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A FILOSOFIA DO EGO

A FILOSOFIA DO EGO

Um estudo sobre como a filosofia deixou de ser a busca da verdade para se tornar a reafirmação das vontades e fetiches dos homens.

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Eu sempre coloco os títulos de meus artigos logo após eu terminar a escrita deles, mas creio que este teve um caminho singularmente contrário. “Filosofia do ego” surgiu em meus estudos há algum tempo. Surgiu quando debatia com vários doutos e intelectuais de pedigree elevado, que possuíam o dom — dado por si próprio — de ser o início meio e fim de suas próprias teorias. Consideram-se mini-deuses; haviam aqueles também que adentravam, militantemente, em uma ideologia da qual se pretendia à fonte irrigadora das verdades, tornando-os assim portadores da realidade ao qual todos deveriam moldar-se.

A filosofia clássica iniciou no impulso de explicar o que ocorria neste pequeno cosmo em que vivemos. Muitos, desde então, sem nenhum espanto, tentaram formular respostas das quais se pretendiam à verdade. Nada assustador, afinal, nós fazemos isto o tempo todo desde criança. Quando argumentávamos com nossa mãe para que nos deixasse brincar na rua, nada mais estávamos fazendo do que disputar, por força de argumentos, quem possuía a verdade. E, geralmente, o argumento mais forte ganhava — no caso da mãe havia uma espécie de tirania, pois mesmo que o argumento dela fosse inferior em força, ela possui o aparato do ditador do lar, o decreto do chinelo. Tendermos à verdade é algo natural do ser humano, uns procuraram fora de si, como Platão e São Tomás de Aquino; outros, por sua vez, procuraram dentro, como Buda e Descartes. Mas raramente alguém dizia não haver verdades, até que chegou a modernidade filosófica e nos agraciou com suas imposições relativas, e verdadeiras, segundo os relativistas. Mas não estou aqui para criticar os relativistas, não diretamente pelo menos.

Como dito acima, a verdade sempre foi buscada. Sempre foi uma tendência humana buscar aquilo que é certo e recusar o errado, acatar o verdadeiro e recusar o falso. Muitos atribuíram isto há um ser transcendente que espelha em nós a sua realidade (verdade), outros apenas acreditaram estarem desenrolando um longo emaranhando de linhas que, aos poucos, vão dando sentido ao caminhar humano na terra. Negar que exista a verdade é o mesmo que negar a própria existência, ou seja, pelo menos a existência nos parece evidente, mesmo que o “pensar” seja anterior a isso para Descartes. Mas parece ser fato, como diria o Aquinate, que se há uma verdade ela se apresenta exterior, e nós a reconhecemos com tal. Não significa que eu esteja incluindo Deus na parada, apenas estou afirmando que este ser que a tudo desdobra, ou que, este emaranhando de linhas que a tudo se imbrama, apresenta-se exterior aos nosso caprichos, intelectos e vontades. Se o Big Bang era, antes da explosão, uma bola “supercondensada” ou apenas o estalar dos dedos de Deus, temos de concluir que nós, em ambas as possibilidades, não participamos desta estupenda e assustadora forma de início.

Se concordamos até aqui com as premissas acima, devemos, necessariamente, inferir que há uma realidade exterior a nós, enquanto que em nós há uma realidade posta — Todavia, sem cairmos num determinismo simplista e aprisionador; se trata mais de um imperativo categórico kantiano do que propriamente um determinismo leibniziano. Explicando melhor: é verdade que o fóssil está ali para ser descoberto, mas é através da inteligência humana que inferiremos que aquilo é um fóssil. Parece-nos correto afirmar então que no conhecimento há uma interligação de exterior-interior, objeto-intelecto, matéria-forma. Mas também nos parece ser verdade que o fóssil estaria lá mesmo se ninguém o descobrisse, mesmo sem ninguém catalogá-lo ou caracterizá-lo como tal. Mesmo se ninguém nunca o tivesse descoberto ele continuaria sendo restos ósseos de um animal morto.

Assim, podemos dizer que acontece relação entre: ente e coisa e só através disso o conhecimento se dá; entretanto, é real que as coisas primeiras independem das nossas razões e vontades para serem o que são. Estupro ou assassinato é um ato errôneo mesmo que todos concordem ser certo. A verdade não necessita da maioria dos votos humanos para ser verdade. Toda esta introdução complexa tem um porquê, e se conseguiu ultrapassar todo este chato texto até o momento, peço que permaneça até o fim para descobrir se você se encaixa, ou não, nestes moldes que irei descrever sobre os dois tipos de “filósofos” da modernidade.

