O todo, a parte e a vida

O todo, a parte e a vida

“O todo sem a parte não é todo / A parte sem o todo não é parte / Mas se a parte o faz todo, sendo parte, / Não se diga, que é parte, sendo todo”.

Gregório de Matos.

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“O todo sem a parte não é todo / A parte sem o todo não é parte / Mas se a parte o faz todo, sendo parte, / Não se diga, que é parte, sendo todo”. Com essa bela estrofe, Gregório de Matos inicia, em minha opinião, um dos mais belos sonetos da literatura brasileira. Nessa estrofe, em particular, percebe-se a importância da parte para o todo e, também, do todo para a parte – não é à toa que todos os versos ora terminam em “parte”, ora em “todo”. O soneto em si, trata mais do aspecto religioso, mas gostaria de destacar apenas essa estrofe para, se possível, fazer uma breve reflexão.

Antes de tudo, é necessário entender que, para tudo estar em ordem, é preciso que todas as partes assim estejam e, consequentemente, o todo estará também. Se alguma das partes não está boa, então o todo não estará. Se o todo não estiver bom, logo alguma(s) da(s) parte(s) também não estará. Assim, não se deve priorizar uma única parte ou visar o todo em detrimento das partes, deve-se olhar as partes como um todo e tratar o todo como um conjunto de partes.

O.K., até aqui tudo ficou muito abstrato. Tudo bem. A vida vai entrar a partir de agora:

Como falar de todos e partes sem relacionar com o amor? Talvez seja a forma mais simples – mesmo “simples” sendo a antítese do amor – de exemplificar esse tipo de situação. O “todo” seria o casal, e as partes, as pessoas que o compõe. Nesse sentido, as partes, quando em harmonia, são um todo, não deixando de serem partes. Explico: as partes não têm dependência extrema de cada uma, assim como não “ignoram” – tratam de maneira fria – uma a outra. Assim sendo, as partes funcionam bem e, consequentemente, o todo. Entretanto, quando uma das partes é egoísta e procura apenas sua própria satisfação pessoal/social, o todo não funciona bem. Na verdade, o todo fica completamente deteriorado. Ocorre o mesmo quando uma das partes está junto de outra apenas por algum tipo de obrigação; o todo perde importância, enquanto uma das partes vê apenas a sua própria.

O amor que foca apenas em si próprio é o primeiro passo para o desgaste e o começo da trilha para o ódio.

Por que não falar a respeito das famílias também? A família, como totalidade de uma instituição depende – e muito – de cada uma de suas partes. O que dizer de pais que mal olham para seus filhos após voltar do trabalho? Ou de filhos que mal falam com os pais, ficando absortos em suas próprias vidas? Obviamente que cada um deve ter sua própria independência e vida, mas como família não devem ignorar-se dentro de sua própria residência. Uma casa de gritos, brigas e inconstância não tem um todo funcionando bem. As partes, nesse caso, são as culpadas pelas falhas presentes no todo.

Em uma amizade também estão presentes as partes e o todo. Amigos devem colocar-se no lugar do outro, devem entender – ou pelo menos tentar – e, acima de tudo, devem estar ao lado do outro. Uma amizade em que uma das partes foque apenas em seu próprio benefício – no mais clichê dos exemplos, ganhar um “status” – não funcionará. Nunca. Em uma amizade, as partes devem estar unidas, formando, assim, o todo. Não existe amizade de um só indivíduo – aquela na qual apenas uma pessoa – literalmente – dita o que fazer. Não existe amizade em que o dinheiro una as pessoas. Não existe amizade para benefício próprio. Amizade é compreensão, é companhia, é reciprocidade.

Uma bela amizade só é bela porque cada uma das partes brilha com luz própria, iluminando o caminho quando uma das partes acaba perdendo um pouco de sua luz.

Assim, sendo o todo dependente da parte, e a parte dependente do todo, não podemos querer que a totalidade seja perfeita, sendo que as partes que a compõem não o são. Não podemos, por exemplo, querer um futuro brilhante se não trabalharmos para isso. Não podemos pedir um todo se não construirmos as partes. (Uma observação: a perfeição não existe. Entretanto, existem maneiras de melhorar aquilo que não está bom. Dessa maneira é possível melhorar o todo e as partes).

Enfim, Gregório de Matos nos deixa uma bela mensagem em seu poema de alguns muitos anos atrás: enquanto as partes não forem trabalhadas de maneira que funcionem bem, e enquanto o todo for visto como algo único e indivisível não se encontrará a harmonia e o bom funcionamento de nada. Seja em um relacionamento, em um objetivo, em uma família ou qualquer outra situação. O todo nunca será todo sem a parte, e a parte nunca será parte sem o todo.

Talvez esteja na hora de abaixar a cabeça para os terrenos ao redor e parar de olhar o horizonte de maneira incansável. Todo o horizonte carrega consigo belas paisagens; entretanto, devemos lembrar que até mesmo as paisagens mais feias já foram horizonte. Ou seja, o horizonte é o todo, e as partes, as paisagens. A questão é: o que é preciso para transformar uma paisagem feia naquilo que queremos ver no horizonte?

 

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