QUANTO VALE A VIDA?

QUANTO VALE A VIDA?

Sabemos: a vida não tem preço. No entanto, cada vez com mais frequência, ela parece ser desvalorizada perante a violência e brutalidades cotidianas; junte a estes fatores a indiferença que se naturaliza (ou se normatiza) entre os seres humanos, e temos um retrato – não o único ou o mais “verdadeiro” – da sociedade moderna.

00. Artist - Delawer Omar 0267.jpg Imagem por Delawer Omar.

“Setecentos reais era quanto eu valia em 14 de maio de 2015, numa quase madrugada em São Paulo. Na hora, nem deu tempo de cotar no Google. Era o preço do telefone que eu carregava num beco escuro e que me conectou à ponta de uma arma branca, como as centenas que matam brasileiros todo mês”, assim começa a narrativa de Tiago Jokura (2015), sobre o dia em que foi esfaqueado por conta de uma tentativa de assalto (leia o texto na íntegra aqui).

Jokura conta sua história por meio de outro ponto de vista, indo na contramão (ou contracorrente) daquilo que costuma ser publicado pela mídia em geral: o medo como justificativa para você não sair mais de sua casa, de seu bairro, de sua cidade, de seu estado, de sua região (mas, vez ou outra, a mídia hegemônica costuma apelar também para o velho discurso do “deixem o país, vão pra Cuba!”). O autor da história citada segue outra perspectiva, de resistência, de persistência – ou seria de “amor às causas perdidas”? Ele tomou quatro facadas e saiu no lucro – sua consciência e memória estavam intactas; seu corpo nem tanto, mas nada que o impedisse de continuar com sua vida normal – ressalto aqui que cada caso tem suas especificidades e que cada pessoa é atingida por ele de forma distinta.

“Percebi que o choque não me paralisaria, que não me interessava o sangue nem o sofrimento do meu algoz, e que continuaria disposto a seguir pelos mesmos caminhos de todo dia. Ainda que reagir assim fosse andar na contramão. Dentro e fora do hospital, reparei que ignorar a revolta, o revide e o medo choca mais do que levar facada na rua”, conta a vítima/autor da história. E continua: “O que se espera de uma vítima de FAB (sigla que os plantonistas usavam na emergência para meus “ferimentos por arma branca”) é trocar de caminho, de meio de transporte, de casa, de país. Foi o que me sugeriram várias vezes. Continuar levando a mesma vida chega a ser ofensivo para alguns, condenável mesmo: fui e ainda sou acusado de ser inocente demais. Longe disso. Só não quero perder a conexão com o lugar em que vivo e com as pessoas que cruzam comigo. Deixar de circular é matar um pouco a própria cidade”.

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Tirinha dos Malvados. Via: http://celsoannes.com.br/?p=1689

Aqui temos dois pontos de vista comuns para o caso: “fugir” ou então se “esconder” (uma versão mais moderna do “se ficar o bicho pega e se correr talvez você ainda tenha alguma chance”). Tiago resolveu ficar, não fugir e muito menos se esconder. Ele não parece ser a regra, e sim a exceção. E quanto mais pessoas buscam o isolamento de seus lares, “promove-se a vida isolada resultante do enclausuramento imposto pelas estratégias de segurança – muros, lanças, grades, guaritas, câmeras, sensores, cercas elétricas, rolos de concertina – o que afasta os “de dentro” do resto da cidade […]. O contato passa a ser virtual. Seja via televisão, telefone, câmeras de vigilância, internet ou interfone. O uso do “delivery” passa a ser rotina e o morador se comunica com um entregador como se ele estivesse do outro lado do mundo”, como avalia Sonia Ferraz e Letícia Acioly (2014, p. 4). No entanto, as autoras apontam que “O isolamento que protege os “de dentro”, ao mesmo tempo priva os “de fora” de qualquer contato, mesmo que visual, com aqueles moradores ou com suas casas e produz o esvaziamento das ruas, tornando-as insípidas com o impedimento tácito do trânsito de pedestres naquelas áreas, aumentando a sensação externa de insegurança” (2014, p. 7).

