O SER, O NÃO SER, O DEVER SER E O QUE SOMOS: EIS HAMLET!

O SER, O NÃO SER, O DEVER SER E O QUE SOMOS: EIS HAMLET!

William Shakespeare escreveu Hamlet para desmontar o que hoje chamamos de rotina. Inconformado com a superficialidade das relações sociais, armado com a genialidade dramaturga de suas ideias, fez o sangue da consciência escorrer pelos labirintos mais profundos da alma somente para poder exclamar que é de nós a nascente de toda percepção, o conhecer a si mesmo. Antes mesmo de ser mais um ser social, Hamlet é a proposição primeira para identificar o que somos e talvez, um dia quem sabe, sermos livres.

hamlet-compressor.jpg

Em um mundo devastado pelo excesso de informação, o conhecimento ficou opaco pela ilusão de uma sociedade que assiste a nosso espetáculo dia pós dia. Somos protagonistas do nosso futuro ou mera reprodução passiva de um destino reclamado pelos deuses? Talvez ainda hoje, na Idade Contemporânea, não seja possível ao menos compreender, quem dirá, responder tal questionamento.

Na data aproximada do século XV (1599 – 1601), o genial escritor William Shakespeare ponderou, principalmente, na obra Hamlet o que há de mais complexo e sincrético no recinto do humanismo. Como uma esfinge do que Sócrates já clamava na Idade Antiga, o Inglês desenvolveu e coabitou os meandros mais obscuros e intocáveis da psico-filosofia – “Conhece-te a ti mesmo?” ou melhor, “Ser ou não ser, eis a questão”.

O brilhantismo dessa colocação vai encostar superstições, crenças, milagres, destino e todas as facínoras lamentações na parede dos porquês. O confronto de ideias, provavelmente, não nos dará as respostas, mas vai nos ceder a direção do caminho que somente nós poderemos escolher: o preço da liberdade é justamente a aptidão de poder decidir quais alegrias e tristezas viveremos.

Hamlet, a cada década, torna-se mais atual ao que aflige o ímpeto dolorido humano, mas anestesiado por discursos vazieis de aceitação. Como um terremoto tectônico, a cada página vencida da obra, fica mais evidente escancarar o cinismo de autoridades externas que controlam e monitoram nossas vidas. O despertar de uma manhã ensolarada apenas revela o quão sintético está se tornando a existência humana nessa pós-modernidade.

O príncipe dinamarquês é o anti-redes sociais, ele entende suas tristezas e não faz pormenores para demonstrar qualquer timbre de felicidade. Hamlet arremessa ao universo a descrição perfeita de que o palco da dramaturgia é o próprio mundo. Quando, ao menos uma vez na vida, será você, você mesmo? Em um jogo de pleonasmos mais significativos que a percepção cognitiva é capaz de absorver, Shakespeare grita, chacoalha, esperneia, joga tudo para cima apenas para elucidar, que seja lá qual o motivo de tantos comportamentos nocivos ao nosso verdadeiro status ser, as pessoas seguem encenando em uma vicissitude custosa abastecida pela ausência de consciência.

A vida dentro desse espectro irreal parece não pertencer a quem somos e Hamlet quer regurgitar toda “normalidade” que essa sociedade abjeta nos impõe. De tão simples, beira o incompreensível tamanha nossa forjada realidade. Bastar dizer o que são as coisas, não o que elas devem ser e o que queiramos que sejam.

Fingirmos de loucos apenas para salientar o quão ensandecido está o mundo pelas suas normas, normal do latim “normalis” – o que está de acordo com uma regra, e no fim, agradecemos por não sermos normais (normatizados). Nesse diapasão, pela primeira vez, não mais estaremos no palco, mas na arquibancada apreciando o inacreditável espetáculo, previsível e hilariante que é o nosso mundo.

Nas cadeiras próximas ao palco, talvez nas primeiras cenas fiquemos estarrecidos pela epifania (de Clarice Lispector) de uma nova percepção em que a liberdade é possível. Ser livre não só por ações e escolhas, mas ser o que somos dentro e fora de nossa consciência. E que, sendo livres, cientes estaremos do preço a pagar pelo tribunal social afogado por estereótipos irracionais.

Um novo mundo surgirá dentro de nós, pois quando entendemos o que é ser, Hamlet no seu sofrimento retumbante proclamou “Oh! Meu Deus! Poderia ficar confinado em uma casca de noz e, mesmo assim, considerar-me-ei rei do espaço infinito, (…)”. A sua reflexão será sobre o seu próprio ser, quando estiver pensando no que vai dizer, a solidão será o único refúgio para contemplar o que desejamos e se estamos dispostos a encarar um mundo com menos encenação, menos selfies, menos likes e menos contradições de estar rodeado por pessoas e ao mesmo tempo desajudado. Shakespeare transborda por meio de Hamlet o que vemos hoje de mais normal e conceitual, e o que deveria ser interrogado acaba apenas sendo repetido, diversas e diversas vezes, até se tornar um hábito e depois denominarmos cultura.

Aquele jantar planejado em um lugar calculado com uma pessoa para lá de especial deixa de ter sentido se for apenas apreciado, degustado e lembrado. Se não for postado nas plataformas digitais com hastags, check-in e obviamente, para evitar a solidão virtual, a esperança urgida pelo maior número de likes que hão de vir.

Vejam só, quase que um rapsódia da pós-modernidade, a solidão da solidão. Talvez Hamlet não tivesse previsto o caminho nefasto que a tecnologia podia nos proporcionar, mas anteviu a força gravitacional dos buracos da estupidez e tolice. Postar e se sentir vivo nas redes sociais para manufaturar companhias e amigos, o que será medido pela potência de visualizações e manifestações de concordância de apenas um clique (vi e gostei do que vi) ou ademais, comentários permeados de adjetivos rasos e agradecidos pelo interlocutor como forma de alívio.

No que exatamente estamos nos transformando sem ao menos ter experimentado ser o que somos? A morte nos capturará antes mesmo de nascermos. Enquanto a luz da consciência for ofuscada pela vidraça da ignorância positiva, a sombra da caverna platônica será o único refúgio para vislumbrar uma vida que nunca existiu. Realmente, Shakespeare desconstrói toda uma estrutura social que sempre pareceu inabalável. O que somos sem as instituições, religiões, opiniões, status, dinheiro, fama, universidades, empregos, família, namorados, amigos, sem a própria matéria? O que é você se somente você estivesse no mundo agora, sozinho, somente com você?

Talvez vamos perceber que nossa melhor companhia é a própria solidão.

 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s