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SOMOS TODOS REFUGIADOS

SOMOS TODOS REFUGIADOS

De terra. De alma. A buscar abrigo em um mundo cada vez mais inóspito. Solitários, arando em mar aberto.

"Her"

Por Francielly Baliana e Renan FonsecaA imagem era do menino morto em uma praia. Solitário, ao fim, é resgatado por um policial – símbolo da mesma Europa que lhe negara a entrada, e que agora lhe concederia uma cova. Um menino em um espaço de terra que não lhe pertencia. Um pedaço da humanidade jogado à beira de um mar, que liga o que muitas vezes se tem de mais inóspito: fronteiras territoriais.

O que vem depois desses limites geográficos onde culturas se tocam e se tecem? Melhor: o que vem antes? O que é que é que vem dos lados? Quais os caminhos ocultos que trazem meninos mortos para as linhas divisórias entre povos? A busca de um refúgio. A busca de tatos sinceramente humanos, a angariar caminhos diferentes daqueles que se interditam política ou economicamente. A busca por trilhas sensíveis, que não absorvam decisões sem nome e sem endereço, dessas que lançam seus próprios roteiros de gente no oceano desconhecido. No fundo, a busca por um refúgio tem a ver com a busca por ser. E não simplesmente estar.

Nosso choque diante de temáticas cotidianas a diversas populações, como preconceito, xenofobia, medo, morte, fome, guerra civil nem sempre nos leva a pensar que a dor do outro pode ser, em certa medida, também, a de cá. O outro, que busca refúgio em terra, que busca espaço, teto, água quente, comida. Sim, esse outro, que parece tão distante. Que grita diante da dor de quem só é visível na morte. Nem sempre nos lembramos que pra ser é preciso muita coragem. Carece encarar a estrada vazia, ou o mar, onde se ara em vão. Pra ser, muitas vezes, é preciso percorrer essas fronteiras que nos retiram a sensação de estar vivo, que nos atropelam ou nos atormentam, que nos desafortunam ou nos jogam em valas no meio do deserto. Pra alguns, na busca por ser, esses desertos são mais longos, crescem adiante. Pra outros, são profundos. Mas pra todo deserto que se abre quente pra fora há um outro que já se esfriou lá dentro, em uma dolorida e constante tempestade de areia.

Às vezes, temos apenas desertos esfriados, em nossas caixas fechadas às turbulências da guerra, da fome, da inconstância. Em nossos cotidianos tecnológicos, vivemos a dor de quem só ganha refúgio, por exemplo, em fotos virtuais. Vivemos a dor de quem não quer casa, mas um lar. A dor de quem não se reconhece em seu próprio corpo, mas é obrigado a permanecer assim. Dor de quem dialoga durante todo o dia com um meio que só reproduz padrões, e que oprime os desavisados. Vivemos infinitas dores, que também são sentidas por aqueles que enfrentam desertos fora de si e suas fronteiras mais materiais, bélicas.

Essa vivência de uma lógica que retira de nós fronteiras digitais, mas que mantém fronteiras socioculturais, de sentimento e de reconhecimento nos torna militantes sem espaço, mesmo em face de um mundo onde todo mundo parece caber nas redes. Não seríamos, então, todos nós, eternos refugiados? Seres que estão, são abrigados, mas que nunca, de fato, podem ser, e que só são lembrados por aquilo que podem ter, consumir ou produzir?

Qual a saída para quem quer fugir dessa lógica do sistema? Qual o refúgio possível para quem não se contenta em ser mais um produto, mais uma mercadoria descartável, mais uma peça produzida e marcada por uma obsolescência programada?

Essas questões trazem à tona o que temos de mais indizível, o que nem sempre é revelado, conversado, posto à prova, já que são dores tantas vezes invisíveis. Essa busca por alternativas, por um tratado fronteiriço que nos dê espaço pra ser, está longe de evidenciar um esclarecimento iluminista, pois não estamos falando de um culto à razão, nem da existência de uma forma de viver que seja superior. A questão reside apenas no ponto de nem sempre problematizarmos nossas escolhas ou o mundo que nos cerca. Ou, de nem sempre termos a chance de sequer escolher. Tudo parece vir pronto. Os contratos entre as relações já vêm tecidos. Mas e a costura, a linha fina, a dureza do crochê antes de ser tornar uma roupa utilizável?

Sentir-se deslocado em um mundo que vende diversidade pode soar contraditório. Mas, enquanto o negro continua segregado em diversos países, a mulher continua ganhando menos na maior parte do globo, os índios se mantém sem terra, as crianças continuam sendo usadas para o consumo, os idosos são descartáveis, os animais estão a cada dia mais domesticados, e nós, que nos sentimos desconfortáveis com a lógica de mundo vigente, continuamos em um espaço que nos enxerga como eternos descontentes, seres utópicos, quase abstratos, ora comunistas, ora bolivarianos, ora direitistas, nunca gente, nunca humano, o descontentamento parece a chave inicial para se livrar dos apegos de uma areia movediça.

Quando o refúgio não é encontrado, é evidente o problema. Com tanto espaço e realidades distintas no mundo, a falta de lugar para as pessoas serem, de fato, além de apenas existirem, atesta a falência de um sistema que se julga democrático e justo, com amplas oportunidades a todos. A quem nosso mundo abriga? Quem faz a seleção de quem merece refúgio? Certamente aqueles que se enquadram nos padrões estéticos de beleza, aqueles que possuem dinheiro ou condições intelectuais que sejam interessantes, aqueles que possuem dotes artísticos admirados pela classe alta consumidora, aqueles que possuem talento esportivo reconhecidamente destacado, aqueles que são possuídos e cooptados. Todos estamos imersos em contradições, sendo seduzidos, sendo conquistados. Todos somos minoria. E, quando é que as minorias vão ter espaço? Não são elas, pois, maioria?

Deixar de encontrar refúgio no consumo, nas compulsões, nos medicamentos, nas drogas, nas falsas interações sociais, nas virtualizações do real é trilhar um caminho alternativo ao que o próprio mundo, enquanto quintal de um sistema político-financeiro, propõe. É preciso entender quais os desertos que nos fazem andarilhos de nós mesmos, dentro ou fora. Andarilhos que dão voltas em círculo sem saber onde, enfim, estaria o oásis da existência. Seria o amor, a si, ao próximo? Seria a alteridade? Seria a coletividade, o sentimento de ser parte do outro? Procuramos refúgios que façam da nossa busca, a mais cotidiana, um atributo do que é sentir-se à vontade no mundo. E, sentir-se à vontade é saber que aquele lugar que se ocupa não precisa ser provisório, mesmo que seja também do outro. Porque compartilhar o que se tem de mais indizível é levantar-se naturalmente para caminhar enquanto o outro se senta depois da caminhada. É constituir relações que realmente importam, que te façam sentir-se parte de algo, de alguém, de um momento. Para que o mundo seja mais justo para todos, é importante que partilhemos de pequenas justiças, a começar por aquelas que nos fazem estar, inteiros, existindo no que sentimos. Talvez ser seja o que a gente vê de si no outro. E talvez por isso é que nos sintamos cada vez mais deslocados de nós mesmos, deslocados do nosso projeto cabível e possível de ser: estamos vivemos em solidão. Vamos aceitar essa ausência de nós em nós mesmos?

 

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