Cinema

A LARANJA INTRIGANTE

A LARANJA INTRIGANTE

Já parou pra pensar nos contrastes entre o fim do livro e o fim do filme? Uma breve análise da obra que até hoje choca muita gente por suas cenas de ultraviolência.

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A maioria das pessoas certamente já ouviu falar do clássico e também “cult” do cinema “Laranja Mecânica” de Stanley Kubrick. Baseado no romance de Anthony Burgess de 1962, o filme da década de 1970 retrata com fidelidade uma possível realidade distópica da humanidade. Ambientada em uma Londres do futuro, a realidade em questão apresenta grupos de jovens que se reúnem quase todas as noites para cometer crimes que variam de roubos de lojas, espancamentos de mendigos, à estupros coletivos. Que Laranja Mecânica é um filme incansavelmente analisado por críticos de cinema, psicólogos e cinéfilos de toda a parte, é fato, uma vez que uma mera sinopse já prenuncia a gama de aspectos comportamentais e sociais envolvidos na trama. Além disso, como uma típica produção de Stanley Kubrick, o filme conta com uma fotografia incrível, com cenários bem estruturados e de acordo com as vestimentas da época retratada.

A começar pela realidade a que Kubrick nos introduz, podemos perceber que o protagonista do filme, Alex DeLarge, de 14 anos, é filho de pais com uma relação estável e com condições de vida que permitem que ele viva confortavelmente. Então a primeira questão discutida se torna o fato que levou Alex a se unir a três outros “druguis” (amigos no dialeto Nadsat criado pela gangue, que mistura termos russos e gírias inglesas) para cometer atos de ultraviolência. Não nos é apresentado nenhum passado de Alex que seja conturbado para explicar a tendência à perversão e à violência que ele apresenta.

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Dessa forma, a personagem central, ao liderar seus amigos na prática dos delitos, pode ser caracterizada como um fruto do determinismo de Taine, em que a organização de trupes criminosas se tornou uma moda que Alex apenas seguiu para se adequar aos moldes da sociedade distópica em questão. Além disso, Alex frequentemente se torna mais agressivo junto a seus amigos, em uma tentativa de manter a posição de macho alfa dominante do grupo, contrariamente, sendo afável e polido perto dos pais. Essas pequenas associações gregárias que contaminavam a Londres de Kubrick geram uma sensação de medo e culpa nos telespectadores, por atualmente existirem tais atrocidades envolvendo jovens, mas de forma menos explícita e organizada.

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A constante sensação de desconforto durante o filme, em que somos levados a acompanhar a rotina de assaltos, espancamentos e estupros dos falantes de Nadsat é a prova de que esses jovens são uma forma alterada da sociedade perfeita que achamos que somos. Para termos uma ideia, tal sensação se assemelha em muito com aquela sentida durante a famosa cena de estupro do filme “Irreversível”. Em determinado momento, devido a um desentendimento no grupo, Alex é deixado para trás pelos amigos e pego pela polícia. Depois de detido, Alex é levado a um instituto para ser submetido a uma série de testes psicológicos que, segundo o que as autoridades lhe dizem, poderá liberá-lo para as ruas mais rapidamente.

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Na esperança de ser liberado logo, vingar-se de seus antigos druguis, e então voltar a fazer suas “traquinagens”, Alex inicia os testes junto a médicos psiquiatras. O tratamento de condicionamento a que o protagonista é submetido consistia em exibir cenas de violência e manipular substâncias que fizessem Alex se sentir mal durante os “filminhos”. A felicidade interna que sentimos ao vermos o jovem criminoso ser punido logo desaparece. Após alguns dias, a personagem recebe alta e já se mostra incapaz de ferir uma mosca. É possível, durante as demonstrações dos médicos à comunidade científica, sentir uma dose de pena de Alex, quando este é exposto à violência real e se vê impotente. Crentes de que o tratamento foi um sucesso, o protagonista é solto e retorna à sua casa. No entanto, Alex se encontra com dois de seus antigos companheiros que se tornaram policiais e é espancado, indo parar na casa de uma de suas antigas vítimas, que depois o reconhece, torturando-o. À beira da insanidade, Alex acaba tentando se matar pulando de uma janela, por ter dificuldade em lidar com sua vida após o tratamento. O conflito interno entre a vontade de praticar violência, que aparentemente nunca morreu, e a impossibilidade de fazê-la gera angústia e desespero em Alex. É nessa etapa do filme que percebemos a falha tentativa de condicionar o lado animalesco e instintivo humano à moral da sociedade de outra forma que não seja a educação. Quando o adolescente acorda, após a tentativa de suicídio, se vê em um hospital em estado de recuperação e sem lesões graves que o comprometam permanentemente. Alex começa a conversar com médicos que fazem novos testes para analisar seu estado mental e verificar a eficiência do condicionamento a que ele foi submetido. O garoto logo mostra que sua preferência pela violência está renascendo dentro de si mesmo. malcolm-mcdowell-as-alex-de-large-in-a-clockwork (1).jpg

Com os sinais de sua personalidade antiga retornando, os psiquiatras ficam intrigados e preocupados. Nesse ponto do filme, a última cena foi censurada por mostrar a volta explícita da violência e da perversão que Alex apresentava, em que duas pessoas fazem sexo em meio a um público e ao som de música clássica, o estilo favorito do garoto. Contudo, em uma das edições do livro de Anthony Burgess em que o enredo é divido em três partes com sete capítulos cada uma, no último capítulo é que a coisa muda. Alex encontra outro de seus antigos druguis, Pete, que se tornou um exemplo de superação. Pete narra sua vida para Alex desde a ruptura da gangue, dizendo que mudou seu comportamento, parou de praticar crimes e que pretende construir uma vida sólida e madura com sua namorada. Vendo o exemplo de seus velhos companheiros, o protagonista, como em um momento de epifania típico de Clarice Lispector, percebe que está na hora de crescer e amadurecer.

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Alex, então, nessa versão do livro, oferece uma saída otimista a uma sociedade distópica destruída e corrompida moralmente, mostrando que dentro do homem existe tanto o seu lado incontrolável e natural, como o lado comedido e adaptável com capacidade intrínseca de autoavaliação e de se encaixar às regras externas. Por isso, livro e filme constituem-se como um par fantástico para os amantes de distopias e de estudos comportamentais. Além dos desconfortos e de certo medo que várias cenas proporcionam, o filme também permite alguns instantes de descontração em um universo demasiadamente controverso.

 

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