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APRENDER A SE AMAR DÓI

APRENDER A SE AMAR DÓI

Empoderamento é lindo, mas não é fácil.

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Vivemos em um período histórico lindo, numa época maravilhosa pra todos que são minorias e sofreram muito, durante muito tempo, duras opressões (que se manifestam, muitas vezes, em sua forma mais dolorosa, através de ações e palavras muito sutis), pois temos maior acesso à informação, maior potencialidade de conhecer muitos que viveram dramas muito parecidos com o nosso e fazer uma corrente de apoio, força e poder em nome da desconstrução de velhos modelos de valor, antigas práticas machistas, racistas, homofóbicas e classistas para dar lugar à construção de um mundo verdadeiramente mais igualitário.

Muitos de nós, que nos envolvemos com as lutas, repensamos diariamente nossas falas, preferências, posições e até mesmo afetos. Precisamos desse pensar minucioso, dessa análise mais aferrada, dessa revisão de nossas próprias estruturas. Quando somos parte de uma das minorias em evidência falamos muito do nosso próprio empoderamento, de amar-nos da maneira como somos e de empoderar mais gente ao nosso redor.

O que pouco se fala é que, depois de ter sido criada num mundo onde não se falava nada dessas coisas, um mundo em que os padrões eurocêntricos eram ainda muito mais dominantes, etc, a pessoa cria dentro de si estruturas muito fortes, amarras pesadíssimas, que as vezes bloqueiam essa auto aceitação num nível mais profundo. As vezes por mais que a pessoa repita mimeticamente que é empoderada, e mesmo que aja como tal, aquelas estruturas emocionais criadas por esse ambiente cultural hostil ao seu tipo de pessoa, vira e mexe, a faz ter um retorno às velhas crises de identidade causadas pelo ódio a si mesma aprendido nesses anos tantos de opressão.

Se o auto ódio, antes do início da desconstrução e empoderamento já era muitíssimo doloroso, odiar-se agora dói ainda mais. Dói com o peso de sentir-se uma farsa, de sentir-se como um hipócrita, pois não vive o que prega, dói com o fardo de sentir-se alguém que não se livrou completamente dos pensamentos que as estruturas sociais opressoras colocaram na nossa cabeça. O ser pode sentir-se um fracassado na vida e na luta.

É um caminho árduo, pois uma vez que se inicia esse processo de desconstrução, todas as suas relações tornam-se alvo de constante problematização, o coração torna-se mais defensivo, e a cabeça funciona à todo vapor em busca de analisar os comportamentos alheios. As frustrações são diversas, imensas e arrebatadoras, pois nos colocam diante de um penhasco onde a vida faz pouco sentido, já que pra tudo quanto é lugar onde olhamos vemos a reprodução de diversas formas de opressão, em um nível ou em outro.

Tudo isso aliado á fugacidade das relações na era digital, ao declínio da noção de pertencimento gerado pela globalização, à constante negação da importância do fomento à espiritualidade (ligado a todo pensamento racionalista que rege os pilares da civilização ocidental) e ao culto à derrota e ao sofrimento compartilhado como memes “engraçados” aos milhões nas redes sociais, são a receita certa para a vida parecer cada vez mais um emaranhado de acontecimentos onde o sentimento de vazio só cresce, e o amor próprio torna-se apenas uma falácia de discursos bêbados. Aprender a se amar e orgulhar-se de si mesmo parece uma utopia que jamais será realizada para muito além de níveis bastante duvidosos de profundidade.

Ué, mas e os tempos maravilhosos lá do começo do texto?

Reafirmo: São sim tempos MARAVILHOSOS! Temos todo potencial de construir novos pilares de pensamento, novas formas de ver o mundo, os outros, nós mesmos e de interpretar a vida. É por isso que precisamos tirar da sombra essas dores que vivemos nesse processo árduo de mudança de pensamento e posicionamento no mundo, principalmente em relação a si mesmo, mais ainda se você é parte de uma minoria.

Esse é um texto para dizer: abra seu coração, acalme sua mente e tente se perdoar. Se preciso for, faça isso em voz alta num dia em que as perturbações estiverem lhe tirando demais a paz. Use o empoderamento também como forma de abrir-se ao amor e à compaixão, à troca em profundidade. Pare de se armar tanto, cuidado com teu ego. Eu estou longe de ser um ser iluminado espiritualmente, acima da manada, também preciso MUITO me lembrar disso o tempo todo, e uma das formas de fazer isso é escrever esse texto para você.

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Empoderamento é, muito mais que uma resignificação cultural no tocante à parte visível das coisas, uma maneira nova de ver e experimentar o mundo, é um passo de espiritualidade dado ao reconhecer nosso coração machucado, perdoa-lo por todas as coisas terríveis que já cometeu devido sua dor, e então buscar formas para cura-lo.

Precisamos de tempo para a nossa auto cura, e isso não é egoísta. Ao contrário, melhorar a qualidade das emoções, sentimentos e pensamentos que cultivamos dentro de nós, eleva também a qualidade das nossas relações com nós mesmos e com o mundo ao redor, fazendo crescer também, consequentemente, a assertividade da contribuição que trazemos para aquilo em que nos engajamos.

Precisamos buscar, uns nos outros, apoio significativo, em profundidade, não apenas reforço quantitativo nos elogios de rolê, ou nas curtidas que recebemos em nossas fotos e publicações nas redes sociais. Devemos aprender a ser ouvintes sinceros, a nos abrir com sinceridade para aqueles que partilham conosco as lutas e as angústias, e lembrar que esse não é um caminho fácil para o psicológico de ninguém.

