ESCRAVOS, MESMO NA LIQUIDEZ DA MODERNIDADE

ESCRAVOS, MESMO NA LIQUIDEZ DA MODERNIDADE

Acorrentados, presos a grilhões que não vemos.
Acostumados com os pesos da modernidade, seguimos caminho acreditando que entendemos o sentido de liberdade, quando não passamos de escravos de nós mesmos.

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Não há como alienar-se, não há como fugir. Estamos tão conectados e ao mesmo tempo tão dependentes dessas conexões que mesmo exaustos continuamos correndo atrás de novas. Não se engane, não estou falando de ligações ou conexões duradouras. Não as necessitamos, não as queremos. Preferimos as líquidas. Aquelas que se vão com um sopro ou vento qualquer.

Os líquidos possuem um estado de atração intermolecular natural. A propriedade de tomar a forma do volume que os contém, porém, qualquer força exercida pode quebrar facilmente essas ligações, dependendo de suas características. Em algum ponto no século passado, mais precisamente no pós-guerra, efetuamos uma fusão nos âmbitos sociais, saímos da solidez para a liquidez. Sem encontrarmos uma espécie de “ponto triplo”, em todo caso, continuamos escravos.

A história do ser humano é uma história de escravidão. Dê uma passeada pelo tempo dos egípcios e judeus, perneie o império romano, as cruzadas, o holocausto. Desde que o tempo se chama tempo ver-se-á tipos de escravidão. Racial, econômica, religiosa ou política. Não há como regredir o suficiente a encontrar suas origens, ela está tão incrustada no ser humano que é impossível encontrar um princípio.

Nos livramos de várias formas de escravidão e acabamos entrando em outras muito mais perigosas, a escravidão interior, a temporal, a do consumo e a de um novo tipo de convívio humano. Saímos da solidez dos tempos totalitaristas para a liquidez da modernização. Bom seria que tivéssemos parado em algum ponto intermediário nessa migração, que coexistíssemos em uma fase sólida-liquida.

Vivemos uma modernização “compulsiva e obsessiva, continua, irrefreável e sempre incompleta. Uma opressiva e inerradicável, insaciável sede de destruição criativa. Ou de criatividade destrutiva, se for o caso: de “limpar o lugar” em nome de um “novo e aperfeiçoado” projeto. De desmantelar, cortar, defasar, reunir ou reduzir tudo isso em nome da maior capacidade de fazer o mesmo no futuro – em nome da produtividade ou da competitividade. ” Diz Bauman.

Por que não conseguimos encontrar o equilíbrio?

A liquidez de nossas relações pode ser explicada pelo fato de não somente estarmos a querer modernizar continuamente o nosso redor, como nós mesmos. A insatisfação pessoal não deixa espaço para o outro. No momento em que isso ocorre o interesse de nossas relações é exclusivamente egocêntrico. O outro tem somente utilidade no que tange ao aperfeiçoamento do eu, é por isso que que nossas ligações se tornam descartáveis. O que importa é a nossa leveza, mesmo que isso signifique as dores lombares de outrem.

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Escravos da modernidade, também somos escravos do tempo. Nossa dependência temporal se encontra na tentativa contínua e obstinada pela adequação ao “volume social” em que estamos inseridos. Não confunda, a modernidade não trouxe para si uma total falta de pensamento crítico ou ideológico. O que ela trouxe foi a ausência de tempo para que este pensamento crítico possua o efeito propositado. As alterações do modo de pensar ocorrem com velocidade maior que a necessária para que ideias resultem em ações.

O que sucede à crítica é outra crítica. O que sucederá a esse texto, será outro texto. Ele te fará pensar no valor e realidade de suas ligações emocionais, mas quanto tempo se passará até que tu voltes para a comodidade que a modernidade oferece?

Todas as transformações sociais exigem movimentação. De mecanismos, de esferas ou de princípios. Contudo, nos perdemos na dicotomia da potência e impotência da modernidade antes que possamos fazer algo a respeito para que as engrenagens que movem essas transformações possam engajar. No momento em que nos perdemos, não passamos de falsários a enganar nós mesmos que a mudança pode vir de maneira natural e extrínseca a nossas ações.

Já está mais do que na hora de encontrarmos uma continuidade ideológica e de autocrítica. Aposentar os interesses exclusivamente pessoais pelos do outro. De fixarmos os olhos no alvo e só permitir que estes desviem quando as flechas atingirem o centro. Na continuidade da autocrítica encontramos um hábito, no hábito encontramos as transformações do pensamento, daí somente é que aparecem as transformações das ações.

 

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