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SOBRE COORDENADAS E SUBORDINADAS

SOBRE COORDENADAS E SUBORDINADAS

Não é fácil decidir se viveremos para si ou para nós. As consequências (e as responsabilidades) que essa escolha acarreta definirão o que somos e para quem somos. Na análise sintática da vida, ninguém pode ser julgado se decidiu viver ou existir; mas a escolha, como sempre, está em nossas mãos.

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Na história da humanidade, o homem sempre procurou se adaptar para poder sobreviver – mais do que um instinto, essa vontade de continuar sendo parte ativa do ciclo da vida já foi discutida por vários pensadores e, ainda sem respostas, continuamos a nos indagar por que e para quem vivemos.

O porquê não é tão difícil de ser respondido. Estamos vivos pois, em algum lugar no passado, em um ambiente talvez inóspito, talvez celestial, algumas moléculas disseram “sim” às outras e seu casamento, o mais antigo caso de poli amor, gerou a primeira descendência da história. Assim nasceram as estrelas e os planetas que, a exemplo de seus pais, não demoraram a dizer sim às outras fusões. Com o tempo, o acaso se fez presente e a filha mais amada foi criada: a Terra. Ela, assim como a maioria dos seus irmãos cósmicos, ficou exposta ao calor e ao frio extremos e, agora, abriga mais de 8,7 milhões de espécies diferentes de vida. Dentre tantas, uma delas tenta se sobrepor às outras, pois se tornou um mártir: é a única capaz de existir.

Existir, pois, é o que nos difere dos demais seres vivos do planeta. Viver é mecânico e instintivo. Existir é pensado e racional; viver é a morfologia em formato de existência. Existir é a sintaxe da vida, com todas suas regras e lógicas e pausas e inversões e pontos-finais. E, como toda oração, há um verbo que tem de concordar com a sua conjugação e o seu acompanhamento. Se, sozinha, a oração já tem sentido completo, é uma oração coordenada; se precisa de outra para ter esse sentido, é dita subordinada. A primeira vive. A segunda existe – e não é pura carência dos gramáticos.

É tentador levar essa reflexão ao âmbito amoroso – não me entenda mal, mas essa não é minha intenção. Não quis dizer que aqueles que vivem sozinhos(e estão bem com isso) são mais completos que os que vivem acompanhados, ou vice-versa – minha escrita não está nas entrelinhas como a de Clarice ou a de Drummond. Quando digo subordinado, quero dizer no sentido de absorver as dores e as angústias das pessoas e do mundo exterior, fazendo do seu estado de espírito um fator dependente do meio em que se encontram. Alguns outros são menos sensitivos que estes, agem conforme seus interesses ou mesmo suas necessidades diferentes que lhes provocam ações diferentes – é muito relativo, e não cabe a ninguém bater na tecla dos gostos ou das prioridades alheias.

aparencia-500x333.jpg Para os que se escondem atrás de máscaras de satisfação, a escolha não faz tanta diferença ao mundo exterior, seja a pessoa coordenada, seja ela subordinada

Entretanto, alguma hora definimos nossas próprias prioridades e, nem sempre cientes, mostramos aos outros aquilo que somos. Nascemos coordenados. Vivíamos no útero de nossas mães, sozinhos e inócuos. De repente, o mundo se expande, e vários rostos felizes nos encaram com olhos surpresos e amorosos. Então ficamos com fome e choramos, o que pode parecer subordinação, mas é apenas um ato instintivo. E seguimos nosso caminho pelos anos, conhecemos mais pessoas e vislumbramos novas perspectivas. Subitamente, nos descobrimos com uma personalidade formada, mesmo que nunca ninguém tenha perguntado: “Quereis liquidez disfarçada ou solidez genuína?”; “Traçarás teu caminho ignorantemente ou notarás o mundo a tua volta?”.

Caso escolhêssemos o primeiro, não teria problema. A Terra é grande, cheia de desafios a serem vencidos, contatos a serem estabelecidos e diversão a preço de dinheiro. O mundo exterior não teria muito impacto sobre nossas vidas, uma vez que nossos objetivos seriam mais fortes e nossa vontade de viver intensamente nos ludibriaria da realidade que nos circunda. Seríamos coordenados. Leríamos os livros mais populares, assistiríamos ao blockbuster da semana e nos permitiríamos ter uma infinidade de amigos dos quais teríamos certeza que seriam para a vida toda. Seríamos maiores que o mundo e contaríamos nossas histórias aos nossos netos como qualquer avô de filme americano. Estaríamos livres para viver nossas vidas.

Se escolhêssemos a subordinação, no entanto, seríamos sempre inquietos. A fragilidade das relações humanas e os dilemas existenciais mexeriam mais conosco; saídas para baladas e conversas de autoafirmação não nos entreteriam como necessitaríamos; a ânsia de vomitar a agonia de viver nesse universo superficial e frio seria constante nos nossos cotidianos, solitários, à espera de alguém com quem partilhar do enjoo e da náusea sepulcral que tanto nos permeia. Não seríamos indivíduos leves; alguns, no entanto, saberiam fingir muito bem uma leveza quase insustentável de se carregar todos os dias. Seríamos muito menores que o mundo e absorveríamos todo o seu sentimento e sua incerteza. Construir uma família já não seria garantido. Estaríamos vivos para o mundo.

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De fato, a decisão não é tão inteligível quanto parece. É viver para Nós em vez de para Si. É absorver o momento e não conseguir seguir em frente em seu egoísmo sem levar em conta suas responsabilidades sociais. É dizer não ao garantido e sim à incerteza. Pensar é complicado demais e exige tempo demais. Mecanizar é prático. Certamente, não tem como sermos apenas um tipo de oração – aos que conseguem, aqui exponho minha admiração. Há momentos em que não podemos esquecer dos nossos sonhos e objetivos em prol do bem-estar social vitalício ou virarmos os olhos da pobreza e da desigualdade em troca do seu afeto.

Assim, somos compostos – por subordinação, por coordenação ou mistos – dependerá de quem escolhermos para completar o sentido das nossas orações. Dá-se, então, o equilíbrio diversificado da linguagem e da vida.

Que tipo de oração é você?

 

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