Literatura

FOUCAULT E AS RELAÇÕES ENTRE SABER E PODER

FOUCAULT E AS RELAÇÕES ENTRE SABER E PODER

No livro “Vigiar e Punir”, o filósofo francês Foucault faz apontamentos sobre como conhecimento e poder estão intimamente ligados, e apresenta o conceito de panóptico como exemplo para sua dissertação.

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Paul-Michel Foucault nasceu em 15 de outubro de 1926 em Poitiers, cidade localizada 300 quilômetros ao sul de Paris. Sua família era de burgueses ricos. O pai foi um cirurgião bem-sucedido; a mãe, uma dona de casa determinada a administrar as finanças do marido.

Durante a infância, Foucault morou com a irmã mais velha e o irmão caçula em uma casa luxuosa e espaçosa, a qual oferecia plena capacidade para muito mais do que cinco pessoas morassem ali.

Na escola, diziam que Foucault era frágil e míope. Seus amigos zombavam de sua constituição corcunda e de seu jeito “estranho” de ser. Embora Foucault fosse notavelmente brilhante, ele nunca se destacou nos estudos. Sabe-se que sua matéria predileta era história, a única pela qual ele se interessava e dedicava.

Foucault costumava dizer que o passado estava vivo no presente. Na realidade, a história não estava registrando a verdade do passado, mas revelando a verdade do presente. Assim era a orientação do pensamento de Foucault.

Ao longo de suas experiências na escola, Foucault foi percebendo que, de fato, era gay. Isso não apenas era ilegal naquela época, mas impensável. Por esses e outros motivos, ele começou a ter sérias desavenças com seu pai.

Naquela época, com 15 anos de idade, o jovem Foucault passava por diversas crises de identidade. Como relata Paul Strathern no livro Foucault em 90 Minutos (2003):

“Por temperamento, Foucault era avesso a ficar muito tempo na sombra de alguém. Não só tinha ambição, mas também obstinação por se tornar independente, embora seu impulso reativo muitas vezes deixasse suas ideias para trás.”

O francês passou pela fase de puberdade com alguma dificuldade. Na adolescência, Foucault vivia perturbado. Sofria de delírios persecutórios e, em mais de uma oportunidade, tentou o suicídio. Em certas ocasiões, desaparecia por noites a fio, entrando em colapso, pálido e com olheiras profundas, para depois retornar de manhã, deprimido, ao seu quarto. É sabido que, em suas jornadas noturnas, Foucault procurava por aventuras sexuais, inclusive, ele passou a se envolver em práticas sadomasoquistas com frequência.

Na época de escola, Foucault ainda era incapaz de se aceitar e viver consigo mesmo, e nenhum dos estudantes em seu dormitório queria conviver com ele. Viam-no como louco e instável. Deveras agressivo na forma de falar, Foucault argumentava e defendia suas ideias sempre na base da violência, talvez motivado por uma necessidade de reafirmar a validez de seus próprios pensamentos.

Logo ele passou a desenvolver doenças psicossomáticas e distúrbios psiquiátricos. Chegou a ficar dois anos internado em um manicômio e, solitário naquele lugar, passava o tempo imerso em introspecções filosóficas.

Ao retornar à sociedade, ele começou a ler Hegel, filósofo alemão do século XIX, e depois progrediu para Heidegger, pensador que exerceu a maior influência sobre ele. Segundo o próprio Foucault:

“Todo o meu desenvolvimento filosófico foi determinado por minhas leituras de Heidegger.”

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Em agosto de 1955, Foucault ingressou em uma faculdade na Suécia, e lá encontrou uma certa paz, já com seus 30 e poucos anos de idade. Nos anos seguintes, ele estudou filosofia e psicologia, tendo se especializado nesta última, tornando-se professor, profissão que exerceu por um considerado período.

Munido financeiramente de pequenos salários conquistados e principalmente da gorda herança do pai (que morrera mais ou menos nesta época), Foucault foi morar, sozinho, num apartamento grande e ricamente mobiliado. Comprou um Jaguar. Saia com seu carro à procura de homens. Continuou a beber de forma compulsiva. No entanto, essa rotina começou a perder a graça. Foucault logo percebeu que a liberdade pode ser tão repressora quanto à repressão direta.

Aos 33 anos de idade, Foucault retornou à Paris, e foi daí em diante que começou a escrever seus livros mais famosos, como, por exemplo, A História da Loucura, As Palavras e as Coisas: Uma Arqueologia das Ciências Humanas, e Vigiar e Punir. Esta última obra será o tema da discussão a seguir, sobre as relações entre saber e poder, e o conceito de “panóptico”.

Foucault e as relações entre saber e poder

Foucault interessava-se, acima de tudo, pelo sujeito, suas verdades e relações entre o saber e o poder. No livro Vigiar e Punir, Foucault argumenta que conhecimento e poder estão tão intrinsecamente ligados que, no final, acabam sendo a mesma coisa.

