após alguns dias, o solo cedeu e todo o material foi ao fundo – sem causar vítimas. Preocupados com os gases tóxicos subindo do buraco, com a típica sutileza da engenharia soviética, atearam fogo, achando que a reserva se extinguiria em algumas semanas.

Grande erro: a Porta do Inferno se situa sobre uma das maiores reservas de gás natural do mundo. Assim como a vila abandonada de Chernobyl, acabou se tornando atração turística. Ano passado, o explorador canadense George Korounis deu uma descidinha para ver o que tinha lá em baixo. Incrivelmente, achou bactérias.

Ao menos sabemos quem herdará o mundo.

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