MÚSICA E INTERDISCURSIVIDADE: CAZUZA, UM SUJEITO DO DISCURSO EM IDEOLOGIA

MÚSICA E INTERDISCURSIVIDADE: CAZUZA, UM SUJEITO DO DISCURSO EM IDEOLOGIA

A partir do estudo da teoria da análise do discurso de vertente francesa, desenvolvida por Pêcheux, entende-se o que torna o homem um ser especial em sua capacidade de significar e significar-se. Por meio da análise dos aspectos sócio-históricos e ideológicos, no contexto da música “Ideologia” interpretada por Cazuza, serão consideradas as exterioridades, identificando as influências histórico-contextuais e ideológicas na formação da visão de mundo apresentada na música.

Cazuza

Por meio da teoria da análise do discurso de vertente francesa, desenvolvida por Michel Pêcheux, concebe-se a linguagem como mediação (discurso) necessária entre o homem e a realidade natural e social. Assim, considera-se a linguagem não apenas como instrumento de mediação entre os seres humanos, mas principalmente como fator determinante à construção subjetiva/cultural e a música como expressão ideológica e cultural de determinado corpo social.

Considerando estes aspectos, serão analisados, enunciados da letra de música Ideologia, de autoria de Roberto Frejat e Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza, analisando-a a partir de sua exterioridade, isto é, do contexto histórico em que se insere, bem como, a partir da noção de sujeito para a análise do discurso, que é um ser histórico-linguístico e constituído pelo esquecimento e pela ideologia.

Assim, para a análise do discurso, a música não é apenas uma mensagem a ser decodificada. São efeitos da semântica que são produzidos em determinadas condições e que estão de alguma forma presentes no modo como se diz, deixando vestígios que o analista de discurso segue para compreender os sentidos passíveis de serem aí produzidos, pondo em relação o dizer com sua exterioridade, suas condições de produção.

Para Lacan, responsável pela definição de sujeito na Psicanálise, o sujeito só pode ser concebido no âmbito da linguagem. Foucault também concebe a noção de sujeito em convergência com Lacan: como jogo de reciprocidade entre a subjetivação e a objetivação. Subjetivação por ocupar posições, papéis sociais e legitimidades que lhe competem o que dizer e de que modos dizer; subjetivação, ainda, porque as práticas discursivas constituem o indivíduo moderno, sendo ele um sujeito preso a uma identidade que lhe é atribuída como própria. No entanto, também, sujeito objetivado por estar inserido em um determinado tempo e espaço cultural, social, educacional, político e histórico, que lhe orientam a determinados conhecimentos e saberes, reforçando ou negando a sua posição de sujeito.

Para Foucault, é a partir dessas relações intercambiáveis do sujeito que se revelam nos discursos o que se pode apreender de determinada época, sendo o homem sujeito e objeto de conhecimento, consequência de uma produção de sentido, de uma prática discursiva e de intervenções de poder.

Cazuza: um sujeito do discurso

O cantor e compositor Agenor de Miranda Araújo Neto nasceu em 04 de abril de 1958 em Ipanema, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Filho da costureira Lucinha Araújo e do produtor fonográfico João Araújo, Cazuza, como foi apelidado no dia do seu nascimento pelo pai, na Casa de Saúde São José.

Em março de 1964, período de início da Ditadura Civil-Militar no Brasil, Cazuza ingressou no Colégio Santo Inácio, escola religiosa de padres jesuítas, e é nesse período que Cazuza passa a receber os primeiros interdiscursos ideológicos exteriores aos que recebeu da família, já que fora educado por meio de um rígido ensino, fruto do sistema político vigente na época e de cunho religioso.

Quando se faz menção ao sistema vigente na época da infância de Cazuza, diz-se respeito ao período de Ditadura Civil-Militar; sistema político que, no Brasil, foi resultado da Guerra Fria e da polarização entre capitalismo e comunismo. Teve início com o Golpe Militar de 1º de abril de 1964, pelo qual foi destituído o presidente João Goulart e empossado o primeiro general-presidente, Humberto de Alencar Castelo Branco (1964-1967). A situação política intensificou-se sob o governo de Arthur da Costa e Silva (1976-1969), com o Ato Institucional nº 5 (mais conhecido como AI-5), que revogou o estado de direito e as liberdades civis, implantando um regime repressivo a qualquer possível ameaça ao poder estabelecido.

