Como o filme da Pixar mistura Neil Gaiman, Charlie Kaufman, Mad Men e Polanski

Como o filme da Pixar mistura Neil Gaiman, Charlie Kaufman, Mad Men e Polanski

(superinteressante)
Alexandre Versignassi

 

O título engana. No original, a última animação da Pixar chama “Inside Out” (De Dentro para Fora). Aqui, virou “Divertida Mente” – um título bem mais direto que o original, já que o filme todo acontece dentro de um cérebro. Só que o trocadilho fácil do título brasileiro passa uma imagem falsa: a de que que o filme também é fácil, e feito para crianças. Não é.

Até dá para uma criança assistir Divertida Mente e, sei lá, se divertir. Mas o roteiro desafia, inclusive, a maior parte dos adultos. O cenário é o cérebro de uma menina de 11 anos. Lá dentro, na “sala de controle” da mente da garotinha, existem cinco personagens, cada um personificando uma emoção – quem já leu Sandman não vai estranhar: a premissa parece baseada na mitologia moderna de Neil Gaiman. Você tem a Raiva (encarnada num baixinho invocado), o Medo (um sujeito com transtorno agudo de ansiedade), o Nojo (uma patricinha insuportável), a Tristeza (uma baixinha azul – blue, de tristeza – que parece a Velma do Scooby Doo na forma de um M&M). Por último, a protagonista da mente da menina, e do filme: Alegria (“Joy”, na versão original – uma comediante espevitada, feita à imagem e semelhança de sua dubladora, Amy Poehler).

Esse povo todo tem dois trabalhos lá dentro. Um é controlar as formas como a menina responde aos estímulos do mundo. Se ela toma um choque na tomada, o Medo assume as rédeas. Se é contrariada, vem a Raiva. Sim, tudo bem óbvio. Mas o outro trabalho das emoções personificadas é mais complexo: tingir as memórias da menina com algum sentimento. Literalmenmte: Alegria tinge de dourado, Raiva, de vermelho, Tristeza, lógico, de azul… As memórias, que naturalmente fluem para dentro do cérebro o tempo todo, aparecem na forma de bolas. Cada uma carrega uma memória específica: se ela conhece alguém na escola, por exemplo, uma bola transparente se materializa na sala de controle do cérebro. Se Alegria tocar na bola, ela fica dourada. E aquele encontro vira uma memória feliz. Se Tristeza tocar na memória, ela fica azul, e acontece o contrário. Depois de receber a devida tintura, a bola segue por um tubo de sucção para ficar estocada na Memória de Longo prazo, que é o que forma toda a personalidade da menina. De fato: é o que forma a sua também: jogue suas memórias no lixo, e você deixa de existir. Não sobra nem a consciência.

Bom, Alegria é a chefe ali dentro. Os outros sentimentos até assumem o controle de vez em quando, mas Alegria retoma as rédeas, garantindo a felicidade geral a formação contínua de memórias alegres dona do cérebro. Tristeza, coitada, mal consegue chegar perto da sala de controle: Alegria enxota ela na hora. Natural, porque a menina, Riley, é uma criança de 11 anos. Não é um poço de alegria, porque isso nenhuma criança é. Mas como nessa idade o centro de recompensas do cérebro é bastante ativo, a emoção dominante acaba sendo a Alegria. No cérebro da mãe dela, que aparece logo no começo do filme, quem manda é a Tristeza. No do pai, a Raiva. E nem por isso ela é especialmente para baixo nem ele agressivo. Riley tampouco é uma  boba alegre. São só as emoções que se manifestam com mais facilidade dentro de cada um dos três.

Posto o cenário, começa a trama: Riley se muda com os pais de uma cidadezinha no Minnesota, interiorzão dos EUA, para uma maior, São Francisco. Aí bate o banzo típico de quem se muda contra a vontade, ainda mais numa idade dessas: ela não se adapta à casa nova, fica isolada na escola…

Alegria começa a perder o domínio da sala de controle. Tristeza segue sua natureza vai tingindo de azul todas as memórias novas que a menina está formando. Alegria, então, não se conforma: atraca fisicamente a Tristeza. No meio da treta, as duas tropeçam no lugar errado, caem naquele tubo de sucção e acabam tragadas para as profundezas do cérebro de Riley. Raiva e Medo assumem a sala de controle sozinhos. Resultado: a menina vira uma niilista, um zumbi movido unicamente por sentimentos negativos.

Tudo isso, e o filme nem começou ainda. Também não vou contar mais para não estragar nada. Mas dá para dizer que a história toda é sobre amadurecimento: a própria Alegria vai aprendendo que não é a melhor coisa que existe, que não é melhor ser alegre que ser triste, que “a luz no coração”, para continuar usando as palavras do Vinícius de Morais, pode e deve ter mais cores que o dourado da felicidade. E mais importante: que buscar só alegria pela alegria é tão improdutivo quanto tomar uísque o dia inteiro pelo resto da vida para não deixar a felicidade embora, como o próprio Vinícius passou a fazer, de modo a não deixar a Tristeza, a Raiva ou o Medo assumirem a sala de controle do cérebro dele. A mensagem do filme, enfim, gira em torno da ideia de que a alegria não pode existir sem a tristeza. Que a felicidade para valer só chega depois que a gente conhece o que é a tristeza para valer. E que felicidade, mesmo assim, vai-se embora, porque tristeza não tem fim. Felicidade (você sabe), sim.

Bom, a Pixar é célebre por fazer filmes capazes de agradar crianças e adultos ao mesmo tempo. Esse é diferente. Além de apresentar essa interaçaão complexa entre Alegria e Tristeza, o roteiro não tem uma gota de falso didatismo: não fica explicando para o espectador o que ele está vendo na tela. Nesse sentido, Divertida Mente é parecido com Mad Men. No seriado que terminou neste ano, uma mudança no tom de voz no meio de um telefonema já podia significar que um relacionamento de três temporadas acabava ali. E se você não entendeu, azar o seu. Se essa sutileza mastodôntica já parece complexa para um seriado sobre alcoólatras de meia-idade, imagina para uma animação. O filme mais parecido com Divertida Mente que já teve é Brilho Eterno de uma Mente sem Lembrança, por causa da premissa de se passar inteiro dentro de um cérebro, materializando as mesmas abstrações: o subconsciente, os traumas bobos de infância… Divertida Mente está sentado nos ombros de Charlie Kaufman. Dos de Neil Gaiman também. E nos ombros de outros gigantes também, a começar por Roman Polanski e seus filmes psiquiátricos (Repulsa ao Sexo e O Inquilino,  que também acontecem, de certa forma, dentro do cérebro dos personagens).

Se você tem filho, leva logo para o cinema. Ele não vai entender picas, mas nem por isso vai deixar de gostar das (várias) firulas de animação ali. Mas quem vai lucrar mesmo com o preço do ingresso é você. Enjoy.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s