SER OU NÃO SER: EIS A QUESTÃO

SER OU NÃO SER: EIS A QUESTÃO

Se penso que roubar é errado e eu roubo por algum motivo, não sou íntegro. Se amo A mas me caso com B, não sou íntegra porque estou partida. Vivo com um, mas meu coração pertence a outro. Se sou artística e criativa e me obrigo a trabalhar em algo que não me expressa, não sou íntegra. Vale ressaltar que defender pontos de vista e discordar das pessoas não significa ser grosseiro. Podemos discordar com classe, respeitando a opinião alheia. Quem necessita agredir o interlocutor prova que seus argumentos são fracos demais.

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Ser ou não ser? Eis a questão. Hamlet de Shakespeare é uma das peças mais famosas do mundo e muitas de suas frases ficaram célebres. Hamlet serviu de base para estudos freudianos. Assistindo a uma palestra do historiador Leandro Karnal, me deparei com uma vigorosa análise shakespeariana, principalmente uma profunda leitura de Hamlet e sua famosíssima pergunta: Ser ou não ser? Eis a questão.

Para muita gente é impossível não ser. Não ser como? Somos seres humanos. Estar no mundo simplesmente inviabiliza a possibilidade de não ser. Será mesmo?

O sentido de ser apresentado na peça extrapola o estar no mundo, respirando, andando, falando etc. O sentido apresentado na peça extrapola o existir biologicamente falando. A pergunta é profundamente existencial ou existencialmente profunda. Hamlet se questiona sobre o existir como viver com autenticidade, com integridade.

Falamos muito de integridade como sinônimo de honestidade. Íntegro socialmente falando é aquele que não rouba, não mente, não manipula as pessoas. Sim, este sentido é correto. Porém, ser íntegro vai além de ser honesto e cumpridor das regras e leis. Ser íntegro é ser coerente consigo mesmo. Um filme exibido na íntegra é aquele que não tem cortes, que não tem cenas censuradas. O sujeito íntegro é aquele que vive e se apresenta socialmente sem cortes, sem máscaras que escondam parcelas inconvenientes da personalidade. É aquele sujeito que não concorda com alguém para agradar. É o sujeito que defende seus pontos de vista e principalmente age de acordo com a sua forma de pensar e sentir.

Se penso que roubar é errado e eu roubo por algum motivo, não sou íntegro. Se amo A mas me caso com B, não sou íntegra porque estou partida. Vivo com um, mas meu coração pertence a outro. Se sou artística e criativa e me obrigo a trabalhar em algo que não me expressa, não sou íntegra. Vale ressaltar que defender pontos de vista e discordar das pessoas não significa ser grosseiro. Podemos discordar com classe, respeitando a opinião alheia. Quem necessita agredir o interlocutor , prova que seus argumentos são fracos demais ou está se sentindo muito mal consigo mesmo.

Temos o costume de pensar que em cada local que estamos , precisamos vestir uma personalidade diferente. Com os amigos de longa data, sou a descolada brincalhona que conta piadas sujas e fala palavrão. Com os familiares, não bebo nem falo alto, muito menos uso termos chulos. Com os colegas de trabalho, sou consumista , elegante e rio de piadas preconceituosas para me integrar no grupo. Com o parceiro finjo um moralismo acima da média para transmitir confiabilidade. Com o carinha sexy da balada, sou uma mulher fatal. Ok. Temos papeis sociais. Concordo. Não podemos falar e fazer tudo o que queremos em todos os lugares. Porém, existe limite para tudo. Tanto para bizarrices e extroversão como para protocolos sociais. Se em cada esfera da vida sou uma , estou vivendo uma série de personagens. A vida perde a autenticidade e eu me perco de mim mesma. E com o passar do tempo eu já não sei dizer onde termina a encenação e onde começa o eu verdadeiro. Se é que o eu verdadeiro existe mesmo…

Sim, podemos não ser a partir do momento em que não vivemos de acordo com as nossas crenças e prioridades. A partir do momento em que seguimos cegamente um severo script social que não entendemos. Faço isso ou aquilo porque me ensinaram assim. Penso desta forma porque me disseram que é o certo. Infelizmente a maioria de nós não é. Ser exige um trabalho homérico, cansativo e exigente ao extremo.

Ser exige que rasguemos as várias peles da alma até encontrarmos uma face horrenda e linda. Precisamos descobrir a nossa vilania e nossa generosidade. O nosso medo mais profundo e a nossa coragem mais hilária. Corajoso não é aquele que não teme. É aquele que enfrenta o medo. Também não há generosidade profunda e verdadeira sem um pouco de veneno, de rebeldia e transgressão. O que nos horroriza é o que nos encanta e o que nos repele , muitas vezes nos traz para junto de nós mesmos. Ser ou não ser? Eis a grande questão.

 

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