Cinema

O SONHO DA PRIMEIRA NOITE SEM SONHOS

O SONHO DA PRIMEIRA NOITE SEM SONHOS

Se hoje Valerio Zurlini dorme a sua noite sem sonhos, o seu legado habita entre nós, e “A primeira noite de tranquilidade” é, de fato, um belo devaneio.
– Por que a morte é a primeira noite de tranqüilidade?
– Porque finalmente se dorme sem sonhos!

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Carregamos conosco sempre conceitos prévios de outras sociedades, características que entendemos como as mais gerais de certos povos acabamos abraçando como um típico comportamento daquela cultura. Seja com os alemães, norte-americanos ou africanos. O exemplo típico seria a contentamento do povo italiano, que podemos perceber nos maravilhosos filmes de Federico Fellini. Há sempre certa loucura pela vida em seus personagens.

No entanto, apesar da conterraneidade, “A primeira noite de tranquilidade”, filme do italiano Valerio Zurlini é um desenho de Italianos recheados de dores humanas. “La prima notte di quiete” (Tal em italiano), está longe de ser um filme de romance qualquer, mas é com toda certeza uma expressão da dor da existência humana. Zurlini foi um cineasta de 8 filmes apenas, que lhe renderam toda a fama de poeta da melancolia; nunca quis revolucionar a arte como fazia seus conterrâneos do mesmo período, preferindo aperfeiçoar aqueles estilos que já existiam, o que muitas vezes lhe rendeu, de forma injusta, o descaso e esquecimento de suas obras.

“A primeira noite de tranquilidade”, sua sétima obra, lançada em 1972, é um filme desesperador, – no sentido que Kierkegaard deu à palavra – na metade do filme já não esperamos mais nada sobre a vida do protagonista Daniele Dominici (Alain Delon), não esperamos nenhum futuro. É como se passássemos a viver a vida dele como ele mesmo a definiu: “Não se vive, sobrevive-se”. Sobrevivemos, cena após cena, gastando o tempo, como ele gasta a vida dele.

O filme se inicia com um barco atracando em uma cidade desconhecida, onde a neblina, o inverno, e o mar de ressaca, que perdura por todo o filme, contribuem para o clima misterioso que percorre a história. Dominici caminha pelo cais quando é questionado, pelo velho homem que controlava o barco, sobre qual cidade seria aquela; após responder é questionado novamente, no entanto, agora com uma pergunta que lhe podemos atribuir uma metáfora: “Como é essa pequena cidade?”. Dominici responde belissimamente indiferente, “Eu não sei, também acabei de chegar”. Ou seja, como é esse lugar que chamamos de vida?… A resposta para Dominici poderia ser tal qual “Eu não sei, estou no mesmo barco que você, acabei de chegar”.

Daniele Dominici, um professor de literatura, que mantém um casamento com a infiel Monica somente por suas várias ameaças de suicídio, passa a maior parte do tempo fora de casa, tentando gastar a vida, sempre de cabeça baixa, com sua surrada jaqueta e seu cigarro na boca. Um homem detentor de um passado que não sabemos nada, com um corpo descuidado, fortes olheiras, que não tem nem mesmo planejamento para as suas aulas, tão desinteressado pela realidade e pela sua atuação no mundo que considera a sua função em sala de aula a de somente ensinar porque os versos de Petrarca são belos, o que faz com que ele enquadre como a mesma coisa socialistas e facistas. Dominici é um homem profundamente melancólico, mas tão melancólico que não chora. Se o pranto é a libertação da dor, então ele não tem nada para libertar, pois ele é completa angústia, completo desespero; como para Kierkegaard ‘quem se desespera não morre’, Dominici vive sempre na eminência da morte. Zurlini mergulha a sua sétima obra no existencialismo.

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Daniele Dominici é um homem comum assim como qualquer outro, endividado, sempre envolvido nas jogatinas e bebedeiras com os amigos, limita a quantidade do combustível para o seu carro por falta de dinheiro,assim como não o lava, e claro já teve seus debates com a sua própria religiosidade, o que o leva a dizer ser ateu após recitar trechos da bíblia para seu amigo “Spider”.

O professor acaba se interessando por sua aluna belíssima Vanina Abati (Sonia Petrova), utilizando do livro de Stendhal, Vanina Vanini, para o inicio de uma relação amorosa. O encanto por Vanina faz com que Dominici se agarre a ela, como uma esperança, como um sentido novo a existência vazia e abandonada. No entanto, por trás daquela beleza e juventude, se encontrava a mesma vida diante da eminência de morte que ele carregava consigo; um passado, desconhecido, que não era garantia do presente, uma figura do existencialismo de Sartre, tal qual a definição de quem era Vanina por outro personagem, uma das falas mais marcantes de todo o filme: “Muito passado, pouco presente, nenhum futuro”.

