O VILÃO IDEALISTA E O FIM DO CAPITALISMO

O VILÃO IDEALISTA E O FIM DO CAPITALISMO

O que personagens como O Coringa (The Dark Knight), Ultron (Vingadores 2), Light Yagami (Death Note) nos revelam sobre a ideologia dominante e o que esses personagens nos dizem sobre o processo de reificação ideologica? É mais fácil vislumbrar o fim do mundo do que o fim do capitalismo? O que Os irmãos Karamazov de Dostoiévski tem a ver com tudo isso? Vejamos:

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O vilão idealista é um tropo comum na ficção, da literatura e no cinema. Sua presente é geralmente concebida em obras que buscam, em sua construção, borrar as linhas maniqueístas que separam heróis e vilões, bem e mal, certo e errado e etc. O vilão idealista exige uma construção mais cuidadosa, explorando suas motivações e, claro, o ideal que motiva suas ações. Existe uma consistência da reprodução do tropo do vilão idealista na literatura, desde as tragédias gregas, até a idade média, períodos pré-capitalistas e etc. Entretanto, a análise de sua existência e (possível) proliferação nos diferentes meios de comunicação e artes é especialmente interessante dentro do contexto do capitalismo tardio.

É muito comum na cultura de massas o vilão idealista assumir um papel apocalíptico – expurgar a humanidade da terra para que se construa um mundo melhor ou se salve o mundo presente. Só em 2015, no cinema, é possível identificar dois exemplos do tropo – Nos filmes Os Vingadores 2: A era de Ultron (Joss Whedon) e Kingsman, O Serviço Secreto (Matthew Vaughn). São eles, respectivamente, Ultron (voz de James Spader), a inteligência artificial tirânica, criada pelo herói Tony Stark, que, seguindo numa mesma linha que outras I.A’s contemporâneas (Samantha do filme Her, por exemplo), tem pleno acesso a todas as informações disponíveis no cyberespaço e sua conclusão à partir dessas informações é: A humanidade está destruindo o mundo, é preciso que ela seja exterminada. O outro é Valentine (Samuel L. Jackson), um gênio da tecnologia e filantropo que, sabe-se lá como, chegou a conclusão de que a superpopulação da terra está exaurindo os recursos naturais e que é preciso realizar uma “limpeza” da população humana, usa como argumento que o aquecimento global é tal qual a febre do corpo humano doente, ou seja, denota uma doença ou um vírus – os humanos.

Tal vilão idealista “apocalíptico” é talvez o mais recorrente, podendo ser encontrado em diferentes médios de comunicação e cultura, há Light Yagami na serie de anime e mangá Death Note, que através de um caderno mágico ceifa a vida de todos aqueles que ele julga criminosos e tem como objetivo último criar uma sociedade pacífica através do medo e do extermínio dos “criminosos” e “mal-feitores”. Há também o extraterrestre do filme The Day the Earth Stood Still (Robert Wise, 1951) que vem à Terra dar um ultimato aos humanos: Ou vivem em paz ou serão extintos. Mesmo quando o vilão idealista-apocalíptico não é representado por uma entidade em particular, como na serie de mangás Kiseijuu (Parasyte), em que diversos parasitas são enviados à Terra por uma “força maior” para controlar o aumento populacional (devorando os humanos) e previnir a exaustão dos recursos naturais do planeta, há sempre uma constante no subtexto de suas motivações e ações – É mais fácil vislumbrar o fim da humanidade ou um genocídio em mega-escala do que o fim do capitalismo.

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Ora, a motivação principal da imensa maioria desses vilões é clara: Salvar o planeta da humanidade destruidora e blablabla. Essa concepção de “salvação” pela destruição escancara as dificuldades culturais de se conseguir pensar em um mundo que não seja regido por exploração de recursos naturais e humanos em uma busca constante de acumulação de capital e valorização do valor, pelo capitalismo. O mundo ideal de Light Yagami e Valentine ou dos Parasitas de Kiseijuu provavelmente ainda seriam regimes de exploração da força de trabalho regidos pela forma-valor, regimes capitalistas, portanto. É, de fato, a naturalização do capitalismo, da exploração e do acumulação de capital, como essencialmente humano, o que não é. Ora, não é nenhum exagero postular (de uma maneira superficial) que o fim do capitalismo resolveria os impasses propostos por tais vilões – exaustão dos recursos naturais, guerras e etc. Porém, a utopia comunista é muito mais difícil de ser imaginada do que o Armaggedon total.

