Música

COMMUNIQUÉ (1979) – DIRE STRAITS: UM PASSO EM FALSO?

COMMUNIQUÉ (1979) – DIRE STRAITS: UM PASSO EM FALSO?

A maioria das pessoas que você conhece, que escuta ou escutou alguma coisa sobre rock dos anos 70/80 já ouviu a música Sultans of Swing. Um clichê, o carro-chefe da banda britânica Dire Straits, que tem como frontman Mark Knopfler. Mas poucos conhecem sobre o disco seguinte, Communiqué, de 1979. Esse para muitos é o disco que mais revela a visão de Mark sobre o que o rodeava e como se sentia sobre seu sucesso repentino.

_DSC9941.jpg

A banda britânica fez muito sucesso com seu primeiro disco nos EUA e em outros países, tanto que John Stainze, diretor da A&R Phonogram, queria rapidamente uma continuação. Segundo ele, Mark falara que era possível escrever canções para o ano seguinte (Dire Straits foi lançado em 1978). Combinaram então de escrever o disco depois de alguns shows no Reino Unido e antes da turnê de 1979 pelos EUA.

Isso foi crucial para dois pontos: Em primeiro lugar Mark e sua turma perceberam que a indústria fonográfica era um terror pra quem era acostumado a tocar em pubs e manter uma vida normal. A segunda coisa é que eles tinha basicamente entre uma turnê e outra 15 dias. Frase célebre de Elvis Costello, repetida inúmeras vezes por Jerry Wexler, que produziu o disco: “15 anos para fazer o primeiro disco e 15 dias pro segundo”. A priori, Stainze queria completar três discos em dois anos, mesmo Dire Straits não sendo vendido ainda em larga escala. Mesmo assim, ouviu as demos e achou maravilhoso. Resultado: continuaria até Dire Straits ser ovacionada na Inglaterra e no mundo.

Dire_straits_22101985_23_800.jpg Dire Straits em Drammenshallen, Noruega, 1985

Bob Dylan falava em entrevistas que adora o estilo de Mark de tocar. Tanto é que o convidou para gravar seu álbum Slow Train Coming, bem destacado no disco assim como Pick Whiters. Mark era nessa época uma grande interrogação para os jornalistas. Aos 29 anos já estava ficando calvo e parecia ser inexoravelmente um homem dedicado ao seu trabalho. Tornou-se um Sex Symbol e isso teve efeitos ruins para ele. Primeiro pela não aceitação do título e segundo pela investigação que a mídia fez em busca das origens de suas canções. Mark estava nitidamente perturbado com isso

Mas nos palcos a banda realmente colhia seus frutos. A turnê de 1979 foi extremamente gratificante, onde em uma das ocasiões, o palco foi realocado para um lugar maior, devido a grande procura de ingressos. Na Bélgica por exemplo, eles iriam tocar num pub, mas no final tocaram em um campo aberto para mais 2.500 pessoas. Em alguns países, como Austrália e Nova Zelândia, o álbum chegou a ficar em primeiro lugar nas vendas.

dire-straits-communique-knopfler-14.jpg Dire Straits em concerto, 1979

O disco, contrariando todos na época, não foi gravado no Reino Unido. O destino: Ilhas Bahamas. Gravaram num estúdio chamado Compass Point. Segundo Wexler, a escolha foi por conta de desajustes fiscais. Eles ficaram residentes em uma mansão luxuosa, chamada Capricorn, propriedade de um mecena das artes. Eles adoravam: “tinham uma ostentação disponível em toda a casa”, lembrava Wexler, que segundo eles era parecido fisicamente com Ernest Hemingway.

Wexler era uma figura marcante na produção do disco. Segundo ele, Mark era um dos poucos guitarristas em atividade com um jeito “à moda antiga”, sem efeitos eletrônicos e/ou distorções. Acreditava também que tudo que estava sendo gravado tinha uma sutileza infame. “Mark não é desses que despeja notas no ar e ele não enche o som desnecessariamente. A música é sempre um equilíbrio entre o que se afirma e o que se deixa à imaginação, e a resposta reside no gosto pessoal. Esta banda é totalmente diferente de qualquer outra. Portanto, não interferi, e acho que Mark também não o permitiria.”

Jerry-Wexler_791399c.jpg Jerry Wexler, um dos produtores do disco

Mark foi entrevistado em Compass Point pelo jornalista Ian Birch, do Melody Maker, onde falou abertamente sobre as canções do disco. Segundo ele, quando as ouvia, não achava que elas falam algo sobre ele como pessoa. Ainda nessa entrevista, Mark fala sobre Follow me home, que tinha uma importância enorme pra ele por conta de um caso amoroso. Mesmo assim, gosta de ser desassociado da canção, “divorciado”, acabando que a canção não pertence a quem escreveu.

