O TREM VEM CHEGANDO; FICAR OU EMBARCAR?

O TREM VEM CHEGANDO; FICAR OU EMBARCAR?

Em muitos momentos de nossa vida, assim como o professor de Línguas, Raimundus Gregorius, do filme “Trem Noturno para Lisboa”, somos conduzidos a embarcar, sem aparente razão, no trem. Eu diria que somos verdadeiros “passageiros de algum trem” à procura de fincar raízes em alguma estação onde lá nos reconheçamos. Se vamos parar, desfazer as bagagens aqui ou ali ou se seguiremos a viagem, não sabemos; depende da poesia da vida. Mas, é bom nos apressarmos, pois o trem já está chegando, está chegando na estação.

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Há muito, Sócrates já preconizava a filosofia do “conhece-te a ti mesmo”, inspirada na inscrição da entrada do templo de Delfos. Em suma, o que o filósofo apregoava era a necessidade de volver os olhos para o cuidado com nós mesmos, com nossa morada interna, com o ato de nos autoconhecer. Ao longo de nossas vidas, portamo-nos um pouco como passageiros errantes, estamos sempre a embarcar e desembarcar em diferentes estações. Empreendemos viagens nas quais nos aventuramos a conhecer e admirar paisagens nunca antes vistas, explorar o novo e vivenciar situações inusitadas; contudo, quase não nos preocupamos ou nos parece imperceptível, a difícil e rotineira viagem que percorremos de nós em direção a nós mesmos. Talvez seja a aventura mais importante! Aquela onde se promove a auto-transcendência, aquela na qual segundo Sócrates, é possível conhecer a si mesmo no intuito de saber como mudar minha relação para comigo, com os outros e com o mundo que nos cerca.

Por vezes, sentimo-nos um tanto incomodados com a bagunça do quarto, com os quadros desalinhados, pendurados na sala, com a desordem do armário onde nem se dá para encontrar, ao certo, os objetos; mas relegamos a necessidade premente de organizar nossos sentimentos embaralhados, nossos conflitos internos. A desarmonia de nossa casa é só uma extensão, em alguns casos, de nossa alma desassossegada.

A fastigada busca por si mesmo verificada nos postulados socráticos, também já mereceu a atenção do punho de Drummond, em seu poema intitulado: “O homem; As viagens”. O poeta mineiro versa sobre a insaciável vontade humana de sempre se lançar a novas tentativas de colonização e exploração a fim de gerar riquezas materiais, esquecendo-se, porém, de um detalhe extremamente relevante- a sua incapacidade de se humanizar, de descobrir e compreender a si mesmo para tornar-se um melhor companheiro de viagem a outrem:

“(…) Ao acabarem todos Só resta ao homem (estará equipado?) A dificílima dangerosíssima viagem De si a si mesmo: Pôr o pé no chão Do seu coração Experimentar Colonizar Civilizar. Humanizar O homem Descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas A perene, insuspeitada alegria De con-viver.” (Drummond).

Quando nos lançamos ao desafio de “descobrir nossas próprias inexploradas entranhas” e, por conseguinte, entender o outro; corremos o risco perene de nos perder pelo itinerário para, ao fim da caminhada, encontrarmo-nos. Nessa viagem, faz-se imperativo embarcarmos sozinhos, feito passageiros solitários. Foi o que ocorreu ao personagem Raimundus Gregorius, do livro “Trem Noturno para Lisboa”, de autoria de Peter Bieri que usa o pseudônimo de Pascal Mercier.

Sinopse

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O filme “Trem Noturno para Lisboa”, baseado na obra supracitada, foi dirigido por Bille August e lançado em 2013. O longa discorre sobre a história de vida de um professor de línguas antigas, chamado Raimundus Gregorius. O professor de grego, latim e hebraico tinha uma vida confortável em Berna, na Suíça, contudo, sempre muito regrada e cheia de marasmo. Até que, de súbito, ao descobrir um livro, desiste de tudo e parte em um trem para Lisboa à procura do médico português e autor do misterioso livro, Amadeu de Prado. Na viagem até Lisboa e em busca do autor, ele conhece familiares e amigos de Amadeu, que o ajuda a descobrir mais sobre a vida do já falecido médico e escritor. O espectador, em vários trechos do filme, é conduzido a ler “Um ourives das palavras”, o tal livro que revolucionou o rumo de Mundus, e a conhecer melhor o mundo fascinante do jovem português, que além de escritor e médico, combateu a ditadura de seu país, assolado por Salazar.

A narrativa introspectiva

Por que “diabos” um professor de línguas, renomado, deixaria a sua zona de conforto, constituída de seu trabalho, sua rotina, sua família, para aventurar-se em um país desconhecido, com outro idioma? A reflexão filosófica e introspectiva a que o drama, baseado no livro de igual nome, nos desperta, possibilita-nos a enxergar a explicação para tanto. Se é verdade que procuramos no outro, o que nos falta; Raimundus Gregorius que apesar de, aos olhos daqueles que o cercavam, aparentemente ter uma vida bem-sucedida e feliz, no seu íntimo, ele sentia um vazio tedioso que lhe cortava a carne, uma rotina que lhe aprisionava. Ele precisava quebrar os grilhões. E fora por meio da história de Amadeu Prado que Mundus mergulhou na compreensão sobre seu eu interior, atentando para a necessidade de dar um novo rumo aos seus propósitos. De embarcar na próxima estação. Somente através da leitura do livro “Um ourives das palavras”, escrito por Amadeu, o professor de línguas foi capaz de interiorizar o olhar para dentro de si. Fato que destaca o potencial da literatura em resgatar as pessoas de suas sentenças, em abrir horizontes. Ainda que tenhamos uma vida monótona, ainda que estejamos cansados de ser o que somos, o universo mágico da literatura possibilitá-nos fugir de nossas fustigadas existências e passarmos a ser o que quisermos.

Quando Mundus, entra de forma obstinada, mas meio confuso, naquele trem em direção à Lisboa; ele não só está se propondo a explorar novas terras, ele está fazendo uma viagem de autoconhecimento, que lhe permite conhecer as suas próprias profundezas.

A metáfora do trem

Em muitos momentos de nossa vida, assim como o professor de Línguas, Raimundus Gregorius, somos conduzidos a embarcar, sem aparente razão, no trem. Eu diria que somos verdadeiros “passageiros de algum trem” à procura de fincar raízes em alguma estação onde lá nos reconheçamos. Se vamos parar, desfazer as bagagens aqui ou ali ou se seguiremos a viagem, não sabemos; depende da poesia da vida. Mas, é bom nos apressarmos, pois o trem já está chegando, está chegando na estação:

Trem das sete “Ó, é o trem, não precisa passagem nem mesmo bagagem no trem. Quem vai chorar, quem vai sorrir ? Quem vai ficar, quem vai partir ?” (Raul Seixas).

 

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