“Quanto menos gente na rua, mais ela vira território hostil, terra de ninguém. Transitar pela rua, para mim, é inegociável, um jeito simples de valorizar a vida. Acho muito mais arriscado viver como se ela não valesse nada: levando facada como se fosse do jogo, por exemplo. Até hoje, a pergunta que mais ouço sobre o episódio, a preocupação mais latente que se manifesta ao notarem estar tudo bem comigo, é “mas ele levou o celular?”. A maioria se decepciona ou se revolta quando mostro o telefone velho e estilhaçado. Como se o assalto fosse justificável se tivesse cumprido seu objetivo” (JOKURA, 2015).

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Imagem por Pedro Leite.

Somos alimentados por “uma cultura do medo e do terror, que oprime e ofusca os cidadãos, disseminando notícias de tragédias, assassinatos, prisões e desgraças alheias” (BUSSE, 2013, s/p). Tiago Jokura, ao pensar sobre seu caso diante dos noticiários do cotidiano, descreve: “minha história não era nada especial. Um ciclista fora morto a facadas na Lagoa Rodrigo de Freitas, que conecta alguns dos bairros mais ricos do Rio de Janeiro. Uma turista chilena, ferida no pescoço enquanto tomava sol na Glória, também no Rio, também pela tal da arma branca. Para completar o bloco, um cidadão carioca, portando um facão, foi preso preventivamente antes que tivesse a chance de negociar a vida de alguém por aí. Poucos minutos depois, no meu bairro paulistano, passei por cima de marcas de sangue pisado na esquina. Elas indicavam a trajetória final de alguém arrastado do asfalto até a calçada por onde passo todo dia levando e trazendo meu moleque da escola. Isso para não mencionar outras milhares de mortes semelhantes que não ocupam manchetes nem boletins de ocorrência”.

“A gente vive em um mundo em que pessoas morrem de frio, de fome na rua. Que desmatam o que resta de floresta. O planeta morrendo e de alguma maneira a gente não entra em pânico. O absurdo virou a regra e a sanidade, a exceção. Tanto que quando você vê um grupo ou uma pessoa fazendo algo em prol dos outros, sem esperar muito em troca, isso toca a gente de um jeito emocionante. E muitas vezes basta para você acreditar que alguma coisa tá mudando… Isso é uma desgraça emocional! E não é que eu não veja saída. Mas é que eu sinto que as pessoas são educadas para não pensar”, reflete o cantor brasileiro Criolo em entrevista a Alexandre Orion e Pedro Inoue (2011). Ou como o cineasta José Padilha, em entrevista a Flavio Scorsato (2015), afirma: “O Brasil perdeu a sensibilidade para o absurdo. A cidade do Rio de Janeiro é a barbárie”.

03. Marlon Tenório589.jpg Imagem por Marlon Tenório.

“Segundo as estatísticas do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro, se compararmos os números entre os anos de 2005 e de 2013, obtemos uma diminuição dos roubos à residência, 709 casos em 2005 para 545 casos em 2013, totalizando uma diferença de 23% e, um aumento significativo nos roubos à transeuntes, de 25% na capital carioca, 122% na Grande Niterói e, 204% na Baixada Fluminense (ambos na região metropolitana). Esse aumento faz suspeitar que o crescimento da instalação de aparatos de segurança patrimonial produziu a relativa redução dos números de roubos residenciais e o exponencial aumento de roubos à transeuntes, como um efeito de externalidade – a migração da criminalidade” (FERRAZ; ACIOLY, 2014, p. 9).

Diante desta realidade, é comum que as pessoas queiram, de alguma forma, se proteger. “Estamos armados e desarmados até os dentes. Somos o país em que mais se mata no mundo (64 mil homicídios em 2012, segundo a Organização Mundial de Saúde). A violência é tão cotidiana e gratuita que a discussão sobre liberar a posse de armas de fogo aos cidadãos soa irrelevante, já que sequer precisamos delas para violentar uns aos outros – embora ainda sejam preferência nacional” (JOKURA, 2015). Nesse cenário caótico que atinge a todos (sejam vítimas ou apenas espectadores do ocorrido), os peritos, que tanto souberam aproveitar a solidão das pessoas para vender mais mercadorias – “A cultura do consumo fez da solidão o mais lucrativo dos mercados” (GALEANO, 2010, s/p) – também aproveita do medo para vender e lucrar mais. Nessa “terra de ninguém”, “Paradoxalmente, os shopping centers, reinos do fugaz, oferecem com o máximo êxito a ilusão da segurança. Eles resistem fora do tempo, sem idade e sem raiz, sem noite e sem dia e sem memória, e existem fora do espaço, para além das turbulências da perigosa realidade do mundo”.

