THELMA E LOUISE : UM ENSAIO SOBRE A IMPREVISIBILIDADE DA VIDA

O suicídio normalmente é visto como um mero gesto de desespero ou cansaço da vida. Thelma e Louise precisaram escolher, como Sartre diria, entre uma opção ruim e outra pior. Morrer não era o ideal e desejado, mas era o menos pior naquela situação. O suicídio aparece como um gesto de rebeldia. Thelma libertara-se do marido opressor por um final de semana e depois de entrar em embate com a vida, numa luta visceral corpo a corpo, em que o seu melhor e pior vieram à tona, aceitar ser presa, simbolicamente, seria o mesmo que regressar ao casamento.

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O filme Thelma e Louise, produzido em 1991, e comentado por 11 livros de cinema a cada dez livros que lemos, foi analisado por muitas pessoas como uma ode ao feminismo. Não nego o caráter sexista do filme, em que os crimes cometidos por mulheres vem à tona muito mais rapidamente e com consequências muito mais nefastas.

O filósofo e professor argentino Julio Cabrera analisou Thelma e Louise sob o viés sartriano, defendendo a ideia de que somos responsáveis por nossas escolhas e todo ato de liberdade tem um preço a se pagar.

Podemos também ver Thelma e Louise como um signo da imprevisibilidade da vida. Em um simples final de semana, duas mulheres comuns, uma garçonete cuca fresca e uma dona de casa submissa se tornam criminosas procuradas pela polícia. Em um final de semana elas vivem muito mais experiências e riscos do que viveram uma vida inteira. Em um final de semana apenas elas descobrem muito mais a respeito delas mesmas.

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Thelma e Louise antecipam a era dos selfies, reafirmando suas personalidades subjacentes por meio de uma foto que dá início a viagem reveladora

A garçonete independente mostra-se muito mais certinha do que a dona de casa que sai de viagem com a amiga e deixa um bilhete para o marido, pois não tem coragem de dizer pessoalmente que vai passar dois dias fora e que ele precisará esquentar a comida que ela já deixou pronta.

Louise quer simplesmente dar um gelo no namorado. Nada demais. Thelma quer viver. E como costuma afirmar o ditado popular, quem nunca comeu melado se lambuza. Em sua ânsia de viver em um final de semana tudo aquilo que lhe foi negado, Thelma coloca Louise e ela mesma em situações bastante complicadas.

Como todo road movie, Thelma e Louise mostra a viagem objetiva como metáfora da viagem interior dos personagens. Louise vinga-se do seu agressor matando o violador de Thelma. Quando ela atira no homem que estupra Thelma, simbolicamente, ela atira no homem que a atacou em um passado remoto, impedindo-a emocionalmente de voltar ao estado do Texas.

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Por outro lado, Thelma descobre um lado muito ativo e transloucado que estava submerso pela rotina do casamento e pelo temor ao marido. Enquanto Louise é arrastada pelas circunstâncias, Thelma assume o controle da situação e mesmo que de forma caótica, ela toma as grandes decisões, incluindo o suicídio final. Louise dirige, mas Thelma faz a proposta com o olhar. Mas vale ressaltar que elas não jogam o carro de um penhasco qualquer. Elas atiram o carro no Grand Canon, o que confere um caráter grandioso ao gesto de ambas.

O suicídio normalmente é visto como um mero gesto de desespero ou cansaço da vida. Thelma e Louise precisaram escolher, como Sartre diria, entre uma opção ruim e outra pior. Morrer não era o ideal e desejado, mas era o menos pior naquela situação. O suicídio aparece como um gesto de rebeldia. Thelma libertara-se do marido opressor por um final de semana e depois de entrar em embate com a vida, numa luta visceral corpo a corpo, em que o seu melhor e pior vieram à tona, aceitar ser presa, simbolicamente, seria o mesmo que regressar ao casamento.

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Uma das cenas mais interessantes do filme, embora pouco realista, é quando as protagonistas questionam o caminhoneiro metido à “sedutor” a respeito da sua abordagem grosseira e logo em seguida explodem o caminhão. Aquele homem foi de certa forma escolhido como bode expiatório e uma espécie de ícone de todos os homens que as agrediram ou as subjugaram de alguma forma. Ao questioná-lo e explodir seu meio de trabalho, simbolicamente, elas escolhem romper com todo tipo de opressão.

O filme descreve tipos masculinos sórdidos, que servem como ícones das modalidades de exploração e abuso que podem infligir às mulheres. O marido, representa o típico homem autoritário. O estuprador, o facínora. O ladrãozinho sexy , o tipo que lesa sorrindo. O caminhoneiro, o idiota inconveniente.

Por outro lado, existem dois personagens masculinos que tentam ajudá-las: o namorado de Louise e o policial interpretado por Harvey Keitel. O detetive lamenta a sorte das moças e se refere a elas carinhosamente, como meninas. Elas negam a sua ajuda pois não confiam no mundo masculino.

Por outro lado, talvez, elas não quisessem realmente ajuda alguma. Talvez, numa leitura mais subjetiva e anticonvencional, elas quisessem realmente deixar tudo para trás num grand finale. A vida é imprevisível e em um momento tudo pode mudar para melhor ou para pior. Não temos controle sobre os fatos que nos induzem a determinadas escolhas. Talvez, todas as peripécias e desastres pelos quais Thelma e Louise passaram, fossem muito mais do que acontecimentos trágicos, mas sim os acontecimentos necessários para elas se tornarem elas mesmas.

 

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