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O EU FRAGMENTADO

O EU FRAGMENTADO

“Acordei com o sol rubro do fim da tarde; e aquele foi um momento marcante em minha vida, o mais bizarro de todos, quando não soube quem eu era – estava longe de casa, assombrado e fatigado pela viagem, num quarto de hotel barato que nunca vira antes, ouvindo o silvo das locomotivas, e o ranger das madeiras do hotel, e passos ressoando no andar de cima, e todos aqueles sons melancólicos, e olhei para o teto rachado e por quinze estranhos segundos realmente não soube quem eu era. Não fiquei apavorado; eu simplesmente era outra pessoa, um estranho, e toda a minha existência era uma vida mal-assombrada, a vida de um fantasma.”

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O mundo, o ambiente à nossa volta, as nossas impressões, as nossas sensações, são os responsáveis por nos fornecer informações para que determinemos o entendimento do meio em que estamos inseridos. Na literatura, geralmente, essa nossa construção primordial, e intrínseca, é conhecida como espírito; essa entidade é a estrutura de mundo que formamos, ela utiliza como base, para suas interpretações, aquilo que percebemos e aquilo que nos ensinam. No que concerne à psicanálise, esse entendimento profundo também é abordado, sendo caracterizado por inconsciente suprapessoal (Jung) e superego (Freud).

Após uma breve apresentação, talvez uma pergunta possa ter surgido na mente dos leitores: “Nós, que estamos situados em um ambiente que é uma referência em comum para todas as pessoas que existem, devemos possuir um conteúdo inconsciente semelhante, um espírito semelhante, quando comparados a outras pessoas, não é mesmo?” Para essa pergunta, que, pela lógica, deveria suscitar uma afirmativa confiante, a resposta é um categórico Não!

O ambiente em que estamos inseridos nos permite uma infinidade de inferências, uma infinidade de modelos plausíveis, uma infinidade de ramificações, consequências e possibilidades. Essa base, que nos permite qualquer tipo de associação, qualquer tipo de construção conceitual, qualquer tipo de arranjo do espírito, foi caracterizada por Kant como sendo a intuição pura. Em meio a possibilidades infinitas de construção vamos classificando e estruturando as nossas impressões. Cada um de nós é responsável pela construção de seus conceitos, cada um de nós estrutura o próprio espírito (o ambiente à nossa volta); o mundo é a nossa representação, e esperar uma representação exatamente idêntica, entre as pessoas, ou até mesmo da mesma pessoa em diferentes momentos de sua vida, é um absurdo.

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Referente aos conceitos que são construídos por nós — em um ambiente que nos permite infinitas interpretações —, percebemos o quanto é incoerente possuirmos apenas um único modelo de mundo; esse tipo de concepção limitada só pode ser resultado de uma percepção diminuta, de muitos deslocamentos, ou da falta de experiências. O cenário psíquico que nos parece mais comum, sendo ele a multiplicidade de interpretações do mundo, é a principal característica da fragmentação do Eu; mas, mesmo sendo essa o principal enfoque do texto, é preciso que façamos uma pequena pausa para analisarmos uma de nossas entidades psíquicas mais importantes, que na literatura recebe o nome de alma, enquanto na psicanálise é nomeada por Ego ou Eu (Freud) e por inconsciente pessoal (Jung). O Eu (ou alma, ou inconsciente pessoal) é aquilo que nos delimita em meio ao espírito (ou superego, ou inconsciente suprapessoal), determinando nossas características, de acordo com a melhor forma de nos situarmos perante a nossa representação de mundo. Possuindo uma tábula rasa, que permite qualquer tipo de associação, o ser humano vai, ao longo da vida, construindo a interpretação do ambiente em que está inserido e a forma como ele se relaciona com esse ambiente criado por ele. Nunca é demais lembrarmos que essas construções conceituais fogem do nosso controle consciente; provavelmente os animais possuem a mesma estrutura psicológica, o que evidencia a falta de necessidade da presença da consciência para que essas construções ocorram.

Após a apresentação de nossas estruturas psíquicas, a explicação do surgimento de um Eu fragmentado se torna mais simples. Essa ramificação individual, essa multiplicidade de formas de nos portarmos perante aquilo que interpretamos como sendo o ambiente à nossa volta, deveria ser mais comum. Um observador atento, que a todo o memento assimila novas informações e cria um novo arranjo das coisas, provavelmente possuirá uma gama variada de possibilidades do Eu, sendo que cada uma dessas possibilidades foi estruturada de acordo com o ambiente e as informações assimiladas pelo observador. No entanto, é comum encontrarmos pessoas que apresentem uma alma (Eu, Ego) sem ramificações, ou com resquícios de possibilidades do Eu muito reprimidos e ignorados.

Um exemplo totalmente contrário à mentalidade comum é o de Fernando Pessoa; esse indivíduo incomum, que se permitiu possuir uma constituição rara, foi capaz de desenvolver, de forma espantosa, diferentes arranjos do Eu, o que lhe permitia se situar de formas variadas no ambiente em que ele se encontrava.

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A fragmentação do Eu, fruto daquilo que podemos caracterizar como construções flutuantes, é uma característica que, a princípio, assusta. Vivermos eternamente na incerteza, eternamente observando atentamente, eternamente definindo o ambiente à nossa volta e nossa posição em meio a esse ambiente, são funções que nos amedrontam, e exigem demais de nós; mas após percebermos o quanto as condições à nossa volta estão constantemente se alterando, e o quanto um Eu fixo e imutável é retrógrado e ineficiente, não mais nos será tão complicado encarar todas as múltiplas possibilidades e as incertezas da vida.

 

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