Artes · Textos

DIÁLOGOS COM BLAKE: (DES)CONSELHOS A UM JOVEM QUALQUER…

DIÁLOGOS COM BLAKE: (DES)CONSELHOS A UM JOVEM QUALQUER…

Glosas de dez provérbios infernais de William Blake ou anti-conselhos a um jovem qualquer…

800px-William_Blake_006.jpg [The Night of Enitharmon’s Joy, William Blake, 1795.]

Como num sonho (macabro), converso com William Blake, em sua casa, na Londres dos fins de XVIII. Bebemos, falamos pouco. Ele pinta os quadros seus. „O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria”, diz-me o anti-mestre, abrupto. Penso na rodovia do excesso trilhada pelos beats em busca de iluminação. Gente bem comportada, equilibrada e psicanalizável não vai mesmo muito longe… Pavor infantil de gente que fala sobre aposentadoria, filhos, dilemas domésticos do casamento e troca de carros. Gente que tem medo de errar, de ser inconveniente, de perder o emprego. Gente prudente, profissional e discreta. O excesso, tão permitido à juventude, leva à sabedoria, porque faz descer ao inferno, condição sine qua non para a miragem de um paraíso periclitante e inexistente no horizonte.

E “A prudência é uma solteirona rica e feia cortejada pela Incapacidade”, complementa-me Blake. Eu rio. Nós bebemos mais. Prudência coaduna-se com medo e flerta com a acomodação. Daí se entenda que o temor maior dos punks, talvez, seja aburguesar-se em prudências, tornando-se ciosos e incapazes de ousar, correr riscos, romper o quadrado. Daí, certo desejo de morrer cedo ou jamais crescer. “Punks morrem cedo” não como parece propor Ke$ha, mas em seus excessos, temerosos de compactuar com as instituições que tanto dinamitaram. E a cada geração certas verdades devem ser repetidas. Os punks não morreram.

Blake parece cansado de mim. Sou professoral demais, escondo-me no que digo. “Quem deseja e não age procria a pestilência”, diz-me quase irônico. Gustav Von Aschenbach que o diga! – respondo-lhe. Mas ele não pode entender, são coisas de depois…E se há desejos irrealizáveis, penso comigo, melhor agir em prol deles que a inação. Arianos não terão dificuldade com isso…Por outro lado, desejo é copo que não se enche. Sempre vazio, sempre cheio. É um jogo de azar…

“Pássaro algum voa alto demais se o faz com as próprias asas”, provoca-me Blake, já estamos mais íntimos. Ele parece antecipar certo existencialismo francês que me agrada muito. Gosto da expressão “próprias asas”. Sempre questão de escolher(-se) e voar. Nenhuma vida parece-me pior e mais infeliz que a escolhida por outrem. Blake é calado, mas concordamos em pensamento: melhor o sofrimento decorrente das próprias escolhas, que a acomodação incômoda de uma vida inautêntica, moldada por pais, família, sociedade, religião e quejandos…São os terrenos de uma negação anárquica, seguidos de proposições de si…

São tantas da madrugada, estamos agora mais soturnos, quiçá melancólicos. Diz-me, Blake, quase em segredo: “Alegrias fecundam, tristezas procriam”. Tenho levado melancolia a meus alunos, na contramão de uma mídia que os quer sempre risonhos e “alegres”. Entrar em contato com nosso lado triste faz crescer. Daí minha paixão pelos sambas-canção de Isaurinha Garcia, Maysa, Dolores Duran e Elizeth Cardoso. Há beleza na tristeza, há um lar na melancolia e muita vida na morte…

“Fala sempre o que pensas e os vis te evitarão”. Complicado isso, hã, Blake? Tema velho da sinceridade e da espontaneidade e seus limites. Evitam-me os vis, quando me calo também. Aos amigos, estes sim, mais sinceridade, mas as inseguranças existem e a intimidade sem reservas tão bem enunciada por Montaigne é coisa que vem com o tempo. Você, Blake, discutiria bem com Cioran, este a crer que não há espaço para a verdade, pois o “grau de suportabilidade da vida depende do grau de mistificação que se põe nela”… “Os tigres da ira são mais sábios que os cavalos da instrução”, vocifera Blake e quase me assombra. Sim, há algo de muito sábio na ira, na loucura, na devassidão. O próprio Cristo irou-se. Sade, o anti-cristo (?), gemeu coprofágico e lento. Gente muito mansa é dispéptica. E até considero a importância social dos “cavalos da instrução”, mas, mais e mais, vejo-me pouco talhado pra tanto, apesar de professor. Ajude-me, Tom Zé: “Eu tô te explicando pra te confundir…”

Blake dá as últimas pinceladas em seu quadro, olha-me curioso e diz: “Espera veneno das águas paradas”. A beleza da mudança, do caos e da inconstância, Blake! Há, contudo, desejo nosso de acomodação, estabilidade, chãos-a-pisar. Que é que se faz com isso? Aceita-se? “Escuta a censura dos tolos! É um privilégio de reis!” e gargalha o poeta-pintor. Sim, meu caro, eles não têm mesmo moral pra nos censurar. Têm poder. Apenas. “Pervertido, mal amado, menino malvado, muito cuidado!/ Má influência, péssima aparência, menino indecente, veado!”. Oiço Caio Prado, oiço vozes de infância e de hoje. Eles não podem nos censurar. Desprezar o desprezível. Preservar o estômago.

“O Progresso constrói estradas retas, mas as estradas tortuosas sem Progresso são os caminhos do Gênio.”, diz-me Blake e some. Fica um quadro seu e eu quase não me vejo mais. Uma certeza: são minhas as estradas tortuosas. Não serei Gênio, não reclamarei do preço das fraldas.

 

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