1º O filosofo de todas as ideias

O primeiro tende a ser àquele que sempre pede para abrirmos a nossa mente. Ao dizer isto ela está tentando afirmar que existem verdades além daquelas que eu acredito e professo. Que eu devo aceita-las, previamente, sem criticá-las, pois isto seria uma forma de tolerância, uma espécie de lei de boa vizinhança. Se esta pessoa tivesse uma postura ligeiramente filosófica, nunca me pediria para “abrir minha mente”, pois, uma mente aberta é como uma caixa d’agua aberta, além de água, ela aceitará insetos, folhas e outras impurezas. Uma mente fechada não significa fanatismo, mas sim seleção de ideias. Ora, antes de colocar alguém para dormir em sua casa é justo que conheça, estude e pesquise quem é a pessoa que irá desfrutar de seus aposentos; assim também é com as ideias, antes de manter a porta aberta à quaisquer ideias estranhas, eu devo estuda-la com olhar crítico e com certa distância para inferir um julgamento de aceitação ou não de suas premissas e conclusões. Isto sem me envolver com taxações de verdade ou falsidade sobre aquilo que perscruto.

É justo que eu estude uma ideia diferente que me apresentam, é óbvio, mas somente depois de me aprofundar em seus argumentos é que a elejo merecedor ou não de crença e defesa. E isto eu posso fazer de portas fechadas e sem professá-las como verdade. Ou acreditam que, para confirmar os rumores sobre o meu vizinho ser um assassino, eu deva conceder-lhe uma boa noite de sono no quarto do meu filho? Uma mente fechada é como uma casa fechada, você acolhe aquilo (ou alguém) que acha digno disso; nisto não há preconceito algum. Assim fazemos diariamente quando negamos o livreto dos testemunhas de Jeová, quando um estranho pede-nos para capinar nosso quintal, ou quando dizemos que a Ufologia é uma ciência pífia. É óbvio que, depois desta investigação, se espere bons argumentos para a negação ou aceitação da dos conceitos, mas não é justo esperar que aqueles que acatam todas as ideias circulantes como verdades, sejam eles mais intelectuais ou mais sábios. Um homem que calça todos os seus sapatos de uma só vez se assemelha a um louco, e não há um sábio que quer desfrutar amplamente de todos seus calçados.

Quando uma pessoa lhe pede para ser mente aberta, ela, provavelmente, aceita que todas as formas de pensamento são verdadeiras, inferindo a si a completude de um deus que abrange tudo e todos em si, ela é o alfa à ômega. Qual o fundamento de seu pensamento? Ela própria. Cada ramificação de ideias infere a si próprio um fundamento, mesmo que esse fundamento seja: “não ter fundamentos”. Mas sempre há algum. O cristianismo se funda nos ensinamentos de Jesus Cristo, o budismo nos de buda, o Islamismo nos ensinamentos de Maomé; o fundamento, entretanto, de uma pessoa que tudo aceita como verdade é ela mesma. Ela é o estalar de dedos, ou a massa “supercondensada”, ela é o próprio “Big Bang”. No fim, ela não estará distante dos grandes ditadores. Os Césares romanos me pareciam possuir muito mais mentes abertas do que fechadas, se fosse-nos permitido voltar ao passado e perguntar a Nero, por exemplo, sobre quem eram os fundamentalistas, se eram os cristãos que cuidavam dos pobres sem nada cobrar, que rezavam em suas casas e partiam os pães com os vizinhos; ou se eram os Romanos, aqueles que os perseguiam, os jogavam aos leões no coliseu e os faziam de tochas vivas pela noite afora, certamente ele nos diria ser os cristãos. É verdade que, por vezes, muitos cristãos na posteridade histórica iriam ter acessos de “Nerisses”.

Mentes abertas, mentes que aceitam tudo, ou aceitam muitas coisas como verdades tornam-se aparato de ditadores. Hoje chamamos Hitler de fundamentalista, e se acatarmos linguisticamente a conceituação moderna deste termo, não tenho problema algum em aceitar esta taxação. Entretanto, ele me parecia muito mais mente aberta que o normal, acatou as artes antigas como vislumbramento de uma realidade a ser buscada, por exemplo, as artes gregas da Paideia e as romanas; ao mesmo tempo que investiu pesadamente na modernização dos seus aparatos arquitetônicos, medicinais e militares. Um perfeito “mix” de ideias tradicionais e modernas, um verdadeiro mente aberta. Sem citar que ele era o fundamento de sua própria teoria (nazismo), pegou aqui e alí uma ideia ou outra, mas ele era o deus do nazismo, ele ditava suas doutrinas e decidia quem eram os hereges e os fiéis.

2º O filósofo da granja do solar

Há, também, aqueles que já vem previamente programados por uma “verdade” que os controlam. Muitos poderiam indagar, o direito natural? Não, as ideologias. As idologias são uma éspécie de “Granja do Solar”[1], um cativeiro com cara de lar. O direito natural lhe permite segui-lo ou não, a ideologia não permite escolhas. Gostaria de ressaltar duas coisas nestas pessoas ideologizadas: primeiro, elas são profundamente servis e submissas às ideologias que seguem, num processo de religião invertida, como classificou Russell Kirk. Segundo; a realidade e o fato são todos moldados — ou melhor, mutilados — para caberem nas diretrizes pré-determinadas dos roteiros da tal ideologia. Muitas vezes, estes fatos são simplesmente descartados e combatidos como sendo inimigas da liberdade, do pobre, da mulher ou da igualdade.

