Uma história, duas narrativas: como israelenses e palestinos veem o 15 de maio de 1948?

Uma história, duas narrativas: como israelenses e palestinos veem o 15 de maio de 1948?

(superinteressante)
Por Priscila Bellini e Ana Luísa Fernandes

 

Para uns, o dia 15 de maio de 1948 é uma data que lembra a criação do Estado de Israel. Para outros, esse é o marco de uma grande catástrofe. Literalmente. Para os árabes, o 15 de maio é o Dia da Nakba e “Nakba” quer dizer “catástrofe”. A data lembro os eventos que expulsaram mais de 800 mil palestinos de suas casas. Por isso, neste especial sobre o Dia da Nakba, conversamos com israelenses e árabes que testemunharam os eventos na época. Aqui, você vai encontrar detalhes sobre os vários lados dessa história e saber o que realmente está por trás do conflito.

Para entender duas visões tão opostas da mesma data, é preciso relembrar como foi criado o Estado de Israel. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o mundo inteiro estavam empenhado para evitar que novos conflitos acontecessem. Nessa época, a recém-criada ONU assumiu o posto de organização supranacional que se propôs a achar a saída para diversos impasses pelo mundo. Entre eles, a tentativa de fundar, no Oriente Médio, um lar para o povo judeu, que havia sido massacrado no Holocausto. Então, na resolução 181 de 1947, a ONU resolveu dividir a Palestina em dois: o lado destinado aos judeus, que totalizaria 53% do território (e que compunham apenas 15% da população), e o lado árabe, que ficaria com 47% da terra (e que era a maioria dos habitantes).

 

A VERSÃO PALESTINA
A Nakba: o massacre que não terminou

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No dia da Nakba, crianças em Gaza seguram chaves para simbolizar o retorno à terra palestina.Foto: Abid Katib / Equipa / Getty Images

Se você caminhar por uma ruazinha qualquer da cidade de Al-Khalil (ou Hebron, na versão em hebraico), na Palestina, pode parar um transeunte e perguntar sobre a Nakba. O termo, que ao pé da letra significa “catástrofe”, está bem vivo na memória dos palestinos e muita gente conhece seu significado histórico na ponta da língua. A expressão descreve o processo de expulsão do povo local. Até hoje, árabes dizem que houve uma limpeza étnica na região depois da criação do Estado de Israel. Nessa série de conflitos, muitos vilarejos palestinos foram dizimados e mais de 800 mil palestinos tiveram de buscar refúgio em outros cantos do mundo.

O território palestino já vivia em conflito antes de 1948. Desde 1923, a Palestina vivia sob domínio inglês e diversos revoltas brigaram pela independência do país. Quando judeus começaram a comprar terras por lá e, depois, a ONU garantiu um território extenso para os judeus da região, os protestos árabes ganharam força.

De acordo com os palestinos que viviam por lá, grupos sionistas armados já aterrorizavam as vilas muito antes da grande catástrofe. “Muito antes de 1948, esses grupos atacavam os árabes. Nós recebíamos as notícias sobre os assassinatos”, conta Mazen Nicolas Manasseh, palestino de Haifa, que vive hoje em São Paulo. Ele foi um dos milhares que deixaram suas casas devido aos ataques em 1948, aos sete anos de idade. As milícias sionistas como a Haganah, que atuavam nessa época, serviram de embrião para estruturas militares futuras, como a própria Força Armada de Israel.

A grande catástrofe

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Palestinos deixando suas vilas em 1948.  Foto: Gnuckx / Creative Commons

O descontentamento com a partilha da Palestina fez a região mergulhar em protestos. A situação piorou de vez com o reconhecimento do Estado de Israel, em maio de 48, um marco da Nakba. Com isso, as tropas sionistas deram início a um plano para “limpar” o território de seus habitantes palestinos. O palestino Abder Raouf Ibrahim Misleh, que hoje mora no interior de São Paulo, relembra o ataque à sua aldeia, Kakun. Foram jogadas bombas na na praça central, onde a população se reunia ao fim do dia. Ele, que tinha 13 anos de idade à época, mal tinha saído da escola e se deparou com a destruição do local, onde cerca de 40 pessoas haviam morrido. “Era difícil reconhecer quem era quem. Tive de passar a mão pelo rosto de uma das crianças mortas, para tentar reconhecer quem era ele”, relata. Também coube a Abder Raouf levar a notícia à família do menino, que havia sido morto no ataque. Ele deixou a Palestina em 1948, rumo à Jordânia.

Ataques semelhantes aconteceram em diversas partes da palestina, devastando por volta de 500 vilas. O número de pessoas que foram expulsas de suas terras e tiveram de buscar refúgio em outros lugares chegou ao marco dos 800 mil palestinos . O problema maior é que a catástrofe não se restringiu a 1948 e a Palestina ainda sofre com o processo de expulsão e limpeza étnica. “A Nakba ainda não acabou, a Nakba acontece todos os dias”, resume Abder Raouf.

 

A VERSÃO ISRAELENSE
A independência e o retorno às origens

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Aniversário de 25 anos da declaração de independência de Israel, em Jerusalém. Foto: Keystone / Stringer / Getty Images

“Portanto desci para livrá-lo da mão dos egípcios, e para fazê-lo subir daquela terra, a uma terra boa e larga, a uma terra que mana leite e mel (…)”. Foi o que Deus disse para Moisés, ou pelo menos é o que está escrito na bíblia. A terra que jorra leite e mel era Canaã, que hoje compreende Israel, a faixa de Gaza e outras partes do mundo árabe. Deus teria prometido essa terra ao povo hebreu há aproximadamente 3800 anos atrás. Ou seja, há muitos anos o povo judaico acredita que tem direito à terra que hoje é Israel.

O começo da guerra

Adam Levi* é um judeu que viu a história da independência de Israel se desenrolar na sua frente. Nascido na ainda chamada Palestina e morando no Brasil há mais de quatro décadas, era uma criança de 12 anos quando presenciou a guerra. Ele afirma que a sua infância foi de intensa convivência com árabes, tendo inclusive aprendido a língua quando criança. E todos se davam muito bem até mais ou menos o ano de 1942, quando os ingleses começaram a estimular a disputa entre os dois povos. Tudo para não perder o poder de influência sobre o Oriente Médio.

No dia 29 de novembro de 1947 o Plano de Partição da Palestina foi aprovado. Os líderes palestinos de facções mais radicais se sentiram injustiçados com a situação e recusaram o plano, mesmo com a aceitação de Israel e de uma boa parte dos povos árabes que lá moravam. As tropas israelenses foram eficientes na ocupação do território – enquanto a guerra civil, ou guerra palestino-sionista começava.

A tão aguardada independência

De uma só vez, três grandes eventos aconteceram: no dia 14 de maio de 1948 o mandato britânico teve fim, a independência de Israel foi proclamada e os árabes invadiram o Estado recém-criado. Para muitos judeus, Israel não expulsou ninguém do seu território. Os líderes árabes, já planejando o ataque, teriam alertado o seu povo, que se retiraram por vontade própria.

A guerra foi sentida principalmente por Adam que viu aviões egípcios caindo do lado da sua casa, na Galileia. Ele, que ajudou nas construção dos Bunkers (estruturas fortificadas que protegem contra o inimigo) também perdeu primos e tios no período. Para ele e sua mulher, também judia nascida na antiga Palestina, a guerra faz crescer, por bem ou por mal. E ainda completam: “Os maiores problemas são os extremistas dos dois lados. Com conversa dá pra resolver tudo”.

*O nome foi trocado a pedido do entrevistado

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