POR UM CRITICISMO MAIOR

POR UM CRITICISMO MAIOR

Se hoje, Shakespeare: há mais coisas entre a direita e a esquerda do que sonha nossa vã filosofia.

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Depois de ver mais um texto acrítico, utilizando-se da alcunha intelectual sem nenhuma seriedade conceitual ou consistência na argumentação, senti novamente a náusea causada pela sensação de uma involução da mentalidade humana. Tais escritos planejados para serem consumidos no mode fast-food se espalham como pragas, enquanto outras produções mais elaboradas ficam no vazio. Isso, a meu ver, é um reflexo do que vivemos, do que nos tornamos, do que estamos nos transformando. Da mesma forma que o corpo explicita as mudanças causadas pela sua alimentação, o corpo social também se deforma com a má qualidade do que o alimenta.

Algumas questões do Enem neste ano trouxeram à discussão uma situação que é característica dessa prova – e sempre foi -, assim como basicamente de todas as provas de concursos e vestibulares, desde sempre (amém!): a falta de acuidade com o que propõem e a ineficácia em proporcionar uma boa seleção. Todavia, as críticas que à prova foram direcionadas demonstram que ela atende ao nível de muitas das opiniões emitidas.

Parece difícil que as pessoas entendam que não há nada de errado em citar uma filósofa francesa na prova, a agora conhecida Simone de Beauvoir, pelo fato de ela ser uma das vozes primordiais do movimento feminista. Qualquer pessoa que tenha lido algum de seus livros constata, que tanto quanto qualquer filósofo da época, a escrita e a teoria por ela construídas, correspondem ao que se espera do comprometimento intelectual de um estudioso sério, utilizando-se de diversos conhecimentos disponíveis, o que resultou em uma argumentação fluente e concisa. Não por acaso ela foi respeitada por seus pares, mesmo sendo mulher, o que naquela época, mais do que hoje, não era um fator favorável para o exercício e reconhecimento intelectual.

Ademais, fatos da vida pessoal, posicionamento político, religioso ou o que quer que seja sobre a autora, no que se refere ao conhecimento que foi produzido por ela, simplesmente: não interessa! Por favor, façam uma ficha policial e inquisitória de qualquer intelectual do século passado, e analise segundo os preceitos da atualidade, e então tome isso como base para avaliar a validade acadêmica do conhecimento produzido, logo teremos como resultado uma evidência límpida de pura ignorância.

Por outro lado, quando temos uma questão criticando deliberadamente a globalização, de forma descontextualizada e sem considerar particularidades essenciais para a avaliação concreta dos impactos desse processo, temos a mesma evidência límpida de ignorância assinalada na própria prova. É explicitamente tendencioso tratar apenas dos aspectos negativos da globalização, e culpa-la por fenômenos que transcendem a sua existência, e ainda, que não se manifestam de forma homogênea em todos os lugares do mundo.

Desse exame que começa a trazer pensamentos considerados de esquerda surgem críticas e aclamações, aquele burburinho típico dos abutres que ficam voando em círculos, esperando a desova da carniça mais fresca do momento para se alimentar.

Com isso, para infelicidade de todos, inclusive dos que “não sabem”, o que temos é um bacanal de ofensas disfarçadas de conhecimento – muito mal disfarçadas por sinal – ou aclamações ingênuas e emocionais, que negligenciam aspectos essenciais da situação que, ao contrário de auxiliar, apenas prejudicam processos necessários e urgentes à cultura e funcionamento social. Pessoas que não entendem movimentos sociais, que não leem sobre eles, que não leem seriamente nem sobre os nomes que citam em sua fala ou escrita inflamada, espalham suas iras utópicas sem o amor e a crença que impregnaram as utopias das gerações sessentistas.

Pulgas falam de carrapatos, e o que temos são apenas palavras para sugarem o sangue da nossa inteligência sem contribuir para que ela amadureça. O que os difamadores dos movimentos sociais não entendem é que esses movimentos existem devido a causas urgentes, que atingem determinados grupos de forma mais intensa e são originárias de características específicas, que dizem respeito a um desenvolvimento histórico que, uma vez enraizado, precisa ser trabalhado com maior atenção antes que se possa sustentar qualquer perspectiva concreta de tratamento global das questões humanas. É verdade que todo ser humano sofre, mas como meu sarcasmo sempre graceja diante de um abalo sísmico existencial: melhor seria sofrer em Paris!

Em contrapartida, os aduladores de slogans militantes não compreendem que ser militante não se trata de adotar slogans e ignorar todos os outros discursos. Que uma postura militante não condiz com alienação no oposto ao que se pretende transformar. Que transformação exige interação com diferentes elementos, e não a eliminação dos mesmos em detrimento da imposição de uma “nova” forma de pensar. Tal atitude ingênua e agressiva apenas contribui para que os mesmos movimentos percam a valia, ainda que seja pela voz de discursos de pouca valia. Sempre me perguntei, por exemplo, qual é o sentido de adotar Marx em sua concretude, em pleno século XXI, e desprezar irrefletidamente o conhecimento elaborado por Foucault. Se hoje, Shakespeare: há mais coisas entre a direita e a esquerda do que sonha nossa vã filosofia.

Aos tutores dos “ismos”, sejam aderentes ou divergentes, desejo apenas, quase como um desesperado apelo, que amem o criticismo acima de todas as coisas, aquele que nos capacita a buscar, analisar e escolher sabiamente as atitudes que melhor nos orientem em direção a algum melhor do que o que tem para hoje. E que então, sejamos bem aventurados em não espalhar “hate” por aí. Que de qualquer lado e em qualquer direção, possamos ter um pouco mais de responsabilidade sobre o que falamos, e ainda mais responsabilidade sobre o que compartilhamos e pregamos. Porque de ideologias versas ou controversas, o mundo já esteve tão cheio, que hoje se encontra vazio.

 

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