Literatura

A POETA AGORA: LINHAS SOBRE ANA CRISTINA CESAR

A POETA AGORA: LINHAS SOBRE ANA CRISTINA CESAR

Poeta, tradutora, escritora. Uma das personalidades mais marcantes da literatura brasileira no século XX, Ana Cristina Cesar era um jorrar constante de originalidade e força nas palavras. Seu percurso breve, porém intenso, marca nossas letras com grandes reflexões sobre viver o tempo presente, que, segundo Octavio Paz, seria o mesmo que encarar a morte.

art_imgcapa_1399661918.jpgFamosa fotografia da poeta, infelizmente não encontrei quem a fotografou

Pensando na semana do dia internacional da mulher, veio-me imediatamente a figura de Ana Cristina Cesar. Apesar de ter assistido a inúmeros vídeos homenageando mulheres cientistas e inventoras, a poeta, inventora de si mesma porque traduz, mantém-se numa constante tentativa de recriar-se, construindo sua obra com o que há de mais potente na literatura mundial.

O gênero lírico na literatura nos permeia de devaneios e nos faz esconder nossos mais recônditos segredos nos versos. Ana C., como era conhecida, usufruía constantemente de poesia que vela e desvela, poesia que existe enquanto esfinge, exigindo de seu interlocutor uma postura de detetive.

Ana dialoga constantemente com a tradição e aglomera, em curtas passagens, pérolas de referências literárias a serem estouradas em todos os momentos. Quando lemos o texto abaixo temos curiosidade de saber o que é ode, onde fica o Tejo, porque ratos aparecem tanto na literatura e os heterônimos_ ah, os heterônimos, grande invenção da nossa literatura portuguesa!

final de uma ode

Acontece assim: tiro as pernas do balcão de onde via um sol de inverno se pondo no Tejo e saio de fininho dolorosamente dobradas as costas e segurando o queixo e a boca com uma das mãos. Sacudo a cabeça e o tronco incontrolavelmente, mas de maneira curta, curta, entendem? Eu estava dando gargalhadinhas e agora estou sofrendo nosso próximo falecimento, minhas gargalhadinhas evoluíram para um sofrimento meio nojento, meio ocasional, sinto um dó extremo do rato que se fere no porão, ai que outra dor súbita, ai que estranheza e que lusitano torpor me atira de braços abertos sobre as ripas do cais ou do palco ou do quartinho. Quisera dividir o corpo em heterônimos — medito aqui no chão, imóvel tóxico do tempo.

Devido às inúmeras referências em seus textos, estudiosos chegam a dizer que a sua obra se assemelharia a uma colcha de retalhos, sendo polifônica de um modo em que a poeta transcria versos que lhe são caros. Ao mesmo tempo que dialoga com autores do passad, Ana C. insere-se numa tradição das literaturas de vanguarda que é a de realizar constantes rupturas de forma e estilo ao mesmo tempo em que retoma o cânone de modo particular.

Poema de Ana Cristina Cesar [manuscrito].jpgManuscrito “Descuido não (concentração), de Ana Cristina Cesar [Arquivo Ana Cristina Cesar – Acervo IMS]

Em certo episódio, Flora Süssekind, grande crítica literária, conta que numa leitura de poemas de poetas mulheres, Cesar foi indagada a respeito de sua poesia, pois a julgaram muito bruta, antifeminina, comparando-a com Cecília Meireles, uma vez que esta sim escrevia versos bonitos, dignos de feminilidade, sem serem crueis. Ana C. simplesmente respondeu que havia tal diferença por conta de um simples fato: Cecília Meireles é um homem!

Apesar da vida breve (Ana cometeu suicídio aos 31 anos), a poeta deixa um legado imensurável, capaz de render inúmeros estudos acerca de sua poética e, de modo mais abrangente, levantar questões que visam investigar a poesia enquanto linguagem intríseca ao agora, tão caro de ser apreendido.

 

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