Sobre as vantagens de ser invisível e a dor que sufocamos

Sobre as vantagens de ser invisível e a dor que sufocamos

Adiar sofrimentos, bloquear emoções e quem sabe até fugir da realidade. Se constantemente você se vê em algum destes cenários talvez você queira ler este texto.

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Acordei cedo e abracei mais alguns capítulos deste livro, foram poucos minutos antes que o amargo atingisse a minha boca, tive que parar por um momento e refletir aquilo tudo que li, e mais tarde decidir se teria estômago para ler qualquer outro capítulo que Chbosky preparou. As vantagens de ser invisível atingiu o público com o emocionante filme dirigido pelo autor do livro, porém com seu roteiro delicado, sua marcante trilha sonora e um elenco adorável, o choque ficou ausente, e talvez a reflexão perdida.

Por seu um livro direcionado ao público infanto-juvenil é desconcertante quando nos primeiro capítulos já presenciamos Charlie, um adolescente de 14 anos lidando com o suicídio do seu único amigo. Mais tarde ele narra sua onipresença em um estupro e violência que sua irmã sofre do namorado entre outros dramas, seguindo capítulo a capítulo com porradas sem anestesia, não vai demorar para que você comece a se sentir mal pelo personagem e por toda a vida sombria que o cerca. Todavia, com muita doçura Charlie nos faz conviver com assuntos ainda incômodos para sociedade, como preconceitos relacionados a opções sexuais, violência doméstica, o estupro dentro das famílias e consumo de drogas. Tirar qualquer positividade dessa obra é uma verdadeira luta, mas o autor não nos deixa triste o tempo todo, é preciso mencionar os pequenos infinitos, como Charlie gosta de chamar os seus momentos de felicidade e satisfação suprema, as pequenas alegrias e descobertas, principalmente pessoais que o personagem narra brilhantemente. Como mencionado na obra, às vezes precisamos ler como filtros e não como esponjas, e acredito que se você embarcar nesta obra é o que precisa fazer para não se endurecer na leitura e na vida.

Ao final da história, o que é mais inquietante é que ao olhar os problemas de todas as pessoas ao seu redor, o personagem principal fica em choque quando entra em contato com sua até então, sufocada dor. A lição principal fica para o epílogo em que o personagem nos ensina a importância de nos encontrar com a nossa dor, a importância de olhar para dentro de vez em quando e simplesmente sentir o que for preciso sentir. Em realidade, as nossas dores só serão cessadas a partir do momento que nós a sentirmos, sempre haverá empatia e compaixão pelos problemas das pessoas ao nosso redor, mas nunca sentiremos com a mesma intensidade e veracidade, afinal dores não são transferíveis. 20130703-235054.jpg

A verdade é que a gente silenciosamente esconde nossas dores, acreditando que se as sentir demasiadamente serão exponenciadas, e que se as expuser em perspectiva com todas as tragédias do mundo elas diminuirão até sua dissipação; então bloqueamos a dor. Por que evitamos sentir o que precisamos sentir e rotineiramente precisamos comparar a nossa dor com a do vizinho?

Com frequência cometemos o erro primário de usar nossos amigos como psicólogos e tentamos fazer com que ele compreenda e sinta com você uma porcentagem do seu sofrimento, ao implorar por um conselho empático, às vezes um amigo poderá aconselhá-lo a abafar a sua dor e buscar dias mais coloridos, este conselho não é em sua totalidade inútil, mas com certeza o impede de se conhecer melhor. Ignorar qualquer sentimento ou o subestimar jamais pode ser a melhor solução. O fato de crianças estarem com fome no Nordeste não irá fazer você se sentir melhor por ter sido demitido do seu emprego dos sonhos, o jovem condenado de maneira errônea pela justiça falha, tampouco fará a mulher que é abusada se sentir melhor.

Na real não há vantagem alguma em ser invisível, e é importante entender que você precisa estar presente primeiramente em sua própria vida, não há problema algum em ser exatamente o que você é. Sentir pequenos desconfortos ou dores avassaladoras, valida a sua existência, sem anular os problemas insolúveis do mundo. Mesmo que você seja apenas um em meio a sete bilhões de pessoas, não quer dizer que aquilo tirando o seu sono a noite não precisa de atenção, afinal as dores quando ignoradas tem essa mania de voltar na versão King Size e fazer estragos dignos da literatura, raramente clássica, mas certamente com potencial para best-seller.

 

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