O ÍMPETO DE FALAR MAIS ALTO: UM JOGO PERIGOSO.

O ÍMPETO DE FALAR MAIS ALTO: UM JOGO PERIGOSO.

Vivemos na era da monetização do self, da venda da projeção da imagem, da monetização da privacidade. Opiniões, discursos e posicionamentos reverberam por todos os cantos da web formando uma sobreposição de vozes que disputam ouvidos cada vez mais fadigados de informação. Para muitos, sobressair em meio ao barulho e, de algum modo, destacar seu conteúdo em meio ao caos é mais importante que conseguir estabilidade financeira e se condicionar a um emprego dito tradicional. A fama, ainda que mínima, é sedutora, assim como as curtidas e compartilhamentos. Todos têm espaços para se expor. No entanto, investir tempo e disposição para fazer seu espaço pessoal crescer a ponto de ter múltiplas interseções é se submeter a um jogo arriscado. No meio de tanta gente, os critérios que definem quem repercute ou não nem sempre são justos.

postagem1.jpg Foto por: Boris Lechaftois. Licenciado sobre Creative Commons: Attribution 2.0 Generic (CC BY 2.0)

Com a popularização da internet, a democratização do espaço virtual, um eco de vozes dos mais diversos tipos e formas reverbera em postagens de blogs, páginas pessoais do Facebook, canais do Youtube, timelines do Twitter e nas demais mídias sociais, mais ou menos obscuras, por onde opiniões e pontos de vista circulam e se propagam dentro e fora da web. Enquanto supervalorizamos nossos contatos virtuais, resignificando a importância de nossas relações físicas, nos expressamos com uma avidez que se tornou incontrolável. De selfs despretensiosas a posts defendendo posicionamentos políticos, nunca se falou tanto sobre tanta coisa. Os discursos individuais, verbais ou não, se tornaram protagonistas da (pós) modernidade e, ferrenhamente, disputam nossa atenção e capacidade de empatia em troca de curtidas e compartilhamentos. Ter nosso discurso reconhecido, mesmo dentro de nichos isolados, afaga o ego, incentiva a exposição de outras ideias e abaliza uma espécie de status sustendo pela difusão de nosso pensamento. E isso, ainda que aparentemente inocente, se não for devidamente racionalizado, pode ser nocivo e angustiante.

Para milhões de brasileiros, especialmente aqueles que se alinham às bandeiras tidas como de esquerda (ainda que o termo seja atualmente difuso e mereça um artigo à parte), a relativa melhora na mobilidade de classes, propiciada pelo cenário econômico favorável a partir do início do novo milênio, referendou uma certeza: não é preciso de muito para se viver bem. Não se quer mais acumular riquezas materiais, nem possuir incontáveis propriedades ou produtos extraordinários inacessíveis à classe média. Para muita gente, não é de bom tom, decente e ético, ainda que legalmente honesto, ser milionário, especialmente em um país como o Brasil. Avalia-se como injusto reter capital e não oferecer contrapartida nenhuma à sociedade, fora as horas dedicadas à jornada de trabalho.

Muitos representantes da chamada Geração Z não fazem questão de um trabalho burocrático desgastante, com um salário vinte vezes maior que o mínimo, onde quer que seja. Para algumas destas cabeças destoantes, acostumadas a “vender” diariamente a própria imagem e as próprias ideias, a única forma aceitável de aliar subsistência e satisfação profissional é se tornando um empreendedor, chefe de si mesmo. Os que cedem, por falta de opção, à labuta tradicional, possivelmente, sentem que horas de liberdade valiosas estão sendo anuladas. No íntimo, está a vontade, cada vez mais urgente, de se dedicar a algo que envolva criação e tenha uma identidade própria. Os corajosos abrem mão do comodismo das obrigações monótonas, do cumprimento de tarefas repetitivas e do desempenho de funções que poderiam, com maior ou menor grau de adaptação, ser exercidas por quaisquer outras pessoas devidamente treinadas.

Para um número razoável de jovens que almejam uma alternativa para seu descontentamento crônico, a internet passou a ser um campo fértil para depositar esperanças. O fenômeno recente de explosão de canais de videologs nacionais no Youtube é um exemplo desta febre. Eles existem aos montes, para todos os gostos. Sonha-se com a possibilidade de rentabilizar seu self e adquirir autonomia o bastante não para enriquecer, mas para levar uma existência minimamente confortável. A questão é que a aparente falta de ambição esconde, na verdade, o desejo por algo muito mais complicado, relativo e difícil de conseguir que juntar muito dinheiro. Ambiciona-se a sorte dos vloggers mais assistidos, dos bloggers mais lidos, dos pensadores mais acessados, dos mobilizadores populares, das referências que têm algo a dizer e são ouvidas por isso. Espera-se que a voz faça diferença, destoe da multidão, incite debates, provoque reflexões, fuja do óbvio e toque, da maneira que for, quem a ouvir. Comunicar se tornou tão fácil que muitos defendem e assumem a tese de que possuem potencial para se transformarem em comunicadores expansivos, que agregam pensamentos comuns e servem de plataforma de integração e meio para discussões relevantes.

postagem2.jpg Foto por: Vincent Diamante. Licenciado sobre Creative Commons: Attribution 2.0 Generic (CC BY 2.0)

Deseja-se, portanto, transcender o anonimato e, de forma consciente, não tornar-se mundialmente reconhecido, mas alguém que, por motivos relevantes, merece ser visto. A fama, mínima, que seja, passa a ser indissociável de seu objetivo: se auto-alimentar e servir de mote para alargar progressivamente o escopo por um onde voa o pensamento. Por mais tentadora que fosse, para manter-se sólida, ela não poderia deturpar os princípios que a justificam, sob risco de perda de audiência. O grande empecilho aqui não é a vontade de renovar debates e buscar oferecer pontos de vistas inéditos, pelo contrário, a prática é sadia e merece ser estimulada. A questão problema é que, no meio do barulho causado pelo acúmulo de discursos na internet, pouquíssimos são os que conseguem romper a camada da sobreposição de vozes e se tornam audíveis para muitos, ainda que sejam originais. Ter consciência desta limitação e da dificuldade de monetizar, mesmo minimamente, raciocínios de forma independente dos veículos de imprensa é essencial para evitar frustrações.

Há espaço para todos, porém, fazer crescer o próprio espaço para que ele ganhe múltiplas interseções é tarefa que deve ser encarada com os riscos de desilusão que ela impõe. Dessa maneira, se por um lado a falta de ambição financeira alivia o espírito de se contaminar com supérfluos, a ambição espiritual de fazer a diferença e sobressair do emaranhado de anônimos que compõe a teia da internet é um caminho tortuoso que merece ser seguido com serenidade. Todos podem jogar o jogo, ele é gratuito e dá luz a vários vencedores. Mas a que se aprender a perder também. As regras do jogo são dúbias e ele nem sempre é justo. A derrota, relativa ou não, não é improvável.

 

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