Literatura

LER PARA NÃO ESCREVER OS PONTOS CARDEAIS

LER PARA NÃO ESCREVER OS PONTOS CARDEAIS

A tradição da narrativa de viagem tem honrosos adeptos na literatura brasileira. Com um olhar do estrangeiro, tornaram-se clássicas as crônicas que Fernando Sabino envia de Nova York e os diários de viagem de Érico Veríssimo.

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Um modelo é o retrato que Claudio Magris, em Microcosmos, fez de Trieste, misto de ensaio e crônica memorialística. O tratamento ficcional das cidades da perspectiva do viajante, no entanto, é mais raro. Um livro a ser lembrado é Berkeley em Bellagio de João Gilberto Noll – novela das dificuldades de comunicação e de uma crise. Há uma demanda por narrativas que oferecem a visão de um viajante ou narrador real (pensar em César Aira, Um acontecimento na vida do pintor viajante). Mas o melhor é não escrever.

Eu chamaria de Os pontos cardeais e o teria escrito a partir das viagens que o narrador realiza em busca de um pré-colapso. E se escrevesse sobre o mundo antes do fim, como diria no início do relato? Ele revisita os lugares em que esteve eufórico para entender o que fundamentou sua decisão de viver em derrumbe. Para comparar as primeiras viagens, acompanhado, com o retorno aos lugares visitados e o reencontro com algumas personagens. Uma visita ao café em que se encontravam Jorge Luis Borges e Bioy Casares pode revelar um aspecto de Buenos Aires e restituir fragmentos de uma história alheia.

A geografia cênica é constantemente reconstruída pela memória dos lugares onde esteve; com quem esteve; o que fez. Memória e geografia estão assim enredadas dentro do conflito. Esse momento de crise deve ser entendido como uma metáfora de deslocamento, do que é provisório e fragmentário: a condição do viajante. Importa saber se é possível o retorno a um antes. Antes do quê? Antes do derrumbe – responde o protagonista. A cenografia das cidades se refaz indiferente.

Na primeira parte do livro há uma história de amor sendo recontada. A reminiscência prepara para a primeira libertação – ele não é mais os lugares pelos quais passou acompanhado. Descobre o que pode ser uma segunda ingenuidade do olhar, embora permaneça sempre nos limites dessa utopia: não pode esquecer o que viveu e quem foi, mas deve se permitir tornar-se aquilo que deseja ser. O que você deseja ser? – pergunta uma personagem. O narrador desce as escadas do Museu da Inconfidência e escreve um nome na estátua de Aleijadinho.

O narrador dramatiza a ideia de oposição entre o ato de viajar e o auto-questionamento que o imobiliza. Ideia que compreendemos a partir da leitura que Enrique Vila-Matas faz do poema de Fernando Pessoa – “Viajar! Perder países”. Na voz de um personagem do catalão, viajar também é sobre perder teorias: “Viajo para conhecer minha geografia”. Vila-Matas elaborou uma teoria feita de cinco pontos: intertextualidade, conexões com a alta poesia, consciência de uma paisagem natural em ruínas, ligeira superioridade do estilo sobre a trama e escrita vista como relógio que avança. Dois desses pontos são importados para o relato: a intertextualidade na forma de citações e referências literárias; e a consciência de uma paisagem natural em ruínas, ou seja, o quanto são provisórias as imagens que a memória fixa, e como elas são reconstruídas.

Em O homem sentimental, Javier Marías formulou a tese de que o amor é em grande medida sua antecipação (quando ainda não existe) e sua recordação (quando não existe mais). É um sentimento que possui caráter ficcional e depende em grande medida da imaginação. Um fio condutor é a sua consequência: a natureza desse sentimento é estar em conflito com o tempo presente. Existirá um amadurecimento afetivo através do esquecimento gradual do passado e de seus limites? Então o protagonista resultaria em um personagem verossímil em suas contradições. A narrativa ofereceria ao leitor uma identificação com esse viajante interior. Mas esse livro não pode ser escrito. A condição para escrevê-lo é ter um lugar para voltar: não empreende busca pelo sentido quem não tem uma ideia de lar.

Cafe_Tortoni_Peluqueria.jpgÉ a ideia de lar que está presente nos dois ensaios e uma memória publicados na última edição da revista Serrote (22). Robeson em Manhattan é parte das memórias de Joseph Mitchell. Não é bem um lar que Mitchell tenta recuperar, mas todo um ethos da natureza de sua infância: animais, árvores, frutas, leitos de rio. São elementos que formam uma residência e retornam para um lugar onde são transformados em histórias (ou geleias e tortas). A busca da memória infantil é a mais impiedosa, algo não está lá. O estilo é a maior homenagem que se faz a ela.

Em Depois de uma viagem ou Homenagem às vértebras, relato de uma visita ao Rio de janeiro, Joseph Brodsky guarda sua lembrança da cidade abstrata cuja arquitetura ele deplora. Não importa, definitivamente não importa onde ele está. Apenas essas palavras sobre o motivo e, talvez, a utilidade de viajar: “a essência de todas as minhas viagens (ou melhor, o efeito colateral que se torna a essência delas) está em, ao voltar para cá, para a rua Morton, elaborar cada vez mais minuciosamente o novo sentido investido em minha ideia de ‘lar'”.

Em À procura de Pavese, Alejandro Zambra tenta encontrar seu entusiamo literário com o autor de A lua e as fogueiras. É complicado, embora não seja uma busca impiedosa. É maçante perder-se nos cenários alheios. Retrato feito com alguma crueldade (e talvez com alguma justiça), em Santo Stefano Belbo o escritor não encontra seu modelo. Decide procurar no livro, em sua própria releitura. E transcreve as palavras de Cesare Pavese: “É necessário ter uma aldeia, nem que seja apenas pelo prazer de abandoná-la (…). Uma aldeia significa não estar sozinho, saber que nas pessoas, nas plantas, na terra há alguma coisa de nós, que, mesmo quando não se está presente, continua a nossa espera”.

Há formas de voltar para casa? Há, se você escrevê-la.

 

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