Existem, entretanto, casos particulares de vilões idealistas que declaram guerra contra o próprio sistema vigente, o que, ironicamente, já os torna, automaticamente, vilões. Mas a discussão é mais profunda. Peguemos o exemplo do mais célebre desses personagens – O Coringa, o arquinimigo do Cavaleiro das Trevas, Batman. O Coringa, em todas as suas variações, mantém sempre uma missão e uma ideologia essencial: a destruição do sistema vigente. De todas as variações do personagem, é no filme de Christopher Nolan, que está mais evidente essa ambição. Por mais subversiva que possa aparentar essa postura do personagem, em sua guerra declarada contra o sistema vigente, o Coringa torna-se, por oposição, um elogio ao sistema vigente – O vilão, Coringa, é contra a ordem e o herói, Batman, é a ordem personificada. Para exemplificar a gênese desse personagem como elogio ao sistema, comparemos o Coringa e a discussão apresentada no capítulo “O Grande Inquisidor” do canônico livro de Fiódor Dostoiévski, Os Irmãos Karamazov. No livro, o grande inquisidor é um poema que Ivan recita para o seu irmão Aliéksiei, no poema o personagem titular, o inquisidor, ao se deparar com Jesus, que ressuscita e cumpre as profecias, questiona:

“Será que não pensaste que ele (o Homem) acabaria questionando e renegando até tua imagem e tua verdade se o oprimissem com um fardo tão terrível como o livre arbítrio? ”

O significado não é de difícil entendimento, o questionamento simboliza uma das questões principais que permeiam todo o livro – Se Deus não existe, tudo é permitido? Em suma, sem a existência metafísica da figura divina, sem a represália pelas atitudes terrenas (o inferno no pós vida), cairia a humanidade na barbárie e na imoralidade completa? Transpondo esse questionamento para a realidade do Coringa/Batman, podemos tirar um posicionamento similar: Se todas as instituições, normas sociais, divisões de classe e trabalho forem aniquiladas, a humanidade cairia na barbárie? No filme de Christopher Nolan, o próprio Coringa diz, em uma conversa com o próprio Batman na delegacia:

“You see, their moral, their codes. Its a bad joke. They’re dropped at the first sign of trouble. They’re only as good as the world allows them to be. I’ll show you. When the chips are down, these… civilized people… they’ll eat each other.”

A implicação disso é, portanto, repito, um elogio ao sistema vigente. Se não forem pelas leis, instituições, normas e códigos de conduta burgueses (estes que foram culturalmente construídos e culturalmente naturalizados), a humanidade recairia no anarquismo (no sentido negativo) e a barbárie – Uma antítese da afirmação de Rosa Luxemburgo, de que que o próprio capitalismo resulta, invariavelmente, na barbárie (e a nossa história recente corrobora superficialmente com essa afirmação). No universo do Coringa e do Batman, o fim do capitalismo é, portanto, a pior coisa que pode acontecer naquilo que diz respeito ao bem e mal, certo e errado, moral e imoral. Para não citar apenas um exemplo, citemos também o vilão idealista do grande romance de Cormac McCarthy, Meridiano de Sangue, o juiz Holden, que proclama a todo o momento, que a guerra e a violência é a única essência do homem e que a sociedade é não mais do que uma mentira feita para domesticar e enfraquecer essa essência humana. Essencialmente, é a mesma coisa.

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O processo de reificação ideológica e naturalização das normas burguesas é visível em diversos veículos, como mostramos brevemente. Mas não podemos dizer que isso de dá por uma manipulação meticulosa e constante, ora, as artes e os veículos de comunicação comerciais são essencialmente a-críticos e apenas reproduzem a ordem dada das coisas. É necessário que a esquerda esteja atenta a esses pequenos detalhes e, sempre que identificados, faça a crítica necessária dessas formas de reprodução das normas e morais burguesas. A disputa de poderes políticos objetivos padece em comparação com a luta ideológica que é travada (e vencida) pela burguesia todos os dias. Nenhuma revolução jamais pode ser feita se não for antecedida por uma revolução da ordem cultural e ideológica.

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