De acordo com o livro História do Brasil de Boris Fausto, o período de repressão e de castração da liberdade de expressão no mundo versus a disputa ideológico/simbólica de poder, também ficou marcado pela rebeldia em grande parte do mundo. Vários segmentos da sociedade civil rebelam-se, reivindicam maior participação na política e liberdade de expressão: O rock’n’roll, a liberdade sexual, o desbunde, a igualdade reivindicada pelas mulheres e o “é proibido proibir” são, entre outros, diacríticos da época.

Rebeldia esta que também influenciou a adolescência de Cazuza. Nesta época, aos quinze anos, Lucinha descobriu o primeiro contato do filho com as drogas, por meio de um jornal em baixo do colchão, onde Cazuza escondia maconha. A partir daí, ele passou a transgredir todas as regras, bebendo whisky, usando drogas e andando com amigos que sua mãe considerava como uma “turma da pesada”, além de optar pelo estilo hippie, com roupas rasgadas e cabelo bagunçado.

Além disso, parte da rebeldia de Cazuza pode ser entendida como resposta ao preconceito sofrido em relação à homossexualidade. De acordo com a obra Devassos no paraíso: a homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade de João Silvério Trevisan, o preconceito aos homossexuais na sociedade ocidental moderna, origina-se a partir da dominação ideológica cristã à cultura e aos princípios morais. A ideologia cristã tem como fundamento a castidade, mas, como esta é de impossível aplicabilidade à sociedade em geral, um “remédio” oferecido por Deus é o casamento: uma forma de manter os homens santos, sendo o sexo, ato exclusivo à procriação, o que não é uma opção a indivíduos do mesmo sexo com o desejo de efetuar uma união.

De acordo com o livro, a repressão à homossexualidade tornou-se ainda maior no período da Ditadura Militar. O preconceito, antes pautado apenas na pregação religiosa, ganhou apoio político e legislatório, aumentando ainda mais as consequências psicológicas de repressão a Cazuza e outros na mesma situação. Em 1982, o então ministro da Educação e Cultura, o general Rubem Ludwig, defendeu ao lado do presidente João Figueiredo a censura a tudo o que foge à moral brasileira, vedando qualquer produção considerada “imprópria aos lares cristãos”, como produtos com personagens homossexuais.

Em abril de 1987, Lucinha e o marido foram chamados pelo doutor Abdon Issano consultório saber o resultado dos exames de Cazuza, que não havia passado bem. O discurso que veio a seguir, foi a mudança final da vida do cantor: “Seu filho foi tocado pela AIDS”, disse o médico aos pais do cantor, que decidiram resguardar o filho até que ele tivesse a iniciativa de ir ao médico. Aos 29 anos Cazuza, descobre que estava com AIDS, uma doença pouco conhecida e relacionada, na época, à promiscuidade entre homossexuais.

Com o aumento do número de homossexuais e dependentes químicos detectados com a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) no início da década de 1980, o preconceito à orientação sexual tornou-se ainda maior. Isto, porque, no imaginário popular e principalmente devido a falta de informações e respostas a respeito do vírus, surge entre as instituições tradicionais cristãs a hipótese de que a doença poderia ser uma punição divina, e tal ideia se torna evidente nos palanques religiosos e no discurso divulgado pela mídia. As pessoas contaminadas foram expostas ao ridículo e rejeitadas pela sociedade. A interdiscursividade aceita pela sociedade da época era a de que a doença era atraídapela conduta não cristã, pelo indivíduo que não respeitou as leis divinas e, em consequência disso, devia aceitar o vírus como um castigo à promiscuidade.

Sua mãe, Lucinha, sempre permaneceu ao seu lado durante o tratamento. Na biografia escrita pela mãe do cantor, ela declara: “Muitas vezes, Cazuza cantou uma canção desconhecida para mim: “Ideologia, eu quero uma pra viver”. Perguntei ao Zeca que música era aquela, e ele me informou que era para o disco novo e que Cazuza e Frejat haviam começado a trabalhar nela antes da crise”. Cazuza, que viveu 32 anos “intensos”, faleceu em 7 de julho de 1990, em decorrência do Vírus da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS).

Música e Interdiscursividade: Ideologia

A letra de música Ideologia foi escrita por Cazuza em 1988, pouco tempo depois que o cantor descobriu ser portador da AIDS. Musicada por Roberto Frejat, a poesia se tornou música. Um dos movimentos que expressou a vida dos jovens daquela época foi o Tropicalismo, que, questionou os conceitos sociais transformando-os em arte. Foi uma época em que se destacaram as chamadas “tribos urbanas”, que por meio de convenções paralelas, alguns jovens tornaram-se alheios aos costumes da sociedade tradicional, sendo o Cazuza, referência à parte dessas “tribos”.