2.1:

Russell Kirk nos disse que a ideologia é uma religião imanente (ou invertida). As ideologias políticas possuem todos os caracteres de uma religião formal, só difere substancialmente nas suas crenças, não creem eles mais num plano transcendente, suas utopias são as utopias do amanhã-aqui-na-terra; possuem seus líderes, seus livros sagrados e seus “santos”, assim como todas as religiões tradicionais. E como na religião transcendente, a religião imanente também pede para si a submissão de seus adeptos; quem diverge de suas crenças são hereges e devem ser banidos. Por vezes, também na fogueira, paredão, gulags e campos de concentrações afins. A servidão incondicional é algo dogmático, ou seja, ou você adere ao todo do corpo doutrinal da ideologia, ou estará fora de seu montante. Como há tempos venho fazendo este desafio, para aqueles que duvidam destas minhas afirmações, repito-o aqui também: vá a algum congresso comunista ou feminista e ergam uma pequena faixa dizendo: “sou feminista, mas não socialista”. Depois venha aqui nos comentários deste artigo nos contar sobre este breve momento de coragem. Nas ideologias não há espaços para divergentes ou livres pensadores.

2.2:

O segundo aspecto deste tipo de “filósofo” é que, mesmo que se prove com fatos históricos, econômicos e argumentativos (filosóficos) que estas ideologias possuem em si, mentiras e erros crassos, isto nada infere ao corpo dogmático desta religião ideológica. A verdade não possui poder sobre a crença da ideologia, ela mutila estas verdades para caberem em seus dogmas; não é raro ver sérias contradições nestas doutrinas, todavia, elas são ignoradas para que o corpo da “fé” ideológica seja protegida. Os que saem desta anestesia mental raramente retornam, pois constatam as faltas de coerências em que professavam suas militâncias. Basta acompanhar a história de Sara Winter, ex-feministas militante que tive a honra de conhecer pessoalmente. Não é raro ver afirmações lunáticas e moldagens da realidade verdadeiramente descabidas e desconexas. É como George Orwell dizia sobre SOCING, 2+2 podem sim ser 5 se o partido quiser. Em suma, estes pobres militantes assemelham-se ao alienista de Machado de Assis. Simão Bacamarte (teorizador) formou uma Casa verde onde dizia ter a ciência(ideologia) para a salvação dos alienados, dos fanáticos e desvairados. Não obstante, no fim, além de ter incluso toda Itaguaí no seu manicômio, o próprio Dr. Bacamarte somou-se aos números dos loucos. […]”quem nos afirma que o alienado não é o alienista”?[2]

Conclusão:

Quando chegamos ao triste fim destas constatações, vemos que a filosofia que antes buscava a verdade, independentemente se iria agradar ou não; buscava saber se seu vizinho era ou não assassino, mesmo que o resultado desta pesquisa nos deixasse profundamente magoados. A filosofia deixou de investigar os fatos e as verdades, passou a buscar, tão somente, a reafirmação de vontades, de vícios e fetiches, […] “de modo geral, o universitário consciente tem certa incapacidade física para ver o que não está de acordo com as noções que seu cérebro conservou”[3]. Pouco ou nada importando se seja verdade ou não o que é afirmado nas ideias que defendem. Se sou viciado em maconha, então devo eu acatar a filosofia abolicionista da maconha. Sou eu uma mulher? Então obviamente devo me inscrever no clã das feministas. Se sou eu a favor dos pobres, logo sou franciscano? Não, sou socialista. Pois no socialismo posso ser rico e defender a divisão estatal dos bens, ao mesmo tempo, mesmo que isto seja contraditório. Enfim, minha filosofia não se baseia na busca da verdade, ela se baseia na minha suprema e irrevogável vontade matutina, na minha mimada e chorosa agonia, no meu douto e santo achismo. A verdade é aquilo que eu quero que ela seja. Isto é a filosofia do ego.

Referência:

[1] Granja onde se passa a sátira de George Orwell: A revolução dos bichos.

[2] ASSIS, Machado de. O alienista, 1ª Ed, Companhia das Letras/Pinguin: São Paulo, 2014, p. 52

[3] PERNOUD, Régine. Idade média: o que não nos ensinaram, 1ª Ed, Livraria Agir: São Paulo, 1974, p. 11

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2 comentários em “A FILOSOFIA DO EGO

  1. Só por este trecho da escrita já encanta, “(…)Surgiu quando debatia com vários doutos e intelectuais de pedigree elevado, que possuíam o dom — dado por si próprio — de ser o início meio e fim de suas próprias teorias.(…) e é bem por ai mesmo que a coisa rola. Muito bom! Rebloguei, Twitei e faltou apenas a opção para meu G+. 😉

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