SINAL FECHADO: SOBRE AMORES PERDIDOS E REENCONTROS

SINAL FECHADO: SOBRE AMORES PERDIDOS E REENCONTROS

Conto de Mônica Montone inspirado na música homônima de Paulinho da Viola. Sobre amores perdidos e reencontros.

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– Olá! Como vai?

– Eu vou indo. E você, tudo bem?

– Tudo bem! Eu vou indo, correndo pegar meu lugar no futuro… E você?

– Tudo bem! Eu vou indo, em busca de um sono tranquilo… Quem sabe?

– Quanto tempo!

– Pois é, quanto tempo!*

Luiza apertou o passo e seguiu o garçom atrás de uma taça de champanhe ou algum rosto conhecido que pudesse lembrá-la do que ela não podia esquecer. Esfregou as mãos suadas na taça numa tentativa inútil de fingir para si mesma que a umidade das mãos era decorrente da bebida gelada.

Suzana a puxou pelo braço, e disse:

– Viu quem está aí? Ele não tira os olhos de você!

– Quem?

– Como quem, o Cássio.

– Ah… O Cássio – não conseguiu disfarçar o desapontamento.

– Não entendo você! O Cássio é o homem mais disputado do pedaço, as mulheres se matam por ele. E aquela barbinha? Adoro um barbudinho. Você devia dar uma chance para ele! E hoje ele está de matar com essa camisa azul marinho…

– O Cássio é um tédio, Suzana.

– Como assim?

– Um tédio. Nunca conheci homem mais entediante que ele. É devagar, não acompanha as piadas, sabe? Sem falar que é de uma polidez irritante.

– Ele é apenas tímido.

– Nada disso, já saí com homens tímidos e em geral eles têm um humor ácido mais saboroso que molho de mostarda com mel e limão.

– Criatura, você não precisa casar com ele, é só para se divertir, se é que me entende.

– Não consigo me divertir com homens desse tipo. Vou fumar, quer ir?

– Não, preciso falar com uma pessoa que acaba de chegar, vai lá…

Luiza pegou uma taça nova de champanhe, deu um gole e olhou para Cássio com um pouco mais de atenção. Ele de fato era muito bonito e as mulheres realmente ficavam em volta dele como moscas em roscas de padaria. Subiu três lances de escada e chegou ao terraço do prédio, único lugar reservado para fumantes na galeria onde acontecia a vernissage de um figurão das artes plásticas.

– Eu ouvi sua conversa com a Suzana.

As mãos de Luiza voltaram a ficar úmidas. Apertou a taça com força. Teve medo de virar-se e confirmar que não se tratava de uma alucinação, que não se tratava, apenas, de mais um reencontro imaginado por ela. Virou-se. Miguel estava de costas para a única luz de emergência que fora acesa no local em função da ocasião. Ele podia vê-la por completo, mas ela enxergava apenas sua silhueta. Ele podia ler seus olhos, ela não tinha o mesmo privilégio. Mais uma vez a história se repetia: ela estava em desvantagem.

– Posso te perguntar uma coisa?

– Por supuesto!

– O que você viu em mim? Digo… Naquela época…

Depois de uma longa tragada no cigarro, Luiza bebeu um gole de sua taça de champanhe, e, enfim, respondeu:

– À primeira vista, vi um nariz arrogante e um jeito firme de caminhar. Tragadas profundas e ansiosas num cigarro. Depois, eloquência.

– Eloquência?

– Sim, eloquência. São poucas as pessoas que falam com eloquência.

Miguel riu e colocou as mãos no bolso.

– Depois vi mãos inquietas e um relógio clássico no pulso. Vi um medo tremendo de errar na velocidade dos olhos, acompanhado de uma coragem conquistada com bastante esforço. Vi um grande homem preso num corpo pequeno, um homem que só tem consciência do tamanho que tem quando fala das coisas em que acredita e aprendeu.

Os olhos de Miguel ficaram baços, mas Luiza não viu.

– Ah, e os cabelos…

Deu a última tragada no cigarro, jogou a bituca no cinzeiro improvisado que estava ao lado, bebeu mais um gole de champanhe e concluiu:

– Mas estes eu não saberia descrever.

Virou-se e abriu a porta para descer as escadas.

– E depois?

– Depois o quê, Miguel? O que você está querendo saber exatamente?

– Depois de à primeira vista?

– Depois de à primeira vista a gente não vê mais nada! É só um clarão… Depois é possível, apenas… Sentir…

Quando estava saindo da galeria, Cássio ofereceu uma carona. Ela aceitou.

* introdução da música “Sinal Fechado”, Paulinho da Viola

 

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