Literatura

ANÁLISE DO POEMA MUSA CONSOLATRIX, DE MACHADO DE ASSIS

ANÁLISE DO POEMA MUSA CONSOLATRIX, DE MACHADO DE ASSIS

O primeiro livro de poemas de Machado de Assis se chama Crisálidas e é aberto com um poema chamado Musa Consolatrix. Neste, o egrégio escritor brasileiro adota uma postura que mistura Classicismo com o Romantismo ainda vigente nas letras nacionais.

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Que a mão do tempo e o hálito dos homens/ Murchem a flor das ilusões da vida, / Musa consoladora, / É no teu seio amigo e sossegado / Que o poeta respira o suave sono./ // Não há, não há contigo, / Nem dor aguda, nem sombrios ermos; / Da tua voz os namorados cantos / Enchem, povoam tudo / De íntima paz, de vida e de conforto. / // Ante esta voz que as dores adormece, / E muda o agudo espinho em flor cheirosa, / Que vales tu, desilusão dos homens? / Tu que podes, ó tempo? / A alma triste do poeta sobrenada / À enchente das angústias; / E, afrontando o rugido da tormenta, / Passa cantando, alcíone divina. / // Musa consoladora, / Quando da minha fronte de mancebo / A última ilusão cair, bem como / Folha amarela e seca / Que ao chão atira a viração do outono, / Ah! no teu seio amigo / Acolhe-me, — e terá minha alma aflita, / Em vez de algumas ilusões que teve, / A paz, o último bem, último e puro! ///

Existem poemas, embora grandiloquentes, que se entregam ao leitor de forma explícita e indubitável. É o caso da veemente Ilíada, atribuída a um rapsodo chamado Homero (o qual – não se sabe se foi um poeta ou vários – fomentou a ideia de um povo grego antigo), em cujas linhas primeiras vaza o assunto tétrico e plangente sobre o qual falará:

Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles, o Pelida/ (mortífera!, que tantas dores trouxe aos Aqueus/ e tantas almas valentes de heróis lançou no Hades,/ ficando seus corpos como presa para cães e aves/ de rapina, enquanto se cumpria a vontade de Zeus),/ desde o momento em que primeiro se desentenderam/ o Átrida, soberano dos homens, e o divino Aquiles./

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À guisa de Homero, se bem que com menor pretensão póstera, Machado de Assis abre seu livro Crisálidas (1864) com um poema emblemático: Musa consolatrix (Musa consoladora). A partir do título, ele realiza uma opção de composição: há alguma entidade sobre a qual o poeta deposita sua fé. À primeira vista, lembra o ideal clássico igualmente presente em Ilíada, onde Homero convoca o auxílio das musas (as filhas do deus Apolo, detentoras da inspiração nas artes) para dotá-lo de engenho (técnica, do grego tekhnikós, relativo à arte, à ciência e a um saber) e, assim, concluir a tarefa egrégia de prover a antiga Hélade (Grécia) de um espírito comum e unificador (apesar de as cidades-estado viverem em constante hostilidade).

O programa narrativo do primeiro poema do livro machadiano em questão é a dicotomia. Os filósofos gregos Aristóteles e Platão nos legaram um pensamento dicotômico, uma constante contraposição de conceitos-chave, um dos quais gozando de primazia sobre o outro. Platão, por exemplo, enxerga o mundo em dois níveis: o das ideias e o sensível (COTRIM, 2002). Esse último é como a maioria das pessoas entrevê as coisas ao seu redor; uma visão calcada tão somente nos sentidos humanos. O primeiro nível se vincula à depuração dos enganos constantes promovidos pela sensibilidade à flor da pele dos homens, conduzindo o conceito de verdade a um estatuto de apuro intelectual, possível apenas pelo fazer filosófico. Para melhor ilustrar esses preceitos, Platão construiu o mito da caverna, na seção VII do afamado livro A República: em suma, a maioria dos viventes veem as sombras de uma luz ainda inacessível a eles, pois se encontram prisioneiros dos próprios sentidos.

O pensamento dicotômico em Musa consolatrix é o próprio programa narrativo do poema: Machado justapõe a maledicência do mundo real (quem sabe sensível, tal qual Platão preconizara) com a possibilidade de algo (entidade, ideia, personagem – tentaremos desvendá-los) a servir como refúgio ou como baluarte da razão. As figuras do sossego e do sono, presentes no penúltimo e no último versos da primeira estrofe, consubstanciam, por movimento metafórico, a serenidade dos sentidos para melhor apreender as vicissitudes e as limitações da vida humana e talvez vislumbrar uma possibilidade de acesso ao mundo das ideias.