Na letra de música Ideologia, destaca-se a ambiguidade, provavelmente intencional nos enunciados. Na primeira estrofe de Ideologia, Cazuza, exprime-se: “Meu partido é um coração partido e as ilusões estão todas perdidas”. No enunciado, além da possível interpretação da existência de uma relação entre o sentimento de Cazuza e seu estado de saúde, pode-se relacionar o enunciado à influência da política da década de 1980: contexto social pós Ditadura Militar, onde a repressão, a censura e limitações à liberdade estão em transição paradigmática, porém, vigentes na cultura popular por meio dos preconceitos.

“Os meus sonhos foram todos vendidos tão barato que eu nem acredito, eu nem acredito”. Neste enunciado, dois gestos de sentido são possíveis: a) a perenidade dos sonhos de cada indivíduo diante dos padrões sociais do Regime Civil Militar e a alienação em massa; b) a perenidade de seus sonhos diante da doença.

No enunciado “Que aquele garoto que ia mudar o mundo (mudar o mundo), frequenta agora as festas do ‘Grand Monde’” há outro possível gesto de sentido. O enunciado sobre um “garoto que ia mudar o mundo” conduz o leitor a uma memória discursiva: muitos jovens que não fazem parte da alta sociedade são humildes e, de certa forma sentem vontade de mudar o mundo, frisando o ato de mudar o mundo como se fosse algo muito importante a se fazer no contexto social que os jovens viviam na Ditadura Militar. Já o enunciado “frequenta as festas do ‘Grand Monde’” remete o leitor às festas da alta sociedade, nas quais é possível a um sujeito se relacionar com pessoas que não tem vontade de mudar o mundo, pelo fato de viverem em uma acomodação em relação aos problemas sociais.

No refrão, outra ambiguidade: a) na primeira possível mensagem, relacionando-a ao sistema político/ideológico da época: “Meus heróis morreram de overdose, meus inimigos estão no poder”. Neste enunciado o gesto de interpretação possível é de que os heróis provavelmente não eram políticos, – e sim, líderes simbólicos, referência ideológica de luta à repressão, – que, por sua vez são os que comandam o poder do país naquela época ditatorial. O enunciado “Meus inimigos estão no poder” relembra a ideia de que os políticos da época eram os inimigos dos jovens revolucionários ou da população, e visto que Cazuza era um dos que estava à frente da população jovem da época, parte-se deste dito para interpretar o não-dito: que os amigos podem ser os cidadãos comuns que não estão no poder. Outro gesto de leitura possível é o de que o sujeito-autor de Ideologia refere-se a um sistema imunológico vitimizado pela AIDS, que deixa o sujeito sob o controle da doença, nada podendo fazer.

Continuando os gestos de interpretação, nota-se que o refrão, “Ideologia eu quero uma pra viver, Ideologia eu quero uma pra viver” é repetido várias vezes durante a música, visto que a palavra “Ideologia” tem uma significação muito forte. É possível que este conceito de ideias seja tratado na relação língua-discurso-ideologia, citada por Orlandi (2013). Na forma em que as palavras são ditas, o sujeito-autor, por meio do recurso retórico de verossimilhança dramática, pressupõe que na ideologia em que ele está inserido não é possível viver, por isso, persuade afirmando que precisa de outra. O sujeito-autor da letra de música diz querer uma ideologia para viver, o que gera uma significação de que o mesmo não possui ideologias, ou em outro gesto de sentido, que se perde entre as muitas ideologias existentes nas sociedades, já que, conforme Orlandi (2013) afirma, todo indivíduo possui ideologias, mesmo sem perceber tal influência nos seus dizeres.

Leituras recomendadas:

ARAÚJO, Lucinha. Cazuza: só as mães são felizes. 3. ed. São Paulo: Globo, 1997.

FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp, 2009.

FOUCAULT, Michel. A leitura e os leitores possíveis. In: ORLANDI (org.) A Leitura e os Leitores. Campinas: Pontes, 1998, p. 07-24.

LIMA, Luiz André Correia. Cazuza: lenda e legenda dos anos 80. Londrina: Editora Uel, 1997.

PÊCHEUX, Michel. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Campinas: Editora da Unicamp, 1988.

TREVISAN, João Silvério. Devassos no paraíso: a homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade. 5 ed. Rio de Janeiro: Editora Record, 2002.

 

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