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“FEAR IS A PRISION” (“O MEDO É UMA PRISÃO”). Imagem via: http://www.sparkbark.com/tag/fear-is-a-prison/ O Medo Global
Os que trabalham têm medo de perder o trabalho. Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho. Quem não tem medo da fome, tem medo de comida. Os motoristas têm medo de caminhar e os pedestres têm medo de serem atropelados. A democracia tem medo de lembrar e a linguagem tem medo de dizer. Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas, as armas têm medo da falta de guerras. É o tempo do medo. Medo da mulher da violência do homem e medo do homem da mulher sem medo. Medo dos ladrões, medo da polícia. Medo da porta sem fechaduras, do tempo sem relógios, da criança sem televisão, medo da noite sem comprimidos para dormir e medo do dia sem comprimidos para despertar. Medo da multidão, medo da solidão, medo do que foi e do que pode ser, medo de morrer, medo de viver. (Eduardo Galeano) E Mia Couto (2011) acrescenta: “há quem tenha medo que o medo acabe”.

O escritor moçambicano Mia Couto foi um dos convidados para uma das “Conferências do Estoril”, em 2011, conferências que tratam a respeito dos desafios da globalização no mundo contemporâneo. Em sua conferencia (leia na íntegra aqui), sobre segurança, o escritor expõe:

A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. Eis o que nos dizem:

Para superarmos as ameaças domésticas precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. Para enfrentarmos as ameaças globais precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania.

Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho poderia começar, por exemplo, pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e de outro lado, aprendemos a chamar de “eles”.

Aos adversários políticos e militares juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade, imprevisível.

Vivemos como cidadãos e como espécie em permanente situação de emergência. Como em qualquer outro estado de sítio as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa. […] É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha, a Grande Muralha, que foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente morreram mais chineses construindo a muralha do que vítimas das invasões que realmente aconteceram. Diz-se que alguns trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção. Esses corpos convertidos em muro e pedra, são uma metáfora do quanto o medo nos pode aprisionar.

Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos mas não há hoje no mundo um muro que separe os que têm medo dos que não têm medo.

Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós, do sul e do norte, do ocidente e do oriente”.

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“O Grito”, de Edvard Munch.

“Nossa época é caracterizada pelo medo. Desenvolvemos uma cultura do medo que está se tornando cada vez mais poderosa e global”, revela o filósofo lituano Leonidas Donskis (2014, p. 115). “A população como um todo se vê num espaço sem lei”, conforme declara Zygmunt Bauman (2005, p. 96). Segundo o autor polonês, “A confiança é substituída pela suspeita universal” (BAUMAN, 2005, p. 115). Em outras palavras: “O mundo ao avesso nos adestra para ver o próximo como uma ameaça e não como uma promessa, nos reduz à solidão e nos consola com drogas químicas e amigos cibernéticos. Estamos condenados a morrer de fome, a morrer de medo ou a morrer de tédio, isso se uma bala perdida não vier abreviar nossa existência” (GALEANO, 2011, p. 7-8).

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Imagem por Banksy.

“O século 20, que nasceu proclamando a paz e a justiça, morreu banhado em sangue. Ele nos passou um mundo muito mais injusto daquele que herdou. O século 21, que também nasceu enaltecendo a paz e a justiça, está seguindo os passos de seu predecessor”, analisava Eduardo Galeano (2008). O medo não está somente fora, ele está também dentro – dentro do condomínio, dentro da casa, dentro do quarto, dentro de nós. Nas palavras de Paula Schmitt (2009, s/p), “principalmente a partir da virada paradigmática da segunda metade do século XX […], a insegurança difusa efluída por uma série de microssistemas sociais encontra sua objetificação na figura do outro como desconhecido e, portanto, como perigo em potencial”. Dessa forma, ainda segundo a autora, o medo da violência torna-se “uma violência em si mesmo, na medida em que, investido no espaço urbano, dispõe a cidade em torno da questão da segurança, eliminando as condições de encontro e interação com a diferença radical, provocando a segregação espacial e reforçando a militarização urbana”.