A segunda estrofe desdobra o programa narrativo deflagrado. Nem dor aguda, nem sombrios ermos: elementos que promovem uma poesia solar – luz entendida como ciência e razão – solicitam um fazer poético sem olvidar sentimentos ou caminhos trilhados pelo vate. Há um excerto de Jean Cohen, em Estrutura da Linguagem Poética, o qual explica o exposto: “Nada no fato poético em si se opõe a priori a uma tentativa de observação e descrição científica (…) O próprio Valéry [Paul Valéry foi um poeta simbolista francês, cujos experimentos instaram certos pressupostos das vanguardas estéticas do século XX, como a íntima ligação entre poesia e música, além de ser um esteta para outro afamado francês, o filósofo Jean Sartre] dizia: ‘indefinível entra na definição (COHEN, 1980)”.

A terceira estrofe – Ante esta voz que as dores adormece… – intensifica a presença de uma entidade dotada de plena racionalidade. É o combate aos excessos do ultrarromantismo – no Brasil, personificado na figura adolescente de Álvares de Azevedo (Quero em teus lábios beber/Os teus amores do céu,/Quero em teu seio morrer/No enlevo do seio teu!). Entre ambos se pode mensurar uma espécie de gradação das linhas-mestras das novas ideias que o Romantismo enquanto estética literária encampou. J. Guinsburg assegura que:

“As matrizes filosóficas da visão romântica, que legitimam, dentro de uma nova constelação de princípios, a originalidade e o entusiasmo, são o caráter transcendente do sujeito humano e o caráter espiritual da realidade, que quebram a uniformidade da razão e a consequente forma de individualismo racionalista, ao mesmo tempo que a concepção mecanicista da Natureza (GUINSBURG, 1988).

Entre Machado e Álvares, como dissera, existe uma gradação na filosofia romântica. O Romantismo se caracteriza como o primado do idealismo, entendido como a excelência do sujeito sobre o objeto. Percebe-se nessa terceira estrofe do poema de abertura de Crisálidas o ensejo dado aos termos abstratos – dores, desilusão –, concomitante aos versos de Álvares – amores do céu, enlevo. Contudo, cessa nesse ínterim a proximidade entre ambos, já que Machado dirime o desvairo lírico com a presença já mencionada da racionalidade. Corrobora o exposto a palavra que fecha essa estrofe: alcíone, uma espécie de ave, de canto triste e dolorido, considerada pelos gregos como de bom agouro, pois voava apenas quando o mar estava calmo. A escolha de tal termo não se faz ao acaso: há as agruras da vida – talhadas como espinhos nos versos –; entretanto, a verve do poeta suporta essas sugestões por meio de um porto-seguro, proporcionado pela calmaria de alma – metaforicamente, a alcíone.

O poema fecha com uma estrofe cujo mote tangencia a estética barroca – a fugacidade da juventude –, sem, no entanto, enveredar-se pelas conjecturas cultista (exagero nas figuras de linguagem) ou conceptista (agudeza de raciocínio). Quando da minha fronte de mancebo/a última ilusão cair: atenta-se para a imitação da natureza, uma transferência de ações do ambiente natural para a esfera humana, característica cara ao Barroco, no que concerne à existência de uma realidade exterior e, conforme abona Dante Tringali, “admite-se que todo conhecimento começa pelos sentidos (…). Vem daí o sensualismo barroco (TRINGALI, 1994)”. Basta recordar as insistentes remissões barrocas ao Sol e às flores, como rosas, para anunciar a efemeridade da vida (vide Gregório de Matos, cujos versos seguintes aludem a esse viés: “Mas ser planta, ser rosa, ser nau vistosa/De que importa, se aguarda sem defesa/Penha a nau, ferro a planta, tarde a rosa?”. Todavia, novamente Machado suprime os excessos: o fim das desilusões não é o envelhecimento ou o fenecimento da matéria, mas sim a paz de espírito.

A abertura de seu livro com tal poema ainda enceta um caráter didático do poeta sobre o fazer literário. Musa consolatrix pode ser encarado, ainda, como um metapoema, ou seja, um pequeno tratado de como se procede o ato de inspiração e de como o poeta pode encontrar o caminho mais seguro para suas composições. Soa, diante da comparação com o primeiro grande épico da literatura ocidental, a Ilíada, com um viés clássico, sendo este matiz reforçado pela relação equânime com os sentimentos pessoais do escritor. Essa figura da musa, que ora inspira e que ora consola o poeta, torna abstrato e universal a temática da inspiração em poesia.

 

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