Suas investigações levaram a abordagens inovadoras sobre o tema. Foucault analisou, em especial, os processos disciplinares adotados em instituições sociais, como escolas, prisões, fábricas, quartéis e hospícios, por exemplo, e identificou como elas controlavam aqueles que eram levados a estes lugares por meio de imposições de padrões ditos normais de conduta.

Foucault tinha uma noção de homem não como sujeito (que transforma o ambiente em que vive), mas como objeto (que é controlado pelas instituições de poder).

Por mais que escolas, hospitais, prisões, fábricas, quartéis e hospícios visassem proteger os cidadãos, de certa forma, também os controlavam através de um mecanismo de vigilância e punição. Foucault chamou esses mecanismos de “tecnologias políticas”, as quais administravam o tempo e espaço das pessoas, e que tinham como elemento unificador a hierarquia. Nesse sentido, Foucault abordou que, numa sociedade, existem certas “instituições de sequestro”, onde os indivíduos são retirados de seu meio social e internados durante um longo período para moldar sua conduta e disciplinar suas ações.

Segundo o filósofo, a disciplina seria um instrumento de dominação e controle dedicado a excluir ou domesticar comportamentos divergentes.

O poder não é uma capacidade natural dos indivíduos, acreditava Foucault, mas algo que recebemos em determinado momento. Para ele, o poder era “enigmático, ao mesmo tempo visível e invisível, investido por toda a parte”.

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Para melhor entender as relações entre saber e poder, é preciso considerar o conceito de Foucault sobre liberdade. Para ele, a liberdade é como uma arma de proteção. Arma porque constitui um instrumento natural de luta, e proteção, porque ninguém pode manipular a liberdade de ninguém. É estranha a liberdade como arma de proteção, já que a mentalidade do senso comum é de que o poder mina o potencial de liberdade. Bem, Foucault acreditava que as pessoas não têm total consciência do potencial de sua liberdade e, por isso, elas se “desviam” de seu curso natural e, assim, acabam facilmente manipuladas pelo poder.

Para o francês, é possível lutar contra a dominação representada por certos padrões de pensamento e comportamento, só não se pode, enfim, ser imune e escapar completamente das relações de poder.

“O fato é que toda relação humana é, a um certo grau, uma relação de poder. Nós evoluímos em um mundo de relações estratégicas perpétuas.”

Panóptico

Em Vigiar e Punir, Foucault cita o conceito de “panóptico”, uma expressão originalmente criada pelo filósofo e jurista inglês Jeremy Benthan.

A ideia de panóptico é representada visualmente por um modelo de prisão com estrutura circular, e uma plataforma de observação erguida no meio. Isso possibilita que um observador central, no papel de autoridade, espione as celas situadas abaixo, ao redor do prédio. Os prisioneiros contidos nas celas são “vistos sem ver”. Dessa forma, os prisioneiros assumem um sentimento constante de incerteza, que acarreta, cedo ou tarde, em paranoia e auto-vigilância. Segundo Foucault:

“O panóptico organiza unidades espaciais que permitem ver sem parar e reconhecer imediatamente. A plena luz e o olhar de um vigia captam melhor que a sombra, que finalmente protegia. A visibilidade é uma armadilha.”

No panóptico, um poder onipresente e onisciente é capaz de subjugar cada pessoa de acordo com o que lhe é apropriado. É como se fosse um processo de adestramento.

“O panóptico é um zoológico real, com o animal sendo substituído pelo homem.”

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Esta ideia de panóptico propagada primeiro por Bentham, e depois por Foucault, é, na verdade, uma imagem arquetípica de nossa sociedade. O ser humano moderno é criado, sem dúvida, para seguir regras, normas e regulamentos. Muitas vezes, é criado em reação a tudo isso. Como diz Foucault, “toda forma de saber produz poder”.

Aplicando a ideia do panóptico à sociedade moderna, vemos que indivíduos são selecionados e categorizados rigorosamente por instituições sociais – sejam prisões, escolas, quartéis ou hospícios -, não no sentido de valorizar particularidades que caracterizam cada um, mas sim para melhor controlá-los. O saber/poder conduz tanto a um maior entendimento quanto a um controle maior. É o que quis dizer Foucault em Vigiar e Punir.

Embora Foucault apresente uma concepção negativa de poder, algumas pessoas interpretam que ele quis, na verdade, mostrar o outro lado da moeda. Assim sendo, poder não é apenas uma forma de coerção, mas também constitui uma força necessária, produtiva e positiva na sociedade.

A disciplina pode muitas vezes ser coercitiva, mas, sem ela, não haveria como conviver harmonicamente em sociedade, visto que cada um agiria individualmente conforme a própria verdade, logo, o caos e a desorganização se instaurariam.

“Qualquer relação de poder não é má em si mesma, mas isto é um fato que sempre comporta perigos.”

 

Referências bibliográficas:

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: Nascimento da Prisão. Vozes (2009).

STRATHERN, Paul. Foucault em 90 Minutos. Jorge Zahar (2003).

 

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