O AMOR É O AVESSO DO IDEAL

O AMOR É O AVESSO DO IDEAL

Amar dói pois o amor, na prática, é o avesso do ideal. Amar dói porque o amor remete-nos a nossa própria solidão. É só quando desejamos estar plenamente com o outro que nos damos conta de que não estamos plenos em lugar nenhum. É somente quando desejamos possuir verdadeiramente o outro que percebemos que não possuímos nem a nós mesmos. É apenas quando temos medo de perder o outro que reconhecemos que, em muitos aspectos, somos nós que estamos perdidos.

Por que sofremos por amor?

Porque o amor comporta o impossível. O desejo de fundir-se ao objeto amado, o desejo da completude, o desejo do encontro perfeito, sem furos, sem falhas, sem perturbações, existe. O desejo existe; a satisfação plena, não. Ela é impossível.

O desejo existe pois não há satisfação plena. O desejo brota da falta, da própria hiância estrutural que funda o sujeito em um universo de linguagem. Desejamos pois somos faltantes. Somos faltantes porque falamos e falar não é o suficiente. Falamos porque amar dói e o amor é uma linguagem.

Por que viver e falar?

Para amar, e encontrar, a cada novo amor, novos desencontros. Um é a metade da laranja e o outro é a metade da maçã. Almas distintas, contrastantes, afastadas psíquica ou geograficamente, são atraídas por uma força descomunal. Fissuras, curto-circuitos, conflitos reeditados. Afastamentos e aproximações.

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Alguns amores são melhores do que os outros, mas quem pode julgar um amor senão aquele que o vivencia?

Amar o outro é amar -se. Odiar o outro é odiar-se. Quem não conhece o ódio não conhece o amor. Quem sou eu em você e quem é você em mim?

O amor é uma miragem, onde vemos os nossos ideais refletidos em outrem. O amor é um grande espelho para a nossa própria alma, mar profundo que reflete o impensável do céu.

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Temática universal que nunca se esgota. Poetas, filósofos e sábios não se cansam de versar sobre ele. O amor é um artefato humano, produzido por meio da linguagem, a partir da potência pulsional.

Goethe, no Fausto, escreveu:

“Para o amor!

Fictício é o teu par de asas, As setas são garras, Tua grinalda oculta as lanças, Também tu és, Não há sombra de dúvida, Como todos os deuses da Grécia, Um demônio disfarçado.”

Amar dói porque o amor remete-nos a nossa própria solidão. É só quando desejamos estar plenamente com o outro que nos damos conta de que não estamos plenos em lugar nenhum. É somente quando desejamos possuir verdadeiramente o outro que percebemos que não possuímos nem a nós mesmos. É apenas quando temos medo de perder o outro que reconhecemos que, em muitos aspectos, somos nós que estamos perdidos.

Amar dói porque os momentos de amor são inapreensíveis. Amar dói porque os ideais não existem. Amar dói porque o outro vai ser sempre o outro, ou seja, o diferente. Amar dói porque o amor é incontrolável e imprevisível. Amar dói porque o amor é um deus cruel. Amar dói porque o amor é desejar tudo e encontrar, a cada desilusão, o próprio nada.

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O amor é um erro. O amor é uma piada. O amor é um guarda-chuva quebrado pelo vento. O amor é uma animal selvagem solto na cidade. O amor é uma loucura. O amor é um ataque de riso. O amor é um pesadelo. O amor é um grito no escuro. O amor é um golpe de toalha molhada.

O amor, na prática, é o avesso do ideal. E isso dói. E como dói…

 

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