A FORÇA DESTRUIDORA DE UM ELOGIO

A FORÇA DESTRUIDORA DE UM ELOGIO

Nada neste mundo é absoluto, nem mesmo esta declaração, de modo que uma crítica pode ajudar a construir um futuro, assim como um elogio pode destruí-lo.

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Certa vez uma garota me disse que teve seu futuro destruído pelo excesso de autoconfiança. “Eu tive um futuro promissor”, disse ela, “mas não passei de uma promessa.” A garota em questão tinha vinte e oito anos, concluíra a faculdade de comunicação quatro anos antes, e acreditava já não possuir um futuro. Pedi para que desenvolvesse, falasse mais a respeito, me fizesse concordar com isso, afinal eu não iria engolir aquela declaração apenas porque me fora exposta de modo convicto — parafraseando um velho sábio francês, “convicções nada provam” —, ao que ela sorriu autodepreciativa e me resumiu sua história.

Crescera em um bairro pequeno, provinciano e relativamente pobre, e os jovens que ali cresciam estavam destinados ao trabalho operário numa fábrica de tecidos, ao pequeno comércio local ou ao tráfico de drogas. Destacara-se desde cedo na escola, e por vários motivos: por lá chegar já sabendo ler, por ser a única que demonstrava algum interesse legítimo pelas aulas, e por gostar — verdadeiramente amar, segundo suas próprias palavras — dos livros didáticos, que na época traziam crônicas ilustradas sobre bichos falantes e sábias vovós cozinheiras. Ninguém de sua geração parecia pensar em termos de carreira, academia ou qualquer coisa que o valha, e cercada por tão estreitas fronteiras, descobriu por acaso a Literatura. A poesia de uma tal Irina Veronese fora a porta de entrada para aquele universo onde enfim não haviam fronteiras. “Ao ler as poesias de Irina, percebi que ela conseguia expressar coisas que eu sentia no ‘âmago de meu ser’, nas ‘profundezas de minha alma’”, disse ela, fazendo com que eu me contorcesse desconfortável com aquelas expressões clichés e cafonas que no entanto conhecia tão bem, “E que eu sequer imaginava passíveis de verbalização”. Foi então que decidiu ser escritora, e por não ter talento algum para a poesia e reconhecer isso — quem dera todo aspirante a poeta fosse tão autoconsciente —, optou pela prosa para dizer o que quer que quisesse ou precisasse, ou simplesmente contar uma boa história. Tinha recém-completado 13 anos quando escreveu o seu primeiro conto, uma história tão bem escrita e com um tema tão sombrio — o amor doentio de um velho taxidermista —, que levou sua professora a questionar se fora ela quem de fato escrevera o texto. Diante do veemente sim, a professora, que apesar de seus vinte anos de magistério jamais encontrara tamanho prodígio, sentiu-se obrigada a alardear aos quatro cantos do pequeno bairro que uma de suas alunas era uma escritora nata, um gênio, uma versão feminina de Machado de Assis, uma Clarice Lispector em ascensão, uma vidente, uma bruxa, uma wunderkind, uma Mozart das letras, dizia, uma legítima possuidora daquela coisa que não sabemos bem o que é, mas que todos os grandes artistas possuem, que não é apenas talento, mas também mais que talento, que eleva alguns artistas ao topo da pirâmide onde Shakespeare joga buraco com Freud enquanto Paganini toca cavaquinho e um pululante Rimbaud arrisca algumas letras improvisadas em ritmo de samba.

Assim se deu o início não de seu sucesso, como muitos poderiam supor, mas de sua desgraça, na qual poucos poderiam crer e a qual muitos assistiriam com deleite. Seu próximo conto jamais chegou a conhecer o papel, e visto que nada havia de mais paralisante do que a necessidade de ser genial, jamais voltou a escrever palavra, não porque não pudesse, mas tão somente porque não conseguia. Ao final do ensino médio, optou por uma carreira jornalística e não teve dificuldades em entrar para a faculdade, mas passara todos os anos que sucederam o seu breve sucesso literário sentindo náuseas sempre que se encontrava diante da obra de algum grande escritor, ou mesmo diante da página em branco. Não tinha problemas para desenvolver artigos jornalísticos, dizia, uma vez que era como fazer artesanato, um trabalho manual com suas próprias fórmulas, que ela fazia com desapego e acreditava poder fazer em quaisquer circunstâncias, bastando-lhe apenas estar acordada. O fazer literário, por outro lado, era arte pura e simples, e por ser arte para ela possuía um peso que parecia conter não apenas a via láctea com todas as suas estrelas, mas todas as galáxias do Universo.

“Hoje percebo duas coisas”, disse ela, “a primeira é que os elogios de minha professora, que era uma pessoa que eu considerava superior e cuja palavra parecia estar sempre coroada pela verdade absoluta, não fizeram tão bem quanto deveriam — o que agora é óbvio, mas na época parecia absurdo —, e a segunda é que, primeiro, me tornei excessivamente autoconfiante, e isso criou em mim uma segurança no futuro que beirava o ridículo e foi responsável para que eu, confiando no futuro, não tratasse de construí-lo. Veja se você me entende: eu tinha treze anos e me considerava genial, então tinha certeza de que aos vinte ou aos vinte e poucos eu estaria consagrada como tal, bastando-me apenas esperar pelo tempo da glória. Tal convicção só durou até o momento em que me impus a criação de uma grande obra e me vi paralisada na impossibilidade de sequer começá-la. Como para mim falhar como escritora seria falhar como homem — e digo homem no sentido de humanidade, e não do que se tem entre as pernas ou no sistema endócrino —, e nesse aspecto acredito ter falhado, admito para mim mesma que fracassei e portanto já não tenho futuro.”

Eu discordava, naturalmente, isso por conhecer a história de escritores que alcançaram a consagração no que para nós soaria como uma idade tardia, mas que na verdade era o natural — diferente do absurdo que é escrever Os Buddenbrooks aos 25 anos, como o fez Thomas Mann —, e não pude deixar de expor esse ponto de vista, que ela sumariamente desprezou. De qualquer forma, a exposição de sua história me serviu para avaliar melhor a minha própria, e perceber o quanto tínhamos em comum: a vida iniciada numa província de parcas perspectivas, a inclinação precoce para a introspecção e o isolamento, a paixão pela Literatura, a primeira leitura elogiosa (no meu caso também uma professora), a tendência a superestimar um futuro que eu não ousava construir, e a paralisia provocada pela necessidade de ser genial. Então passei a avaliar que efeito a crítica costumava ter sobre mim, e percebi que, passado o choque de ter sido criticado (uma reação que o escritor mimado por elogios não espera), eu buscava compreender as razões de ser daquela crítica. Por exemplo, desprezaria sumariamente críticas ad hominen (“o autor desse texto é um imbecil”), mas consideraria cada vírgula de uma crítica pontual, objetiva (“o texto está repleto de adjetivos, seria melhor optar pela economia”), de modo que as críticas que me dispus a ouvir me ajudaram (me ajudam) a ser um escritor melhor.

 

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