O QUE DEIXAMOS QUE FAÇAM DO QUE FIZEMOS DAQUILO QUE FIZERAM DE NÓS?

O QUE DEIXAMOS QUE FAÇAM DO QUE FIZEMOS DAQUILO QUE FIZERAM DE NÓS?

Nossa primeira infância e como se deu o vínculo com os nossos pais ou com quem cumpriu essa função, as pessoas com as quais nos relacionamos durante nossa caminhada, as circunstâncias, as adversidades, as realizações, a própria vida em si e quase tudo o que conseguirmos imaginar das questões humanas e mundanas vai fazer de nós algo. Seremos muitas coisas com tudo isso que irão fazendo de nós desde que nascemos. Isso é da própria condição humana e inerente a todos. O que importa é o que fizemos, fazemos ou faremos daquilo que fizerem de nós. Mas o que é verdadeiramente essencial e vital é o que deixamos ou deixaremos que façam daquilo que nós fizemos do que fizeram de nós.

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Nesta menção inicial à Nietzsche, conversas despretensiosas aconteciam com um grupo de amigos quando um dos presentes sacou o celular e de repente a frase que estava sendo discutida era “O mal mais bem sucedido/ Vem sempre vestido de amigo.”… Minha resposta não poderia ser outra e disse: “Então não era amigo e ponto.” Penso que não há mal mais mal sucedido do que o mal vestido, mal pintado, mal fantasiado e muito mal disfarçado de amigo, pois esse é o primeiro mal que é descoberto, porque como há dois lados e o considerado amigo conhece um lado e pode lhe fazer mal, esse outro lado, da mesmíssima forma, também o conhece e pode fazer o mesmo mal, ou até pior, porque muitas vezes, a reação costuma ser sempre mais forte e arrasadora.

O que é fato é que, muitas vezes, nem é o mal do outro – amigo ou não – que nos afeta. A verdade é que, principalmente na atualidade, vivemos a depositar no outro muitas coisas nossas que não queremos enfrentar, que não queremos saber, que temos medo de sentir, que temos medo de mudar, que temos medo de viver e ainda caminhamos como se esse outro tivesse a “missão” de nos acompanhar. Obviamente é maravilhoso ter amigos, companheiros afetivos e pessoas queridas a nossa volta, mas eles não devem ser o depósito de nossas questões pessoais e intransferíveis, das consequências de nossas atitudes e muito menos carregar o peso de serem os responsáveis por nada que “nos complete”.

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Recomenda a prática que não criemos expectativas nem sobre os amigos, nem sobre o companheiro amoroso, nem sobre os colegas de faculdade ou de trabalho, nem sobre os pais, nem sobre os filhos e enfim, nem sobre ninguém e nem sobre as atitudes de ninguém, pois ninguém está neste mundo para satisfazer as nossas expectativas, preencher os nossos espaços, as nossas lacunas, ser nossa metade, nos completar ou qualquer coisa semelhante. Nenhuma metade de nada nem de ninguém dará conta de outra metade, porque metades mesmo quando juntas, serão sempre metades, pois uma vez cortadas, jamais serão inteiras novamente e podem se prejudicar muito tentando serem metades que se completam. Tanto é assim que, em situações limites como, por exemplo, situações de guerra, acidentes trágicos e até mesmo no nosso cotidiano, quando recebemos as famosas orientações de voo sobre as máscaras de oxigênio, a ordem é sempre nos estabilizarmos e cuidarmos de nós primeiro, para que, estando em boas condições – na medida do possível, em muitos casos – possamos ajudar o outro. Isso é feito justamente porque duas pessoas pela metade não conseguem se ajudar e o resultado pode ser a morte de ambas. Para estarmos com outro alguém em todo tipo de relacionamento, é assim também, ou seja, não podemos estar pela metade. Precisamos estar inteiros e que este outro alguém também esteja. Não existe metade quando o assunto é vida.

Ok, pode parecer difícil e realista demais para o “ser humano demasiado humano” chegar a esse estágio de entendimento e de ação, mas a vida vai ensinando a quem quer aprender. Parto da premissa que, estando nós inteiros, os outros só fazem conosco aquilo que permitimos, seja o que for ou na medida em que for, em relação a algum mal, em relação às tais expectativas e em relação a tudo o que é humano. Precisamos dar limites a todos e a tudo o que nos cerca e precisamos fazer escolhas. Precisamos delimitar quais espaços nossos não são permitidos a A ou B ou a ninguém, se assim o desejarmos e quais espaços poderão ser transitáveis por outros que também escolheremos. Exatamente por isso, metade de nada completa nada nem ninguém e não consegue delimitar nada e muito menos fazer escolhas.

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Se delimitamos espaços nossos, se aprendemos a dizer não, a colocar limites, a não esperarmos tanto nessa vivência da expectativa do outro, nos libertamos também de qualquer mal que qualquer pessoa possa tentar contra nós, pois mesmo que o mal venha – e é bem provável que ele venha de algum lugar em algum momento de nossas vidas e isso é bem normal – se há limites e espaços delimitados e se estamos inteiros, ele não nos surpreende tanto assim, pois acabamos por entender um pouco mais da dinâmica humana, entender que um mal ou outro faz parte da condição humana e devemos aprender a lidar com isso – não aceitar ou permitir, que são coisas bem distintas de entender e aprender a enxergar com novos olhares toda essa dinâmica. E, entendendo melhor a dinâmica humana, nos capacitamos melhor também para entendermos a nossa própria dinâmica, dando vez e voz a nós em primeiro lugar e não ao outro. E quando não é o outro que fala primeiro a respeito de algo que não é dele e sim nosso, pois trata-se de nossa vida, nossas escolhas, nossas atitudes – e nem por último, pois os limites que impomos também estão a este serviço, a serviço das nossas escolhas – este outro, seja quem for, não tem controle sobre mais nada que é nosso e nos pertence no que tange à nossa essência. Esse controle é nosso. Não controle que signifique orgulho em sua forma negativa, prepotência, disputa de poder, ou controle por arrogância, por superioridade ou nada semelhante, mas por genuíno e legítimo respeito a nós mesmos e porque cada ser humano deve poder ser o dono e o responsável por sua própria vida, por suas escolhas, por seus caminhos, por sua voz e fala, por seu silêncio e por inúmeras outras questões que fazem parte de si, lhe pertencem e, principalmente também porque cada ser humano deve poder ser dono e responsável por sua essência e pertencer-se a si mesmo.

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É precisamente isso que precisamos ir aprendendo na vida e nos caminhos que vamos percorrendo. E nem por isso, precisamos deixar de ter ou deixar de lado amigos, família, namorados, maridos, colegas de faculdade ou de trabalho e afins. Muito pelo contrário. Tudo é uma questão de escolhas e de atitudes. Elas são quem somos, nos definem e nos distinguem inexoravelmente. E elas sempre estiveram, estão e sempre estarão em nossas mãos. A magia está dentro. É por dentro que somos e que nos movimentamos… Se formos de dentro para fora, pouquíssimas coisas no mundo nos afetarão como se fosse realmente um mal – ou sentido como tal de forma a nos abater. Definitivamente não. Basta escolhermos o que está de acordo com nossa essência e tudo o que deriva dela ou não, ou seja, com o que está de acordo com nosso mais profundo só nosso, o nosso pertencimento a nós mesmos ou não – nas mais diversas e diferentes esferas da vida – se aceitamos ou não, se desejamos e queremos ou não, se está de acordo com quem somos ou não, se permitimos ou não… A decisão é só nossa. Um dia – algum dia – precisaremos decidir e escolher.

 

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