SER CLARICE

SER CLARICE
Aceitar que podemos ser várias e continuar uma só. Olhar para nós mesmas e entender as complexidades, os mistérios e as verdades que nos preenchem. Acreditar que podemos ser, todos os dias, uma mulher diferente, sem perder a essência que nos forma e nos permitir ser quem somos. Isso é ser Clarice Lispector.

clarice_lispector_1_1200x1200.jpgOlho para a janela do meu quarto ao acordar e, ao sentir os primeiros raios de sol tocando meu rosto, toda a minha pele absorvendo calor e meu sorriso despertando, falo para mim mesma em voz baixa: “como é bom ser mulher”. Você, mulher, com certeza já pensou isso alguma vez na vida e já agradeceu à ela por ter te feito assim.

São horas intermináveis de tensão pré – palavra que odiamos -, amores roubados, liberdade velada, diretos negados e complexidades infinitas que não esperamos mais entender. É chegar em casa e ter que se despir da maquiagem e de todo o amor que o mundo ofereceu para você retribuir, é ter de lidar com aprovações das mais sinceras às mais confortadoras. Ser mulher é se encontrar todos os dias consigo mesma. Ser mulher é se perder logo depois. Ser mulher é ser Clarice. Vejo Clarice Lispector como o mistério mais óbvio que eu já conheci. A alma exposta em suas obras é a alma de uma mulher só, mas dentro dela podemos encontrar todas as vozes possíveis. Sempre vi a experiência feminina como uma dádiva de encontrar complexidade nas coisas mais simples, de conseguir enxergar a grandiosidade no outro e em si mesma, ao mesmo tempo em que nos reduzimos à tão pouco quando se trata de viver e buscar entender a própria existência. Ser mulher é ser a mais sábia e a mais ignorante; a mais completa e possuir os maiores vazios; ser mulher é ser todos os dias uma mulher diferente. Clarice era assim.

Essa forma de unir as palavras e encontrar no óbvio a essência do diferente é seu segredo tão completo. Clarice aceitava que a mulher pode ser várias e continuar sendo uma e bem, é isso que todas somos, ao acordar, todos os dias. Outras. Brasileira de corpo e alma e estrangeira no papel, sua função era mostrar toda a sua brasilidade em tantos papeis que utilizou para provar quem era. Sua identidade era aos poucos sendo revelada enquanto escrevia e não havia ucraniana mais brasileira. Afinal, estrangeiras são todas as mulheres – podem não saber onde ir, mas têm certeza de onde estão. Ao ler suas obras, uma parte de mim se desconecta de todas as verdades já presentes no meu inconsciente e a experiência de viajar através das simplicidades é permitida. Nada se compara a leveza com que consegue unir as palavras e fazê-las serem uma porta para o conhecido que antes não conhecíamos.

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Clarice não pretendia e conseguiu. Seus livros, suas crônicas e seus contos são a verdade de cada mulher que existe em você. Ler Clarice é aceitar a transformação do que você nunca havia reparado em si mesma e ser Clarice é o maior presente que todas nós poderíamos querer. Amar. Amar ser tudo e nada ao mesmo tempo. Amar tudo o que a vida nos proporciona, entender os estereótipos e alcançar o mundo acima deles. Amar a simplicidade e admirar o mistério. Ser Clarice é ser mulher e pensar “como é bom ser mulher”.

 

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