A PANDEMIA DA TRISTEZA

A PANDEMIA DA TRISTEZA

A pandemia da tristeza se alastra sobre o mundo. Os miseráveis não têm forças para contê-la. Os burocratas não têm tempo de contê-la. Os reis não querem contê-la. A esperança do antídoto vive nos bolsos de algumas figuras melancólicas que transitam entre nós.

Existe uma pandemia silenciosa de tristeza no mundo.

A verdade é que estamos, de modo geral, muito infelizes. Para constatar, basta que lancemos um olhar detido sobre a cidade.

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Lá, enxergamos burocratas que perseguem suas pressas e suportam acordados a rotina com doses intervaladas de café preto. À noite, exaustos, entregam aos enredos dramáticos das novelas seus restos de sentimentos, que é um modo passivo e seguro de gastá-los.

Os burocratas, no entanto, são apenas o estrato médio do quadro dinâmico que flagramos nas avenidas congestionadas das cidades.

Sob pontes e viadutos ou estendidos ao longo das calçadas poeirentas, encontramos também os miseráveis, pessoas que se encontram à margem de tudo o que existe. Estes, na verdade, sequer parecem existir. Os burocratas, muito atentos a seus relógios de pulso, saltam com indiferença sobre seus corpos e desviam impacientes de suas mãos quando estas insistem em suplicar moedas.

Às vezes, os miseráveis interrompem bruscamente o caminho dos burocratas. Com violência, fazem-se ouvir e reclamam sua parcela de existência no mundo. Só assim os burocratas se veem obrigados a pensar nos miseráveis. Amedrontados, pensam com ódio. E, assim, burocratas e miseráveis contrapõem-se, tornam-se inimigos mortais.

Nesse conflito, os burocratas, mais poderosos, fazem o possível para manter o status quo – ou seja, afundar os miseráveis cada vez mais na miséria, responsabilizando-os por sua fome, sua dor e sua invisibilidade. É dessa forma que o estrato médio lava-se de qualquer culpa e pode prosseguir orgulhosamente na acossa de seus deveres enfadonhos e na consumação de seus dias circulares.

Como o ódio não é um sentimento bom, acrescenta-se uma farta porção de tristeza ao mundo. Os prédios da cidade ganham uma demão generosa de tinta opaca que se infiltra diretamente nos corações das pessoas, empedrando-os.

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Lá em cima, onde não podemos ver ou entrar, em escritórios muito bem aparelhados e climatizados, um pouco abaixo de onde supostamente se encontra deus, estão os reis. A estes interessa profundamente o conflito mantenedor do status quo que se trava entre burocratas e miseráveis, conflito este a que assistem confortavelmente de suas janelas com películas escuras.

Na verdade, é muito difícil enxergar um rei. Mais complicado ainda é saber por que meios eles governam. Portanto, é quase impossível atingir um rei.

Os reis descendem dos antigos alquimistas e conhecem o segredo de criar ouro a partir de outros elementos: no caso, a felicidade. Os reis acumulam, portanto, a felicidade do mundo e a convertem em ouro. Não se tornam necessariamente mais felizes com esse processo; fazem-se apenas mais e mais ricos.

Há, ainda, os poetas; é impossível negar que existam os poetas. Fluidos, eles não se encontram acima ou abaixo de nada.

Os poetas podem estar entre os burocratas, entre os miseráveis e mesmo entre os reis. São figuras melancólicas que, infiltradas, têm a sensibilidade de perdoar e inventar esperança onde não há mais qualquer indício de que um mundo melhor seja possível. Ainda que os aparelhos não captem qualquer batimento, os poetas estão constantemente tentando dar vida às coisas desfalecidas.

Ser poeta é perdoar a feiura do mundo, a indiferença das pessoas, a desconexão das relações. Ser poeta é ainda ter esperança, apesar dos fracassos reiterados. É descer ao caos para recolher seus materiais menos vulgares e, através deles, tentar construir algo valioso. É sobre os escombros que os poetas erguem coisas belas.

Às vezes, trata-se de uma criança miserável que afaga um cão imundo na calçada. Ou de um casal de burocratas que guarda um beijo de saudade para o término quotidiano do expediente. Pode tratar-se de um rei que, preocupado com o próprio trono bizarramente cravado em um chão de destroços, decide abandoná-lo e procura reconverter o ouro em condições mínimas de felicidade aos outros.

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Genericamente, poesia é todo o esplendor que se opõe ao entorno morto.

Está com os poetas, portanto, a esperança de descamar esse mundo triste. Ao contrário das doenças epidêmicas que acometem o corpo, a tristeza não deve ser nunca posta em quarentena. O isolamento é um dos fatores de agravamento dessa epidemia silenciosa que se alastra sobre o mundo. O diálogo, o contato, o abraço e o cuidado, por outro lado, são seus antídotos.

A boa notícia é que esses remédios de tratar a tristeza são acessíveis a todos e jamais se esgotam. Quanto mais uso se faz deles, mais abundantes ficam. Um dia, alertam os poetas, o esbanjamento dos medicamentos poderá suscitar uma nova pandemia, uma pandemia avessa cujos principais sintomas serão: o aparecimento das cores, das razões e dos sorrisos.

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