A POESIA EXPRESSIONISTA DE GEORG TRAKL

A POESIA EXPRESSIONISTA DE GEORG TRAKL

“Recebi o “Sebastião no Sonho”, do qual muito já li: comovido, estupefato, cheio de pressentimentos e perplexidade; pois logo se entende que as circunstâncias desse soar ascendente e ressoar descendente foram irremediavelmente únicas, justamente como as que nascem do sonho. Tenho a sensação de que, mesmo para alguém próximo a Trakl, essas perspectivas e visões só aparecem como se através de vidros, como se excluído delas: pois a experiência de Trakl é como uma sucessão de reflexos e preenche todo o seu espaço, inacessível qual o espaço do espelho.”

Rainer Maria Rilke

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A subjetividade e a investigação psicológica. Elementos fundamentais para entender um dos mais profundos e marcantes movimentos de arte do Século XX. O Expressionismo. Suas fronteiras eram vastas por toda a Europa, todavia, alguns apontam seu início de fato na Alemanha, no começo daquele século.

Além de Paul Gauguin (1848-1903), Paul Cézanne (1839-1906) e Toulouse-Lautrec (1864-1901), considerados os “pré-expressionistas” por alguns estudiosos da arte, Vicent Van Gogh (1853-1890) é apontado como grande inspirador do motor criativo deste movimento. Suas cores, sua intensidade oblíqua reverberaram por toda uma geração de artistas, espirrando tinta – não apenas nas artes plásticas – como na literatura também, nos notórios exemplos da arte singular de James Joyce, T.S. Eliot, e o tcheco Franz Kafka ou na música de compositores da envergadura de Arnold Franz Walter Schönberg.

O expressionismo também veio em clara oposição ao Positivismo de Augusto Comte. Propondo uma busca no âmago dos pensamentos humanos. O desejo contraído que se dilacera de encontro à razão. O sonho escurecido, cheio de linhas oceânicas e sombras eclipsando rostos mergulhados em suas próprias mãos. As tensões do mundo nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial. A deformação de um antigo ideal científico estava ruindo naquele instante nas rodas de discussões em uma Alemanha pálida e um mundo tênue.

Nos primórdios deste cenário, nascia Georg Trakl, em Salzburgo, na Áustria em 1887. Foi o quinto dos sete filhos de Tobias Trakl e Maria Catharina e com o nascimento de sua irmã, Margaret, eles acabaram desenvolvendo uma relação íntima, psicológica e carnal, o que ajudou o poeta a construir suas rimas ocultas – carregadas de cinzentas paisagens obscuras – repletas de culpa e insanidade. Fruto também de drogas, algo que aprofundou mais ainda a frágil saúde do jovem excêntrico trovador. Trakl também foi considerado um aluno insociável.

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Entre suas grandes referências literárias, estão a poesia visceral e catártica de Arthur Rimbaud e o simbolismo épico de Baudelaire. Do primeiro, o mergulho pelos meandros melancólicos, a tensão nas mais altas torres do caos interior, o desejo colossal pelo líquido instante de loucura. Do segundo, a sutileza abstrata, o lirismo sem amarras que levam ao devaneio mágico, a palidez de cores frias de um mundo pré-apocalítico. Outros estudiosos apontam o escritor alemão Friedrich Hölderlin – algo que o próprio Trakl trazia como referência expressa em muito de sua obra – como influxo de impulsão para a estrutura poética dos seus versos.

Trakl abandona os estudos ainda no nível intermediário e depois acaba fazendo um curso secundário para trabalhar como farmacêutico. Ironicamente, isto o ajudaria a adentrar mais ainda em estupefacientes. Paralelo, o Austríaco escrevera duas peças que acabariam sendo queimadas por ele mesmo depois da pouca repercussão.

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Iniciando uma carreira autônoma em sua profissão – o que não lhe rendeu mais do que alguns trabalhos temporários – Trakl acabaria por conhecer – em Viena – figuras determinantes para evidenciar sua obra. O primeiro foi o escritor Ludwig von Ficker. Este, em 1910, fundou a revista cultural ‘Der Brenner’. Este periódico foi considerado essencial para trazer luz aos artistas expressionistas como Georg.

