A OBRA DE ARTE MAIS DISPUTADA DA HISTÓRIA

A OBRA DE ARTE MAIS DISPUTADA DA HISTÓRIA

Obras de arte têm um valor inestimável por vários motivos. Mas algumas delas tornaram-se uma verdadeira obsessão para líderes políticos, como se fossem uma espécie de talismã. É o caso do Retábulo de Ghent, que atraiu a cobiça de Napoleão e Hitler, entre outros.

vaneyck_lamgods.jpg Retábulo de Ghent aberto. Fonte: http://www.theguardian.com/artanddesign/2013/dec/20/ghent-altarpiece-most-stolen-artwork-of-all-time

Obras de arte têm um valor inestimável por vários motivos. São obejtos que contam a história cultural dos homens de forma iconográfica; condensam valores e características de uma nação, de um tempo, do estado de espírito de uma época (sintetizados pela palavra alemã “Zeitgeist”); são precursoras de uma nova forma de pensar, de ver e de representar o mundo. Outro ponto a se considerar, mas menos evidenciado pelos críticos e historiadores de arte, é seu aspecto espiritual: podem atuar como objetos que representam valores místicos e espirituais de um povo. Muitas outras características poderiam aqui ser elencadas para justificar o incalculável valor de um quadro como a Monalisa de Da Vinci; de uma escultura como o Moisés de Michelângelo; de uma música como a Nova Sinfonia de Beethoven.

A pouco conhecida cidade média-pequena de Ghent, na Bélgica, abriga a catedral de São Bavo. Discretamente nesta igreja está uma das maiores obras de arte da humanidade, que possui todas as características acima citadas, e que por isso tornou-se o objeto de desejo de muitos líderes políticos, e acabou se tornando, segundo o historiador Noah Charney, a obra de arte mais roubada da história: o Retábulo de Ghent (também conhecida como “Retábulo de Gant” e “Retábulo do Cordeiro”), dos irmãos holandeses Hubert e Jan van Eyck. Como a cidade e a catedral, essa obra não é muito conhecida, mas possui um valor histórico, cultural e espiritual inigualável. Como veremos, ela é uma espécie de “Santo Graal” da pintura.

O Retábulo é um políptico pintado sobre madeira. Um políptico (do grego polýs, “numeroso” e ptýx, “dobra, prega”) é um conjunto de painéis que formam uma determinada cena ou tema. Eles podem ser fixos ou móveis (como neste caso), unidos por dobradiças como se fossem várias pequenas portas, e que formam uma obra quando aberto ou fechado. Este retábulo é formado por 24 painéis que, de acordo com sua posição (aberto ou se fechando para dentro os painéis das extremidades) fornece duas cenas diferentes. Ele é do tamanho da porta de um celeiro e pesa mais que um elefante. Encomendada por Joost Vijdt, rico diretor da igreja de São João Batista (hoje Catedral de São Bavo em Ghent), para a capela privativa de sua esposa, o políptico foi iniciado por Hubert van Eyck, que morreu em 1426 no meio do trabalho, e foi concluído por seu irmão mais novo, Jan van Eyck, em 1432. No dia 6 de maio deste ano foi colocado sobre o altar da capela do seu patrocinador.

ghentcls.jpg Retábulo de Ghent fechado. Fonte: http://www.ibiblio.org/wm/paint/auth/eyck/ghent/ghentcls.jpg

Historicamente ele é de suma importância pois é um precursor o Renascimento nos Países Baixos e do Realismo Artístico. A inserção de pessoas e locais da época, e não apenas de personagens e passagens bíblicas e religiosas, é uma marca desse estilo, considerada revolucionária naquele tempo. Mas não é só a beleza, a pompa ou o valor histórico que destacam essa obra de arte. Além de sua simbologia mística riquíssima, que faz dela uma lídima expressão do sagrado produzida por mãos humanas, os inúmeros roubos e acidentes que marcam sua história a colocam numa categoria sui generis.

Retabulo aberto - indicações em português.jpgDescrição dos painéis

Segundo o historiador Noah Charney, especialista e roubos de obras de arte e autor do livro “The Fate of the Masterpiece: How the Monuments Men Saved the Mystic Lamb From the Nazis”, o retábulo é uma das obras mais cobiçadas de todos os tempos. Foi vítima de 13 crimes e sete roubos. Só para termos uma ideia das inúmeras peripécias pelas quais esta obra passou, tudo começou em 1566 quando protestantes radicais derrubaram as portas da catedral de Ghent querendo simplesmente queimá-lo, pois consideravam-no um ícone da idolatria católica. Mas guardas católicos, já antevendo isso, já tinham desmontando-o e escondido na torre da catedral.

