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VOCÊ QUER O QUE VOCÊ QUER, MAS A FORMA QUE VOCÊ QUER TAMBÉM IMPORTA

VOCÊ QUER O QUE VOCÊ QUER, MAS A FORMA QUE VOCÊ QUER TAMBÉM IMPORTA

O que você tem feito com o que a vida tem te dado? Um texto que fala sobre o desequilíbrio e que nos leva a refletir como estamos buscando as coisas e o modo que estamos usando para obtê-las. Em tempos difíceis, é importante fazer um balanço pessoal e ver as coisas sobre uma nova ótica. Desconstruir algumas ideias e crenças limitantes para que seja possível avançar e evoluir.

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Sinto o tic tac do relógio como se fosse a batida do meu próprio coração. Para ser sincera, nunca me preocupei muito com o tempo ou com a passagem natural dele. Mas nos últimos tempos, essa sensação de água escorrendo pelos dedos não me larga de jeito nenhum. Tento entender ou saber o por quê disso.

Talvez porque me aproximo a passos largos dos 30. Talvez porque pela primeira vez na vida me sinto emancipada e visto finalmente a vestimenta de adulta. Talvez porque mais um aniversário se aproxima e com ele a possibilidade de refletir sobre o ano que passou e o que pretendo realizar no ano que se inicia. Sim, aniversário é a nossa virada de ano, nosso réveillon, nosso período para balanço. Ao menos, deveria ser.

Obviamente que cada um encara a passagem do tempo como pode e com as ferramentas que tem. Meu aniversário sempre foi agridoce, um momento de contemplação e introspecção, desde que me entendo por gente. E claramente as ramificações filosóficas e existenciais tem se aprofundado com os anos. Não satisfeita de contemplar o meu próprio envelhecimento, observo dos meus amigos, no grupo no qual estamos inseridos, ou seja, como as coisas de um modo geral têm caminhado.

E quer saber, as coisas estão caminhando bem. Podiam estar melhores? Sem dúvida! Mas podiam estar bem piores também. O tempo me tirou coisas muito preciosas, mas colocou em seu lugar coisas que também não tem preço. De outra forma, não poderia ter chegado até aqui como sou hoje se coisas ruins não tivessem cruzado meu caminho. A verdade é que ninguém cresce com afeto e amadurece na alegria. Só andamos para frente, evoluímos como pessoas quando passamos por algum sofrimento ou processo de perda.

Toda a dor que eu passei na vida me fez ser uma pessoa muita mais humana, o sofrimento, sem dúvida, me deu humildade diante da vida, me colocou de joelho, me fez desconstruir ideias limitantes, me livrar de pensamentos e antigos hábitos que já não me serviam mais. Me fez olhar para o lado, olhar dentro dos olhos do outro e ouvir também a sua história, me deu empatia com a dor e com o sofrimento que as pessoas passam.

Me fez colocar a minha própria dor em perspectiva e avançar no processo de aprendizagem das coisas. Me fez parar de ficar reclamando da vida e das coisas, me ejetou do lugar de vítima, como se tudo só acontecesse comigo, que tudo dá errado só comigo, que a minha vida é mais complicada que a dos outros. Não tenho mais tempo, nem energia para ficar nessa areia movediça, nesse processo infrutífero de autocomiseração. As coisas são como são e pronto. Eu queria que fossem de outro jeito? Sim, mas não são. As coisas são como tem que ser.

Minha mãe me falava disso o tempo todo, e eu simplesmente não entendia. E achava que ela não me compreendia. Mas ela já estava lá na frente e sabia das coisas. Tem coisas na vida que não dependem da gente, são as cartas que a vida nos dá e isso a gente tem que aceitar. E dentro da fé que a gente tem, vamos buscando entender e dar sentido ao que parece, acaso, sorte, coincidência, destino, karma, lei de causa e efeito, vontade divina, a lista é extensa, sem dúvida. Agora, o que fazemos com as cartas que a vida nos dá, isso é só com a gente mesmo. A vida está acontecendo agora e se não estamos gostando da nossa sorte, está na hora de começar a mudá-la.