Zurlini foge dos romances clichês, apenas estampa a velha e conhecida imagem do mundo, pois não é a beleza ou o fulgor da paixão que o leva a Vanina, mas o que o mesmo disse à moça, “não foi sua beleza que me atraiu, mas o desconforto que tem dentro de si, sua melancolia sem fim, não posso suportá-la”.

Em um passeio por um parque aquático, onde caminham olhando os golfinhos que são alimentados em cativeiro, Vanina se entristece com aquela prisão em que viviam os animais, entretanto, Dominici faz uma breve análise do que seria a vida daqueles golfinhos caso fossem libertos para o mar, que com toda certeza sentiriam falta de todo o conforto do cativeiro. O professor faz uma crítica ao vazio da liberdade, o que todos queremos, mas que ninguém sabe definir; É inevitável aqui não lembrar de Milan Kundera, e seu livro “A insustentável leveza do ser”, que está longe de ser o melhor livro desse autor tão rico e genial em suas obras; trago então um célebre trecho de sua obra:

“Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está a nossa vida, e mais ela é real e verdadeira. Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes. Então, o que escolher? O peso ou a leveza?”.

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É interessante também citar o quanto é focada a cena em que Dominici e Vanina dormem juntos, cena que é mais valorizada que a própria cena de sexo entre os dois, assim sendo, recorro mais uma vez à Milan Kundera:

“…Deitar com uma mulher e dormir com ela: eis duas paixões não somente diferentes, mas quase contraditórias. O Amor não se manifesta pelo desejo de fazer amor (esse desejo pode aplicar-se a uma série inumerável de mulheres!!), mas pelo desejo do sono compartilhado (ou seja, diz respeito a uma só mulher…).”

Daniele Dominici, o homem que tem sua vida comparada a uma casa abandonada, que foi deixada a mercê do tempo e do acaso, guardando consigo longas histórias; histórias essas que são conhecidas apenas por poucos, e para um transeunte qualquer é somente mais uma casa, somente mais uma vida, como a de uma multidão de pessoas que caminham de cabeça baixa, com seus cigarros na boca, tal qual Dominici. O seu passado nos é revelado somente no final, Quando Spider lhe questiona citando Goethe:

“– Por que a morte é a primeira noite de tranqüilidade?

– Porque finalmente se dorme sem sonhos!”

Não há idealismo, religião, sonhos, beleza que sustente a vida, há somente sobrevivência, como afirma o próprio Zurlini. Um passado longo, cheio de dolorosas lembranças, como reconhece Dominici, “Deus! Como a vida de um homem está repleta de mortos”.

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O que há de mais impressionante no filme, é a sua capacidade de valorizar a singularidade de cada olhar, como é focado o olhar de desconfiança de Spider sempre preocupado com as primeiras impressões, ou o olhar de Dominici, melancólico e indiferente; mas o olhar de Vanina para Dominici enquanto ela dança é, de fato, embriagante. Os olhos belos de Sonia Petrova são um encaixe perfeito para o papel, uma mistura de esperança e vazio, algo inebriante e atroz, ainda com a jogada de luz da cena, ora com luzes mais claras, ora mais escuras, deixa aquela troca de olhares ainda mais enigmática.

Albert Camus, escritor existencialista, um dia disse que a morte mais absurda seria a morte através de um acidente de automóvel, o mais irônica é que Camus faleceu em um acidente de carro. Daniele Dominici, ao se entregar a esperança da vida nova ao lado de Vanina, morre também em um acidente de automóvel. O homem encontrou a morte absurda. Dominici encontrou a sua primeira noite de tranquilidade, dormiu sem sonhos.

Kierkegaard, Sartre, Camus, ou Milan Kundera, nos ajudam a compreender essa gigantesca obra cinematográfica, que carrega consigo a beleza da arte e os mistérios da existência. O que nos resta após o filme, é apenas o olhar desse homem comum, Daniele Dominici, angustiado, profundo, cansado, um legado de um homem desesperado existencialmente. Quero encerrar esse artigo da mesma forma que se encerra “A primeira noite de tranquilidade”:

“- Aquele por quem procuram…não está aqui”.blogger-image--775705502.jpg

 

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