Cordeiro Mistico.jpg Painel central – “A Adoração do Cordeiro Místico”. Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Ghent_Altarpiece#/media/File:Retable_de_l%27Agneau_mystique_(7).jpg

Esta obra também atraiu o interesse de Napoleão Bonaparte. Durante as guerras napoleônicas foi tomado como despojos de guerra e levado para Paris, sendo exposto no Louvre. Com a derrota da França, em 1815, voltou para Ghent. Depois disso o retábulo sofreu uma espécie de “esquartejamento”: algumas partes foram separadas e vendidas, ficando ele por mais de cem anos dilacerado. Essas partes foram parar em Londres, Berlim e Bruxelas. Durante a Primeira Guerra Mundial a Alemanha tomou da Bélgica as partes pertencentes a este país. Com o final da guerra, e como uma das condições do Tratado de Versailles, a Alemanha comprometeu-se em devolver o retábulo à Bélgica. Em 1920, todos os painéis foram reunidos novamente, depois de um século, e retornados a Ghent. Mas não por muito tempo…

Em 10 de abril de 1934, dois painéis do retábulo, “São João Batista” e “Os Juízes Íntegros” foram roubados por Arsène Goedertier, sacristão da igreja de Ghent. Um deles (“São João Batista”) foi devolvido pelo ladrão, ainda anônimo, num “ato de boa fé” após a troca de 11 cartas com o governo belga. No seu leito de morte, ele revelou ser o verdadeiro ladrão e disse que só ele sabia o paradeiro do outro painel. Mas ele faleceu antes de revelar onde estava escondido o segundo (“Os juízes íntegros”), que foi substituído por uma cópia exata, feita por Jef Van der Veken em 1945.

painel faltando.jpg Detalhe do painel faltante. Fonte: http://gabineted.blogspot.com.br/2014/01/o-cordeiro-mistico-ressucitado.html

Durante a Segunda Guerra Mundial, a fim de protegê-lo, foi assinado um acordo entre Alemanha, França e Bélgica, estas duas ocupadas pelos nazistas, para o transporte da obra para o Vaticano, para que ela não fosse danificada pela guerra. Mas Hitler queria a todo custo o Retábulo em solo alemão. Não apenas pelo ser valor cultural, muito apreciado pelo líder nazista, mas também servido como uma espécie de afronta ao item do Pacto de Versailles, considerado extremamente humilhante para os alemães. Além disso, há rumores de que o Füher estava convencido de que esta pintura continha uma espécide de mapa codificado para se encontrar tesouros católicos conhecidos como Arma Christi: instrumentos usados na Paixão de Cristo, como a coroa de espinhos, o Santo Graal, e a lança que perfurou seu peito. Segundo esses rumores, Hitler acreditava que a posse desses objetos conferir-lhe-iam poderes sobrenaturais e trariam a vitória dos nazistas e a implantação do Terceiro Reich na Terra.

Arma Christi.jpg Representação da Arma Christi – Igreja de São Pedro de Collonges-la-rouge, França. Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Arma_Christi#/media/File:Passion-instruments.jpg

Em 1942 Hitler ordenou que ele fosse transportado para o Castelo de Neuschwanstein, reduto alemão de muitas obras de arte pilhadas durante a guerra. Quando so Aliados começaram a se aproximar cada vez mais da Alemanha e promover massivos bombardeios, ele foi transferido para as minas de Sal em Altaussee, na Ástria, que transformaram-se em verdadeiras minas de tesouros com o espólio nazista de muitos museus do mundo inteiro e também coleções particulares. O valor das obras ali armazenadas era incalculável. Pra se ter uma ideia do que estava ali escondido, o escritor Robert Edsel, em seu livro “Caçadores de Obras-Primas“, relaciona as obras da seguinte forma:

6577 quadros 230 desenhos ou aquarelas 954 gravuras 137 esculturas 129 peças de armas e armaduras 79 cestos de objetos 484 objetos como caixas que se pensa serem arquivos 78 peças de mobília 122 tapeçarias 181 arquivos 1200-1700 caixas aparentemente com livros ou similares 283 caixas com conteúdo totalmente desconhecido

O retábulo foi encontrado pelos americanos e uma verdadeira estratégia de engenharia foi elaborada para sua retirada das minas de sal, dezenas de metros dentro da terra. Depois disso foi devolvido para a Bélgica no final da guerra. Durante uma cerimônia no Palácio Real de Bruxelas, presidida pelo Rei Belga, ele foi apresentado à imprensa. Numa espécie de retaliação, nenhum funcionário francês foi convidado para a cerimônia pois, em tese, estes permitiram a transferência da Obra para a Alemanha. Difícil seria não resistir, já que a França estava ocupada e sob o domínio nazista. Depois retornou para sua casa original, onde está até hoje.

Resgate em Altaussee.jpg Resgate do Retábulo das minas de sal de Altaussee. Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Ghent_Altarpiece#/media/File:Ghent_altarpiece_at_Altaussee.jpg

Provavelmente nunca saberemos o real motivo desta obra de arte ser tão desejada e disputada: pelo seu valor artístico, histórico ou, quem sabe, místico e misterioso. Mas, como escreveu o historiador Noah Charney, sua história alçou-a de um simples objeto para uma entidade com vida própria: “Com o seu roubo na Segunda Guerra Mundial, e a subsequente caça dos Aliados para resgatá-lo da destruição nas mãos dos Nazistas, a habilidade em salvar esta pintura tornou-se uma metáfora para a salvação da Arte. Por todas suas aventuras, a biografia do Retábulo de Ghent, um objeto inanimado, parece de longe mais dramática que a vida de um ser humano. Talvez seja, como muitos velhos professores sugeriram, o objeto real mais desejado da História”.

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