Outro expoente para a vanguarda da época foi o dramaturgo e poeta austríaco Karl Kraus. Este fundou algumas das mais panfletárias revistas alemãs, a ‘Die Fackel’. Por meio de sátiras e um olhar pontiagudo, Kraus – que é para muitos, um dos maiores escritores satírico da história – construía suas críticas incendiárias que lhe rendia admiradores e detratores. Em sua revista seria publicado o primeiro livro de Georg Trakl intitulado “Der jüngste Tag”.

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Com o estouro da primeira guerra em 1914, Georg Trakl, então desempregado, alista-se como voluntário e é enviado à região da Galicia em Grodek. No que é hoje a Ucrânia. Neste território aconteceram algumas das mais ferozes batalhas da primeira grande guerra. Galícia fica situada entre a então República Popular da Ucrânia e ao Sul da Polônia – Região cheia de conflitos que já remetiam cronicamente à fins do século 19. Com três potências guerreando em seu território – Rússia, Alemanha e Áustria – ali o poeta se viu na frente de batalha como oficial-farmacêutico na chamada “Chacina de Grodek”.

Debilitado por conta da relação incestuosa e problemática com a irmã – que se casou em Viena e após um aborto, o abandono do marido e poucos anos depois da morte do irmão, se matou. O abuso de entorpecentes e sua formação de alma fragmentária e os horrores da proximidade execrável da guerra, tem um colapso nervoso – posteriormente diagnosticado como esquizofrênico – e é mandado para um hospital na Cracóvia. Ali, escreve alguns dos seus mais emblemáticos e irretocáveis poemas: ‘Grodek’

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Em 1914, ainda no centro da primeira guerra, “Grodek” e “Lamento” são entregues – em mãos pelo próprio Georg Trakl – ao filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein – um grande amigo e admirador de sua poesia. Seu último poema “Lamento” se referia a irmã – a única pessoa que o poeta amou – Logo depois, no dia 03 de novembro daquele ano, o maior poeta expressionista de sempre faleceu por conta de uma overdose.

“Sebastian Im Traum” uma coletânea de poemas ordenada pelo próprio poeta – alguns anos antes – foi lançada postumamente em 1915. Para historiadores e colecionadores é onde estão suas grandes obras primas. Estudiosos apontam sua morte fruto de uso indiscriminado de cocaína – recentemente algumas biografias falam em uso de ópio, clorofórmio, veronal e cocaína desde adolescência – O iminente perigo de ir para corte marcial por conta do seu colapso também teria aterrorizado o frágil escritor.

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Sua obra ficou por muito tempo entrelaçada no limbo. Sendo redescoberta depois da guerra. Hoje considerada uma das mais ricas e dramáticas do século XX. Martin Heidegger e Rainer Maria Rilke tiveram um contato com os versos de Georg Trakl com este ainda em vida. Este último ficando bastante admirado com a estrutura, o caos, a construção métrica erguida como um verdadeiro artesão obscuro que derramava gotas cinzentas de lirismo mágico e vulcânicas ondulações prestes a serem petrificadas pelo seu turbulento espírito em letargia.

Sua poesia – considera de difícil compreensão para alguns – e de delicada tradução, é o desmoronamento de versos sobre as páginas de sua própria alma. Georg Trakl foi literalmente fruto de seu tempo. Sua arte está para além da poesia. É o grito de um ser que em vida, jamais se sentiu vivo.

“LAMENTO”

Tadução: Claudia Cavalcanti

Sono e morte,

as tenebrosas águias

Rodeiam a noite inteira essa cabeça:

A imagem dourada do Homem

Engolida pela onda fria

Da eternidade. Em medonhos recifes

Despedaça-se o corpo purpúreo.

E a voz escura lamenta

Sobre o mar.

Irmã de tempestuosa melancolia

Vê, um barco aflito afunda

Sob estrelas,

Sob o rosto calado da noite.

 

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