Literatura

A METAMORFOSE, DE FRANZ KAFKA

A METAMORFOSE, DE FRANZ KAFKA

A metamorfose mais popular do mundo: a metamorfose de Gregor Samsa. Mas, afinal, no que é que Gregor Samsa se transformou?

Captura de tela inteira 09012016 002704.bmp.jpg

É frequente, entre conversas roçando o literário, falar-se de “A metamorfose”, de Kafka, e, logo em seguida, se ouvir um acréscimo do tipo: “aquele em que o personagem se transforma numa barata… Sei lá, num inseto”.

O autor do adendo, de fato, permito-me dizer, roçou o caráter literário do texto, e por roçar entenda-se tocar levemente, como um beijo tão esperado tragado por um ápice de tempo. Kafka escreveu “inseto”. Kafka escreveu que tinha múltiplos membros que Gregor não sabia nem conseguia controlar. Kafka escreveu, está lá. Não tem como dizer que não. Mas o emissor de tal observação esqueceu uma coisa, esqueceu aquilo a que Galeano chamou de função da arte: esqueceu que a arte “[…] ajuda a olhar!” (GALEANO, 2013, p. 15).

Gregor Samsa não é uma barata ou qualquer outro inseto, desculpe. Tampouco se transformou numa. Gregor Samsa é um homem. Um homem que se metamorfoseou e transformou num outro homem. Um homem que a sociedade transformou num ser desprezível, como no poema de Manuel Bandeira em que: “o bicho não era um cão,/ Não era um gato,/ Não era um rato.// O bicho, meu Deus, era um homem (BANDEIRA, 2010, p. 119).

Captura de tela inteira 09012016 001648.bmp.jpg Pormenor da capa de “A Metamorfose”

Por isso, meu primeiro conselho para os mais incautos é que desconfiem. Desconfiem da ficção e, sobretudo, dos surrealistas como Kafka que, doze anos antes do manifesto surrealista de Breton (1924), escrevia algo tão belo, e tão estranho, quanto “[…] el encuentro fortuito de una máquina de coser y un paraguas en una mesa de disección”, do Conde de Lautréamont, e que, em poucos dias, dera forma a essa novela que parecia antecipar as palavras de Breton e Soupault que, em 1919, aconselhavam:

“Escrever tudo o que vem à cabeça numa folha de papel, o mais rapidamente possível. Não parar para ler o que já se escreveu nem dar atenção ao respeito ou não que se está tendo pelas margens ou pelas normas de ortografia. Apenas se deve escrever, incessantemente, durante um determinado tempo ou até cansar. Caso algum bloqueio apareça, escrevê-lo. O importante é não parar. No início a tendência é escrever coisas díspares, sem sentido (aparente), palavras ou frases soltas. Mas, com a prática, é possível escrever textos quase acabados, com abordagens originais, sinceras e criativas.”

Ora, a originalidade e criatividade são, sem dúvida, as mais inequívocas características de “A metamorfose”, e, arrisco dizer, a sinceridade não o será menos. Kafka, que com seu caráter visionário antecipa o surrealismo, é nessa novela o mais sincero possível consigo mesmo: está farto desse mundo capitalista, da industrialização desenfreada, dos mandos e desmandos do patronato, das imposições morais e sociais que o aprisionam e lhe impedem o livre arbítrio.

Captura de tela inteira 09012016 003208.bmp.jpg Kafka em 1917

Essas pernas/tentáculos que Gregor não controla (Gregor é o alter-ego de Kafka) simbolizam as forças interiores que o personagem deixa de dominar, essa vontade irrefreável de ser ele mesmo, de não se deixar coagir pelo meio social em que está inserido. Ele sabe da sua preponderância no seio familiar (ele é quem garante uma vida melhor aos seus pais e irmã), mas, ao mesmo tempo, não suporta esse ramerrame cotidiano, essa condição a que fora reduzido – um caixeiro-viajante tolhido nas suas liberdades – e, o pior, um inseto, algo tão sujo e descartável, e tão reles.

Mas repare, o inseto nasce quando o homem se recusa a ser apenas mais um homem entre os homens; o homem transforma-se num inseto quando deixa de fazer parte do mundo do trabalho, quando, enfim, para a família e para o patrão deixa de ter utilidade.

O nojo e ojeriza que ele provoca nos outros resulta da sua recusa em continuar compactuando com esse mundo assaz limitador do indivíduo. Aquela gosma que larga nas paredes, a sua doença, o seu estado definhado são simbolismos. Simbolismos que espelham a condenação social a que os outros o votam. Repito, Gregor Samsa é um homem. Um homem que ousou ouvir suas vozes interiores e mudar de vida. Afinal, como escreveu António Variações nos idos anos 80, “muda de vida, se tu não vives satisfeito/ muda de vida, estás sempre a tempo de mudar/ muda de vida, não deves viver contrafeito/ muda de vida se há vida em ti a latejar”.