Como seres viventes temos a necessidade de amor e de afeto manifestados de forma muito menos tacanha do que o que vivenciamos na atualidade. É preciso ter paciência consigo mesmo, quando, por causa de um vento que bateu atravessado, uma noite mal dormida ou uma confusão dos sentidos, você tiver uma recaída. Lembre-se: Você é só um ser humano, não uma maquina capaz de carregar nos ombros e resolver de uma vez todos os problemas do mundo.

Tente não criar dispositivos que te façam ficar eternamente na defensiva, para aprender a olhar o processo que você e o outro estão passando, para que não se guarde nenhuma mágoa, ofensa ou raiva, porque todos esses sentimentos cegam e inebriam o ser, e qualquer ação feita sob a loucura dessas sensações dificilmente retornará a seu favor. Guardar e alimentar esses sentimentos é retirar de você o seu potencial máximo de transformação. É preciso ter olhar, ter cuidado, aprender do que você mesmo é feito e do que você precisa como um ser inteiro, dotado de aparato emocional e espiritual, e não somente de necessidades materiais.

Busque saber bem o que te irrita, e em seguida, busque aprender com o que e com aquilo que te irrita. Tente desenvolver a capacidade de se irritar menos, de absorver menos aquilo que não é necessário para o seu empoderamento. Procure ter a visão nítida para que nos momentos onde você está cercado de coisas que te gratificam e satisfazem, seu coração não esteja sugado e encharcado de sensações e sentimentos passados que te magoaram e você possa extrair o máximo de bem estar dessas experiências que alimentam o coração.

Procure aprender a fazer esse processo no teu ser para que você saiba absorver em plenitude cada segundo das experiências benéficas que desenvolvam a gratidão. A gratidão cria um escudo para sobrevivermos bem a todos aqueles momentos que não são tão benéficos assim. Busque praticar a gratidão em qualquer circunstância. Gratidão pelos avanços do nosso momento histórico, por quem lutou no passado, pela memória e resistência que vive em nós, pelos nossos corpos, pela nossa arte, nossas relações, afetos, criações e vozes, por todos que tocamos e pelos quais somos tocados. Gratidão pela Terra e por tudo que ela nos fornece. Pelo alimento, a vestimenta, o lugar onde repousamos, pela nossa família (seja lá quem for que consideremos família), pelo solo fértil, pela água potável, pelo ar puro, pelo sol, e enfim, pela possibilidade de existir e experimentar todas essas coisas.

Que busquemos aprender a ficar menos na defensiva e a ouvir mais nossa intuição. Que procuremos a importância de cultivar e cultuar a espiritualidade (da forma que lhe for mais agradável) na mesma medida (ou ainda maior) em que cultivamos e cultuamos a mente e o corpo. Há como andar de mãos dadas com a espiritualidade, mesmo na linha de combate, pois ela dá ainda mais sentido à tudo isso.

Veja se consegue descobrir formas para não perder-se em uma busca infinita por algo que já existe dentro de você e que talvez sua mente esteja muito perturbada e seu coração muito magoado para que você perceba.

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Tenha calma, viva um dia após o outro, busque não se cegar pela raiva. Aprenda a conversar consigo mesmo e reconhecer que, mesmo que você esteja nesse processo de empoderamento, mudança e busca de melhorias, as vezes você se exalta, e isso é normal porque ninguém é perfeito, porém, você se perdoa e prossegue nessa busca do bem maior que você quer pra si e pro mundo que te cerca, reconhecendo que na cegueira da raiva e da mágoa esse bem fica impossibilitado de se edificar.

Sempre que notar alguém falhando, seja sutil ao corrigir, e lembre-se que você também já falhou, inúmeras vezes, que continua falhando, e ainda vai falhar, mas que você se deu uma segunda chance, porque sabia do seu processo e sabia que merecia ser perdoado. Talvez você não saiba do processo do outro, mas se ele falha tanto, talvez seja porque ele está com muitas feridas infeccionadas, talvez até mais que você, e por isso magoa e fere os que estão ao seu redor dessa forma. Compaixão é a melhor resposta para os casos onde os outros reproduzem aquilo que você repudia, pois a outra alternativa é trocar na mesma moeda de raiva e ignorância.

Lembre-se que ninguém gosta sentir raiva e de viver no medo constante daquilo que é diferente (gerado pela ignorância), que ninguém escolhe viver e ser criado para agir assim, e que por isso, mais medo e mais ódio só pioram as coisas. Lembre-se do processo e lembre-se de ser paciente consigo mesmo e paciente para com os outros, de se perdoar e perdoar os outros e de fazer tudo isso para que você esteja sempre suficientemente bem para lutar por aquilo que considera justo.

Ninguém é perfeito, somos todos humanos e precisamos de boas doses de compaixão e paciência para continuar perseverando nas continuidades e descontinuidades da existência, tanto individual quanto coletiva. É preciso aprender a deixar a vida seguir apesar das contradições, a reconhecer que se amar de verdade é uma tarefa realmente árdua nesse mundo, e que como tudo, requer tempo e paciência. É um processo longo, mas pouco tedioso pois está sempre aberto às novas possibilidades de, aos poucos, abrir-se e permitir-se amar um pouquinho mais. Basta estar consciente para perceber e de peito aberto para abraçar as oportunidades de ver que o amor, o perdão e a compaixão podem também ser um caminho.

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