Quando a gente se movimenta e dá um passo na realização do nosso próprio sonho, o universo, se reestrutura também. A verdade é que não se pode ter um resultado diferente fazendo sempre as mesmas coisas. Para se ter algo que não se tem devemos fazer algo que nunca fizemos. Isso é um princípio simples de proporcionalidade e lei da compensação.

Somos avarentos com nosso afeto, mas queremos todo o amor do mundo. A gente não se dá, nem pela metade e queremos que os outros sejam inteiros. O mundo está cheio de gente fazendo jogo, dando o mínimo, mas querendo ter o máximo de retorno. As coisas não funcionam assim, causa um desequilíbrio nas coisas. Cadê o equilíbrio, a balança, aquela régua?

A verdade é que está tudo desequilibrado e fora de lugar e a gente reclamando que está tudo errado. O que estamos plantando, o que estamos semeando, o que estamos jogando para o universo? Vivemos tempos preocupantes, no qual tudo está polarizado, debates inflamados e uma falta de respeito, de cuidado com a opinião do outro. Há muita gente semeando ódio, intolerância, incompreensão, preconceito, regulando quem o outro pode ou não amar. Mas, o curioso, é que esperam receber o oposto de volta. Não faz sentido propagar essas ideias negativas e discursos de ódio e simplesmente receber coisas boas e positivas de volta. Como alguém pode plantar ódio e colher amor? Não dá mais para achar que se está sempre certo e o errado está no outro. É preciso entender e respeitar as diferenças de cada um, porque é nisso que reside a nossa beleza, na nossa individualidade.

Por isso, as coisas estão tão descompensadas e fora de proporção. Temos que olhar para dentro e refletir que tipo de espelho estamos sendo. O mundo é um reflexo de cada um de nós, do que contribuímos ou não na construção dele. Então, como pode os corruptos, desonestos, racistas, homofóbicos, machistas, serem apenas os outros? Somos apenas vítimas de políticos ruins, de um governo desonesto, da normatização dos preconceitos de raça, de orientação sexual ou de gênero? Porque o que vemos no macro, é sem dúvida um reflexo do micro. É importante pensarmos as coisas sobre essa ótica, para que possamos ser mais assertivos e menos fatalistas. Se esse modus operandi não nos representa, devemos lutar para que quem nos representa tenha voz, visibilidade e um espaço para que possa de fato começar o processo de mudança.

Porque é muito preocupante os tempos reacionários que estamos vivendo, atitudes, posicionamentos marcados pela intransigência em todos os aspectos, conservadores em todas as esferas. O que assusta nesses casos é a falta de inclusão e responsabilidade que temos todos nós no saldo negativo e digamos, nada favorável das coisas. Mas tem muita gente, levantando uma bandeira diferente. Gente linda e bacana querendo ir para Miami onde deveria ter nascido. Gente de bem querendo a volta da ditadura, porque aí as coisas funcionavam direito. Gente religiosa querendo o respeito aos valores da família tradicional brasileira e fim dessa “moda” de homossexual, porque eles agora estão em tudo que é lugar, seja nos comerciais, na novela, nos filmes, nas séries, na rua, é quase uma “invasão”.

Homens lindos e bacanas que acham que as mulheres tem muita “sorte” e não tem do que reclamar, afinal já melhoramos muito, e afinal, o que queremos mais? É a galera coxinha que não entende o porquê das cotas, afinal isso sim é racismo, isso sim é segregar. Estamos vivendo tempos complicados, tempos difíceis. Mas as coisas são assim mesmo, pioram um pouco antes de começar a melhorar. Mas elas melhoram, mesmo que demore. Afinal, é necessário que a reforma política caminhe junto com uma reforma íntima de cada um, principalmente dos

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