A RELAÇÃO ENTRE OS CLÁSSICOS E O PODER

A RELAÇÃO ENTRE OS CLÁSSICOS E O PODER

Todos gostam dos clássicos. Há quase uma unanimidade em relação a algumas obras e seus autores. Mas o que poucos pensam é em como esses cânones são construídos. E, como quase tudo em nossa sociedade, o poder é a chave para se “fazer” um clássico.

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O que é um clássico? O questionamento é frequente em conversas literárias. Na verdade, em quase todos os debates artísticos. Por ser, para alguns, um conceito subjetivo, quase pessoal, os clássicos acabam sendo definido, na maioria das vezes, pelo tempo. A distância temporal que consagra, às vezes de forma exacerbada, uma obra literária. Tentar prever quais obras contemporâneas se tornarão cânones da literatura universal é um exercício de adivinhação. Mas nem tanto. Há certa linearidade na linha de pensamento das grandes obras. O fio condutor dessa linha é o poder.

O conceito de clássico para as artes é meramente uma questão de autoridade. São os detentores do poder intelectual de uma sociedade que normalmente “fazem” os clássicos. Críticos literários, ensaístas, estudiosos ou artistas de renome podem fazer a obra mais controvérsia virar uma grande obra. Basta eles terem algum trato para lidar com o grande público, apurarem a linguagem publicitária, um espaço na grande mídia também não fará mal. Pronto, está feito mais um clássico. Ou quase.

Oswald de Andrade, em uma de suas últimas entrevistas concedidas para o também escritor marcos Rey, conta uma curiosa história que confirma um pouco essa tese. Segundo ele, “inventou” Antônio de Alcântara Machado, autor respeitado, embora tenha tido a sua carreira interrompida por doenças precoces, da época. Alcântara tem como obra prima “Brás, Bexiga e Barra Funda”, pequeno livro de contos que retratam a vida dos imigrantes italianos em São Paulo do início do século XX. Oswald citou na entrevista que, na época do lançamento do primeiro livro do autor, redigiu um artigo elogioso exagerado para o jovem autor. Foi um espanto geral na sociedade literária da época. Antônio passou não só a ser observado, mas também admirado.

Nos anos que sucederam o artigo de Oswald, certamente Antônio não se tornou um clássico. Mas o tempo passou. Sua obra tornou-se notória. O boato virou verídico. E agora, temos um autor estudado nas escolas. Coloque tudo isso na conta de Oswlad que talvez, nem achasse o jovem lá grande coisa. Não que pessoalmente eu ache a obra de Antonio ruim, não é. Porém, se ele não tivesse sido “empurrado” pelo amigo famoso, talvez seus livros não tivessem chegado tão longe na história. Isso é fato.

Contudo, há sempre as elogiáveis exceções. Lima Barreto é a maior delas. O carioca é um dos maiores escritores que a nossa literatura já teve, seus livros e contos são geniais. Todos com uma ironia machadiana, uma acidez diante da imprensa, críticas severas para a elite intelectual pernóstica da época. Lima Barreto era negro, netos de escravos e recusava-se a jogar o jogo do poder. Por isso foi jogado no abismo. Suas constantes críticas à imprensa o jogaram no ostracismo. Ninguém o citava, simplesmente o ignoraram. Morreu em um manicômio. Tinha tudo para ser esquecido pelo tempo. Não foi. Deu sorte.

A relação entre os clássicos e o poder é intrínseca. Certamente não é só isso, algumas se mantêm pela inovação para o mundo das artes, outras por escancarar contradições de uma sociedade. Mas, sem a ajuda da elite intelectual ou da “moda” de uma época, poucas sobrevivem pelo obstáculo mais cruel para uma obra: tempo. Dele ninguém ganha.

 

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