Literatura

A METAMORFOSE NO ESPELHO

A METAMORFOSE NO ESPELHO

Muitas vezes será difícil olharmos no espelho e nos reconhecer após mudanças tão drásticas, mas após determinadas mudanças poderemos nos olhar no espelho e realmente nos enxergar e não um reflexo do que esperam de nós.

Por muito tempo, coloquei como objetivo de leitura o livro Metamorfose, de Kafka. E por muito tempo, também, fui adiando tal leitura até o dia em que, finalmente ,entrei no admirável mundo de Kafka (que me perdoe Huxley). A leitura, assim como sua escrita, foi num só fôlego. Levei menos de um dia para terminar e quando terminei só pensava numa coisa: por que demorei tanto para ler esse livro? E entendi o porquê dele estar nos meus objetivos de leitura.

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Caso você tenha lido o livro também, talvez tenha uma visão diferenciada da qual eu tive. Caso não tenha lido, não se preocupe, nada do que ler aqui poderá, de alguma forma, estragar a sua leitura.

Um dos meus lugares favoritos para observar as pessoas são os transportes públicos. Seja ônibus, metrô ou trem. Interessante pensar quem são aqueles seres, para onde estão indo e, principalmente, por que estão ali. Olhar para nós mesmos, muitas vezes, é mais complicado e indecifrável que analisar o outro. Ao analisar o outro, podemos utilizar de todo tipo de julgamento, não conhecemos seus receios, seus medos, seus sonhos. Mas, fazer isso com nós mesmos é como nos jogar em uma sala cheia de espelhos, temos a escolha de ficarmos de olhos abertos e enfrentar toda aquela realidade que nos cerca, ou fecharmos os olhos e nos imaginar da maneira que quisermos.

Como a personagem principal, em alguns momentos da vida, aceitamos viver uma realidade que não é exatamente aquela que desejamos para atingirmos um objetivo que, também, não é aquele que almejamos. Porém, é a realidade necessária para fazer felizes aquelas pessoas que nos fazem feliz. Como forma de incentivo, utilizamos do bom e velho “farei isso somente até (…)” – qualquer informação preencheria perfeitamente os parênteses deixados. A grande questão, entretanto, é entendermos o que realmente é uma meta de vida e o que é apenas ilusão. Porque aquilo que vive dentro de nós, o nosso verdadeiro eu, uma hora ou outra resolve aparecer, e nem sempre é possível controlar. E é nesses momentos que é possível descobrir quem realmente somos e quem realmente nos cerca. E podemos realmente nos surpreender com ambas as situações. Quando mudamos, todo o mundo que nos cerca muda junto conosco, e nem sempre positivamente.

Quantas vezes não nos deitamos e, ao abrirmos os olhos para um novo dia, nos deparamos com um “eu” totalmente modificado? Porém, aceitarmos isso é tão difícil quanto, ou talvez mais difícil, os outros nos aceitarem desta nossa “nova forma”. Kafka nos mostra, de uma maneira muito perturbadora, como é mudar e como o mundo a nossa volta insiste em não aceitar tal mudança.

Nos primeiros momentos, nós mesmos não conseguimos aceitar que mudamos, procuramos entender o que está acontecendo, como se essa nova condição realmente não nos pertencesse. Os primeiros pensamentos são aqueles voltados para o que as outras pessoas irão pensar sobre essa nova forma de ser, talvez não nos assustemos com aquilo que vemos no espelho, mas sim com o nosso reflexo nos olhos daqueles que nos julgarão.

O primeiro local que iremos sofrer tal julgamento será, sem sombra de dúvidas, no seio de nosso lar. Nossos entes queridos, aqueles os quais incontáveis vezes apoiamos. Mostram-nos uma face de completa ingratidão, não são capazes de qualquer tipo de empatia. Assim, também, será a reação no nosso círculo de trabalho, ainda que, como o nosso herói metamorfoseado, nunca tenha sido causa de qualquer alarde, ao sinal de uma atitude fora dos padrões esperados, um pré-julgamento ocorre imediatamente, juntamente com os seus efeitos colaterais.

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Por fim, até mesmo pessoas das quais você nunca teve contato começam a julgá-lo, e para piorar, julgam também aqueles que de alguma forma escolheram ficar ao seu lado nessa mudança. E nesses momentos, onde parece que uma sociedade inteira está contra você e contra aqueles que de alguma forma abraçaram sua causa, aqueles que por um momento pareciam estar ao seu lado começam a titubear e se questionar se realmente deveriam estar.

Mesmo aquelas pessoas que nos sacrificamos tanto para fazê-las felizes, parecem esquecer tudo que se passou e analisam as mudanças negativamente. As pessoas que um dia você estendeu a mão para ajudar, às vezes, são as primeiras a empurrar você abismo abaixo. E outras que estiveram ao seu lado no começo de tudo parecem abraçar o medo de serem julgadas juntamente com você.

Claro que todo esse pensamento não é uma regra geral e sem exceções. É apenas uma das formas que as coisas podem acontecer, é apenas a forma que Kafka captou a metamorfose e suas eventuais consequências. Entretanto, sendo essa ou outra forma, as metamorfoses são necessárias e cruciais. O mundo só pôde evoluir até hoje através das mudanças que os homens fizeram, e toda mudança acarretou em medos, preconceitos, repulsa, intolerância, ódio e injustiça. Tudo regado à infinita ignorância.

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Mas de tudo isso, não extraí somente aquilo que é ruim, ficou a lição de que é necessário mudar. E se nos permitirmos fazer a mudança que achamos necessária, antes que ela ocorra de uma maneira inesperada demais, podemos tirar maiores benefícios da nova realidade. Muitas vezes, será difícil olharmos no espelho e nos reconhecermos após mudanças tão drásticas, mas após determinadas mudanças poderemos nos olhar no espelho e, realmente, nos enxergar, e não um reflexo do que esperam de nós.

 

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