Outra música que intrigou os jornalistas foi Lady Writer. Todos queriam saber de quem Mark falava na canção. Falava então de uma aparição da prestigiada escritora britânica Marina Warner na TV. Seu segundo livro “Alone of All Her Sex, a study of the Virgin Mary” fala exatamente o que a música diz nos primeiros versos Lady Writer on the TV, talking about Virgin Mary.

marina-warner-4.jpg Marina Warner, a famosa “Lady Writer”

Em News, ao contrário de que todo mundo pensava, Mark escreve sobre um jovem que morre em um acidente de moto (as pessoas achavam que era sobre seus tempos como repórter). Já em Communiqué, ele sim retrata o que é ser jornalista, como cita o press release (Comunicado de imprensa) e como ele se sentia ao ser entrevistado, tendo o ponto de vista ambíguo do objeto.

Where do you think you’re going é uma canção de amor misteriosa, indefinida, solta. Já o contraponto dessa é Angel of Mercy, que fala de uma amor feliz, um relacionamento sem tristezas nem angústias.Portobelo Belle fala sobre uma viagem pela zona londrina homônima. Em Single Handed Sailor (minha preferida, diga-se de passagem) Mark também usa Londres como inspiração, sendo composta no local onde a banda ensaiava, em Greenwich, “numa noite em que o vento se lamuriava em redor do Cutty Sark”.

.

Communiqué foi o nome escolhido a contragosto de Wexler, que preferia que o nome fosse News, pois segundo ele se encaixava melhor no que o disco queria propor. Stainze achou as canções maravilhosas, porém ponderou que se eles tivessem tido mais tempo para gravá-las, poderia ter se tornado o melhor disco da carreira deles.

O interessante é que antes de lançar o disco, na turnê americana, o primeiro disco vendeu mais de 2 milhões de cópias e então o lançamento do segundo disco é adiado. Lady Writer foi escolhida como single promocional do disco, ambicionando o mesmo impacto que Sultans of Swing, o que não aconteceu. A “senhor escritora” de Mark ficou apenas na 51º posição nas vendas na Inglaterra.

mark-knopfler7-650-80.jpg Mark Knopfler, 2015

As críticas sobre o álbum vieram. E não foram nada amistosas. Susan Hill, do Melody Maker , foi enfática: “Tão elegante, tão encantador, na verdade, que mal nos apercebemos de que nada foi transmitido até que o lemos e relemos. E este LP emprega o mesmo truque esperto: foi concebido de modo agradável e cuidadoso, cheio de atmosfera, mas pouco substancial. É um passo atrás em relação ao arrebatador álbum de estreia e, lamentavelmente, não há qualquer sinal de ‘Harry’ [Referência a «Sultans of Swing]. As histórias são subdesenvolvidas, sem o imaginário mordaz; é hesitante, a nível melódico e de letras e, por fim, uma repetição inferior do material já apresentado”.

Infelizmente, era o pensamento generalizado da maioria da crítica especializada da época. Num jogo de morde assopra, a imprensa em contrapartida, elogiava as performances do grupo nos shows. “Parecem ter asas”, disse John Orme, também do Melody. Mark estava irritado com as críticas: “apenas pegamos um amontoado de músicas e gravamos em árduas três semanas. Não queríamos mudar a vida de ninguém”. Além disso, havia discussões internas, principalmente sobre a qualidade de alguns integrantes. Pick Withers duvidava a todo momento sobre as performances de John Illsley e de David Knopfler.

dire-straits-communique-knopfler-19.jpg Dire Straits em Munique, 1979

Esse é considerado um discos mais sombrios por conta da comparação do primeiro e pela importância de Sultans of Swing na carreira dos Straits. Muitos diziam que gravar em pouco tempo era suicídio. Um passo em falso. Será? O que podemos ver é uma sutileza de sentimentos nas canções, como Follow me home, por exemplo. E a energia e técnica de Mark em Angel of Mercy, Single Handed Sailor. Um disco controverso, porém lindo. Um press release digno de ser ouvido várias e varias vezes. Deixo vocês com o disco. Aproveitem ao máximo e ao mínimo.

Ficha técnica

Álbum: Communiqué

Ano:1979

Gravadora: Warner Brothers

Produtores: Jerry Wexler, Barry Beckett

Todas as letras escritas por Mark Knopfler.

1-“Once Upon a Time in The West” – 5:25

2-“News” – 4:14

3-“Where Do You Think You’re Going?” – 3:49

4-“Communiqué” – 5:49

5-“Lady Writer” – 3:45

6-“Angel of Mercy” – 4:36

7-“Portobello Belle” – 4:29

8-“Single-Handed Sailor” – 4:42

9-“Follow Me Home” – 5:50

Namastê.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s