Captura de tela inteira 09012016 003423.bmp.jpg O pequeno Kafka, em 1888

Gregor Samsa, como Kafka, “só podia encontrar a felicidade se conseguisse subverter o mundo para o fazer entrar no verdadeiro, no puro, no imutável”; Gregor Samsa ambicionava a aceitação, o amor verdadeiro de seus pais e irmã. “Aceitem-me como sou!”, parece o grito, a ambição maior do personagem. Mas esse amor e aceitação não vêm nunca. Uma vez “inválido”, doente, transforma-se num peso. E, como Fernando Pessoa escrevera, “talvez peses mais durando, que deixando de durar”.

Samsa está além desse talvez. Samsa é, literalmente, um peso em vida, que deixando de existir menos pesará, tanto que no dia de sua morte, seus pais e irmã, “dentro do trem onde eram os únicos passageiros […] confortavelmente reclinados nos assentos, falaram das perspectivas futuras, que, bem vistas as coisas, não eram más de todo. Discutiram os empregos que tinham, o que nunca tinham feito até então, e chegaram à conclusão de que todos eles eram estupendos e pareciam promissores” (KAFKA, p.32).

Diante disso, que importa, então, a morte do filho ou do irmão? Que importa, se eles são capazes de se sustentarem, se eles são estupendos e promissores, se eles descobrem que não são mais dependentes nem do filho, nem do irmão? Que importa?

Captura de tela inteira 09012016 003650.bmp.jpg Estátua de Kafka em Praga

“A metamorfose” fala-nos de valores. Mostra-nos que não existe amor puro e desinteressado. O mundo, voltado para a tecnologia, a ciência, o progresso, esquecia, no início do século XX, seu caráter mais humano, e Samsa, personagem rousseauniano, em vão se debate. Não tem como voltar a um estado primitivo, inconspurcado, fraternal… O mundo está perdido. Contudo, esse mundo perdido age sobre ele. Esse é o drama de “A Metamorfose”. Age sobre ele no sentido de que aquilo que os outros enxergam nele, ele termina enxergando em si mesmo. Age sobre ele no sentido de que lhe imputa essa doença e essa transformação. A sociedade, na figura dos seus pais e irmã, do chefe e do patrão, fá-lo sentir culpado. Culpado, insignificante, reles e inútil – um inseto -, asqueroso, abominável, que ora suscita medo, ora repulsa ou nojo.

Essa imagem é por Samsa interiorizada, é fruto do olhar do outro. O outro é que lhe confere uma identidade. É sintomático que a maior preocupação de Samsa não seja propriamente seu aspecto ou sua doença. Sua preocupação principal são os outros, a sobrevivência da família e os estudos da irmã. Diria que diante da sua fraqueza, da sua dualidade de vontades (continuar sua vida de caixeiro-viajante ou optar pela não submissão ao sistema capitalista), Samsa sente uma espécie de remorso ao optar pela segunda.

Esse remorso é que o metamorfoseia, é que o come como um vírus e lhe confere esse semblante desprezível. Samsa tem vergonha. Uma parte dele não queria que fosse assim, mas, nesse momento, é, contudo, incapaz de ganhar forças e energias que o façam ir/agir contra a outra parte de si mesmo.

Captura de tela inteira 09012016 003922.bmp.jpg Kafka em 1923

Nesse sentido, “A metamorfose” é uma questão de dualidade, de forças antagônicas agindo sobre um mesmo indivíduo; é uma questão de conflito interior e de busca de paz espiritual. Paz que Samsa não logra senão quando da morte. Por quê? Porque a crise de valores é aterradora, porque no lugar do sentimental ocupa lugar primordial o material e econômico, porque a sociedade oprime com suas regras sociais e morais de conduta, porque a fraternidade, o amor de pais e entre iguais estão também sujeitos ao interesse, ao benefício próprio… Por isso, Samsa se refugia no seu mundo interior, no seu quarto, e nele definha até o fim. O mundo que o rodeia não vale a pena.

Em suma, partindo de uma metáfora, Kafka, com exímia, apresenta-nos uma brilhante novela de implicação ideológica anárquica, ao mesmo tempo surreal e existencialista, muito além da literalidade do texto, pois as coisas vivem – e sobrevivem – além do exposto no papel.

 

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