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O SER HUMANO DEVE DESTRUIR SEUS IDEAIS

O SER HUMANO DEVE DESTRUIR SEUS IDEAIS

“É do feitio dos indivíduos mais inteligentes e diferenciados a busca incessante por todos os tipos de experiência, por todas as sensações e impressões, com o intuito de destruir qualquer tipo de ideal, qualquer resquício de interpretação exagerada e irreal sobre as coisas, para que a mentalidade se aproxime, cada vez mais, da verdadeira proporção dos acontecimentos, da realidade.”

“Meu amigo incomum possuía um olhar frio e inalterável. Ele constantemente zombava de mim, quando me via emocionado por causa de algum acontecimento que me encantava; para ele, a condição humana ideal é caracterizada por um alheamento completo a todas as coisas. Ele acreditava que o indivíduo realmente consciente, e senhor de si, era aquele capaz de afugentar suas paixões e desejos mais profundos. Essa sua forma peculiar de enxergar as coisas fez com que eu o seguisse; mas, mesmo com toda minha devoção, ele constantemente se enfurecia comigo, comigo, pobre alma! O demônio, ele não é humano! Era comum ouvi-lo dizer que nunca trocaria seu vazio pelo estupor das pessoas comuns, e isso me intriga; ele representa uma ameaça incontestável à sociedade e aos valores vigentes; diferente de tudo o que já vi, ele não foge da vida, não foge das sensações mais atormentadoras e desesperadoras. Talvez ele possua segredos capazes de alterar, por completo, a existência humana.”

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Parece ser pertencente à natureza humana a necessidade intrínseca de ideais, de sonhos alucinados — que nos transportam para uma condição existencial mais satisfatória e suportável — responsáveis por eliminar a dor que a realidade nos apresenta. Afastados, por causa de nossos ideais, do vazio sem sentido que é a vida, vamos, a todo o momento, alimentando ilusões, ampliando sonhos e desejos, ao mesmo tempo em que desprezamos e invalidamos tudo aquilo que nos faça questionar e desconstruir tais ideais.

Por mais que nossas alucinações tenham sido desenvolvidas apenas por nossa imaginação, por mais que elas nos afastem da realidade e da verdadeira proporção das coisas, são elas as responsáveis por definir aquilo que somos, fazendo com que estruturemos toda uma existência em função desses desejos profundos, que em nossa mente serão os responsáveis por proporcionar a satisfação mais sublime, a felicidade inabalável, a supressão de todas as nossas carências, etc.

Mesmo que tenhamos conhecimento do quão inverossímeis são nossas expectativas, ainda assim não somos capazes de abandonar nossos ideais. Mesmo que estejamos cientes dos exageros irreais, construídos para além da realidade, ainda assim somente nos envolvemos e valorizamos as opiniões daqueles que alimentam as nossas crenças entorpecedoras.

Atraídas apenas por aquilo que reforce seus ideais, as pessoas iludidas desprezam, com todas as suas forças, qualquer indivíduo ou coisa que as faça questionarem suas crenças infundadas, que as afastam da realidade e tornam a existência mais suportável. No entanto, até mesmo algumas pessoas iludidas percebem o quanto suas crenças são infundadas; para essas pessoas, uma pessoa alheia a qualquer ideal passará não mais a representar alguém a ser repudiado e odiado, mas sim alguém a ser admirado, estimado; os desiludidos se tornam objetos de admiração em tais casos, apresentando condições que algumas pessoas almejam, mas não são capazes de alcançar.

Tal condição indiferente é realmente especial, e, por mais que seja repudiada pela maioria das pessoas, se aproxima da realidade, da verdadeira proporção das coisas. Na existência desiludida os valores são alterados quase que completamente. Uma vez destituído de qualquer tipo de ideal e lidando com as dores da existência apenas com sua consciência, a vida sofre uma grande reviravolta. A impossibilidade de mudar dá lugar a uma capacidade incrivelmente abrangente de mudança, aspecto esse que altera, por completo, as condições existenciais.

A incapacidade de mudança, que exigia a criação de uma existência além-túmulo e reencarnações para que não nos sentíssemos desesperados perante a desconstrução de nossos ideais, dá lugar à ideia, que não mais nos incomoda, de que a vida é única e de que nós simplesmente deixamos de existir após a morte. Ao mesmo tempo, não mais nos sentimos desesperados perante possibilidades variadas e concorrentes entre si. Não mais perdemos tempo com sonhos alucinados que nos afastam da realidade. Não mais nos sentimos magoados perante acontecimentos passados que tanto nos atormentavam. Adaptados a um mundo completamente variável, deixamos de sentir medo de mudanças abruptas e abrangentes.

Por mais que tenhamos medo, por mais que a destruição de nossos ideais pareça ser o acontecimento mais desesperador de nossas vidas, sempre nos surpreendemos com os relatos incrivelmente satisfatórios dos seres destemidos que foram capazes de destruir aquilo que estruturava suas vidas. Esses relatos nos mostram uma vida rica, cheia de possibilidades e de conceitos que estão próximos à verdadeira essência das coisas.

 

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