Literatura

RÉQUIEM PARA A LIBERDADE

RÉQUIEM PARA A LIBERDADE

A Ravina está prestes a ser o cenário que abrigará a primeira investida dos povos sempre oprimidos contra os governos abusivamente tiranos. Agora cada um terá que lutar pela sua própria liberdade mais do que tudo. E você, vai ficar de qual lado na hora do conflito?

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A opressão sobre os povos do reino da Audácia exige que os mais destemidos desafiem esse autoritário sistema para o fim da exploração de seus habitantes. Esta é a tônica que permeia toda a trama do livro “Réquiem para a Liberdade”, de Thiago Lee.

Nele, a questão da liberdade e do pleno livre-arbítrio é exibida sobre um pano de fundo medieval e discutida sobre as suas muitas possibilidades. Afinal, é possível se sentir livre em uma sociedade onde os mais pobres sustentam a pujança dos mais ricos? É realmente possível deixar de ser escravo mesmo com uma carta de alforria toda selada, registrada, carimbada, avaliada e rotulada para poder viver? Ou ainda, poderá valer mais a pena trocar a própria liberdade pela segurança de uma vida razoável assim como um pássaro engaiolado pode preferir receber o seu alpiste sempre na hora marcada ao invés de lidar com as incertezas do mundo selvagem? Pois até a morte pode ser um modo extremo de libertação conforme o autor assume já no título da história, que designa uma canção dedicada ao fim das penúrias terrenas dos falecidos e à esperança de dias melhores para os que aqui restaram.

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O principal símbolo dessa intensa discussão recai sobre o protagonista Marko, um escravo que foi liberto ainda criança graças ao sacrifício de seu pai e que agora pretende honrar o nome do genitor ao fazer com que mais pessoas possam desfrutar desse valor tão inestimável inerente à verdadeira liberdade.

— Você ainda não tem idade para entender, mas saiba que seu pai lhe deu o maior presente de todos. O presente do sacrifício e da liberdade, mesmo que sob estas condições. E este presente ninguém pode lhe tirar. (p. 23)

Porém, à medida que cresce, Marko percebe como não adianta apenas oferecer a liberdade para alguém: a pessoa que a recebe precisa estar disposta a aceitá-la. Bem como, caso satisfeito, o pássaro também não foge da sua gaiola ainda que ela esteja completamente aberta. E este parece o maior problema em curso: os pequenos vilarejos do reino são obrigados a pagar impostos abusivos e a produzir quantidades imensas de alimentos que depois são confiscados pelos comandantes da região, deixando o povo local padecendo de fome e de uma miséria sem fim.

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E você acha que eles se revoltam com isso? A grande maioria não. Os poderosos têm recursos para os silenciarem rapidamente. E os povos ainda contavam com a “proteção” dos guardas ligados ao reino contra eventuais invasores sem perceberem que os próprios guardas é que extirpavam todas as suas riquezas. E assim, o mesmo estado de escravização velada se mantém. Da mesma forma como até os que teoricamente se libertaram dela, como Marko, são obrigados a carregar uma cicatriz característica em seus corpos que será o estigma a marcar para sempre os seus passados e a acorrentar os seus futuros bem como a estrela de Davi selava o destino dos judeus na Alemanha nazista.

Este é o interesse de Dom, o responsável pela exploração do pacato vilarejo onde Marko e seu amigo Filip se abrigam temporariamente. Seu poder é indiscutível, sua palavra incontestável. Seria preciso se superar, romper as amarras e lutar pela própria independência caso ainda se quisesse mudar esse status quo. Contudo, a tarefa se mostra cada vez mais penosa conforme o protagonista percebe a plena astúcia de Dom para se defender de suas investidas, o que faz Marko sentir possivelmente pela primeira vez na vida que não resolveria o problema apenas com as suas forças individuais. É neste momento que uma organização secreta da qual ele sempre ouvira falar desde a infância, mas nunca compreendeu bem a sua função, de repente surge para confundir ainda mais o estado de coisas. Este é o grupo que se denomina “I Liberati”.

— Talvez tenha ouvido falar de nós — disse Paola, despenteando o cabelo que mal se deslocava de tão curto. — Nós somos os Liberati. (p. 122)

No entanto, as intenções dessa irmandade se conservam ambíguas por boa parte do livro: estão eles batalhando pela liberdade ou pela perpetuação da opressão sobre os povos? O que eles realmente querem? Oferecer um posto ao sol ou beliscar um posto de conde? Por fim, são estas questões que Marko terá de ponderar para decidir de que lado irá ficar na hora em que o derradeiro conflito estourar.

Com a utilização de constantes interlúdios que mesclam os desenlaces atuais com flashbacks que auxiliam na compreensão do enredo, a história se mostra bastante satisfatória e com diversos pormenores espalhados ao longo do trama que a certa altura estimulam o leitor a fazer um interessante trabalho de detetive para captar mais pistas que facilitem o seu entendimento como um todo. A ressalva fica somente pela falta de desfecho junto a algumas personagens interessantes e influentes no decorrer do enredo que poderiam ser melhor desenvolvidas para enriquecer ainda mais esse universo de disputas e atritos. Mas ainda há esperança: talvez essas personagens ainda o sejam desde que o livro permite uma extensão para um eventual segundo volume que possa realmente fechar todos os seus ciclos abertos.

Contudo, aos marinheiros de primeira viagem, resta somente um conselho fundamental: torçam para que Marko verdadeiramente se alie ao lado certo da força.

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