Em “Minha Alma (A Paz Que Eu Não Quero)”, O Rappa, na época que tinha como principal compositor Marcelo Yuka, ponderava: “As grades do condomínio são pra trazer proteção, mas também trazem a dúvida se é você que tá nessa prisão”. Já Humberto Gessinger e Augusto Licks, com o Engenheiros do Hawaii, em “Muros & Grades”, também acentuavam: “Nas grandes cidades, no pequeno dia-a-dia, o medo nos leva tudo, sobretudo a fantasia, então erguemos muros que nos dão a garantia de que morreremos cheios de uma vida tão vazia; erguemos muros… Nas grandes cidades de um país tão violento, os muros e as grades nos protegem de quase tudo, mas o quase tudo quase sempre é quase nada e nada nos protege de uma vida sem sentido; o quase tudo quase sempre é quase nada… […] Nas grandes cidades de um país tão surreal, os muros e as grades nos protegem de nosso próprio mal. Levamos uma vida que não nos leva a nada, levamos muito tempo pra descobrir que não é por aí… não é por nada não… não, não, não pode ser… é claro que não é, ?SERÁ?”.

07. Delawer Omar 0654.jpg Imagem por Delawer Omar.

Finalizo o texto com as palavras que o próprio Tiago Jokura termina sua história: “não dá mais para tolerar a liquidação da vida por aqui. Nem a noção generalizada, entre golpeadores e golpeados, de que matar por causa de um telefone, de uma bicicleta ou de um par romântico faz parte do negócio. E de que temos direito de revidar e de impor ao agressor a mesma violência que nos vitima. Reagir assim é admitir negociar o quanto a vida vale. E nesse tipo de negociação, a do outro sempre vale menos que a minha, que vale menos que a do outro, sucessivamente. Depreciação após depreciação, zeramos o valor da vida”.

Engenheiros do Hawaii – Quanto Vale a Vida?


(letra de Humberto Gessinger)

Referências BAUMAN, Zygmunt. Vidas desperdiçadas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.

BAUMAN, Zygmunt; DONSKIS, Leonidas. Cegueira moral: a perda da sensibilidade na modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar 2014.

BUSSE, Diogo. Alimentando a cultura do medo e do terror. Gazeta do Povo, 13 de novembro de 2013.

COUTO, Mia. Comemorar o medo. Pronunciamento em “Conferências de Estoril”, Portugal, 04 a 06 de maio de 2011.

GALEANO, Espelhos – Uma história quase universal. Porto Alegre: L&PM, 2008.

________. Eduardo. O Império do consumo. Carta Capital, dezembro de 2010.

________. De pernas pro ar: a escola do mundo ao avesso. Porto Alegre: L&PM, 2011.

FERRAZ, Sonia Maria Taddei; ACIOLY, Paula Ramos Correa C. de. Arquitetura da violência: segurança patrimonial, “dessociabilidade” urbana e gentrificação. In: FREIRE, Silene de Maraes; GRIMMA, José Manuel; CARVALHO, Andreia de Souza de. (Org.) Anais do V Seminário Internacional Direitos Humanos, Violência e Pobreza: a situação das crianças e adolescentes na América Latina hoje. Buenos Aires, Argentina/Rio de Janeiro, Brasil, 26, 27 e 28 de novembro de 2014.

JOKURA, Tiago. Descobri que minha vida vale R$ 700. E, do jeito que tá, é pegar ou largar. Rev. Super Interessante, Edição 349, Julho de 2015.

ORION, Alexandre; INOUE, Pedro. Criolo. Revista Trip, n. 203, set. 2011.

SCHMITT, Paula Helena. (Des)caminhos da insegurança: um olhar criminológico sobre as incursões do medo da violência no espaço urbano. Anais do IV Congresso Internacional de Ciências Criminais. Edição IV, PUCRS, Porto Alegre/RS, 22 a 25 de outubro de 2013.

SCORSATO, Flavio. Plano de fuga. Revista Trip, n. 244, jun. 2015.

 

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