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EMOCIONAL E/OU RACIONAL

EMOCIONAL E/OU RACIONAL

Não abriria mão das emoções, são o pulsar da pele que nos faz sentir vivos. Nunca abdicaria da racionalidade, são a mais nobre sublimação das emoções.

Num simples exercício de reflexão sobre um mito urbano, que com elevada segurança corta a humanidade em duas fatias, emocionais e racionais, é surpreendente observar a ingratidão que devemos ao nosso intelecto, quando desprezamos toda a densidade cerebral que cada um de nós carrega. À excepção das psicopatias clínicas, nenhum ser humano é inteiramente racional ou emocional, é antes, um inesgotável repositório de experiências, sensações e conhecimento adquirido. O auto-conhecimento é um exercício fascinante, precisamente porque permite desmistificar as “inverdades” clássicas de um pensamento preguiçoso, e em primeira mão, representa o selo de garantia da nossa verdade.

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Esta é uma linha de pensamento tão linear e óbvia, que nenhuma peneira social deveria ter a capacidade de ocultar. As emoções alimentam-se de estímulos, a racionalidade, de conhecimento. As emoções, são básicas, puras em si próprias e escassas. As emoções primárias, são universais e, estão directamente ligadas ao nosso instinto de sobrevivência, como sejam a alegria, tristeza, medo, nojo, raiva e surpresa. Caracterizam-se por terem expressão física associada (impulso imediato), e serem curtas no tempo. Existem ainda emoções secundárias, resultantes do meio social onde nos inserimos, como sejam, a culpa, a vergonha, a gratidão, a simpatia, a compaixão, o orgulho, a inveja, o desprezo, etc.

Das teorias somáticas às neurobiológicas, e sabendo que um ser humano é uma máquina de variáveis identificáveis (sublinho identificáveis, excluindo desde já uma análise qualitativa da mesmas), tendo a focar-me nas teorias neurobiológicas. São factuais, baseadas no conhecimento do mapa neural humano e isentas da reflexão intelectualizada. Comunica-nos a neurobiologia que as emoções desencadeiam-se por meio da libertação no sangue de substâncias químicas que regulam o nível de actividade cerebral, através de movimentos corporais visíveis, gestos ou posturas. É através dos neurotransmissores que esta informação chega aos neurónios. De importância fulcral na manifestação de emoções, os neurotransmissores, como a acetilcolina, a dopamina, a noradrenalina, a serotonina, a endorfina, são responsáveis pela intensidade manifestada no curto período em que ocorre “a emoção”. Reduzindo o tema a uma linguagem puramente intelectualizada, as emoções formam-se a partir do fenómeno físico que ocorre entre o contacto de um neurotransmissor com os neurónios. Não querendo adensar o tema, seria possível ainda analisar se a emoção em si, é o resultado do mecanismo físico (acção concreta resultante), ou o mecanismo físico em si?

Nesta última matéria não existem dados adquiridos e tudo é questionável. Muito embora a sensibilidade não permita a entrada em campo da racionalidade, é fácil perceber que o nosso registo emocional, é alvo de intelectualizações contínuas e sucessivas, com forte influência ancestral, onde os registos são transmitidos de geração para geração. A ausência de auto-análise, conduz-nos ao padrão tácito da nossa realidade social: A humanidade cortada em duas metades – emocionais e racionais. Os primeiros entregam-se de corpo e alma a todas as suas paixões, e os segundos planeiam todos os seus passos milimetricamente. Daqui às mais absurdas teorias da conspiração vai uma distancia mínima. Porque nos convém? Porque aceitamos a nossa mediocridade cerebral? Nunca saberei…O tema vai mais longe e ganha raízes, a partir do momento em que os comportamentos se baseiam em realidades consideradas inquestionáveis.

Olhando em volta, e sem ir mais longe do que o nosso círculo relacional, quando uma pessoa se apresenta como emocional, apresenta um padrão de fundo tipificado: alimenta-se de estímulos exteriores. Há uma dose de ilusionismo e fantasia nestes seres, há o condão da paixão, da ilusão, do frenesim urgente, mas tudo é curto e escasso no tempo, e orienta-se no sentido da satisfação neural individual, é o fado dos emocionais. O ser que decidiu escravizar-se às emoções, repousará sempre perto dos estímulos que lhe provocam maior intensidade neural. Estes seres não têm capacidade para se manterem de forma duradoura em qualquer situação, a não ser que tal lhe permita ingerir a sua dose diária de estímulos. Quando se cruzarem com um ser que se apresenta como emocional, respirem fundo, sintam-se encantados com o seu perfume intenso, mas tenham presente que é um vento passageiro, apenas porque absorveu um estímulo positivo. Desiludam-se se acham que um ser emocional se prende a alguma coisa, nunca se prenderá, é naturalmente egocêntrico, no momento em que forem estimuladas as emoções negativas, terá uma atitude emotiva de fuga. Porque faz parte deste ser, viver as emoções em pleno, sejam positivas ou negativas. Desconhecem que possuem em si ferramentas racionais para sublimar as emoções, apenas querem sentir o desencadeamento hormonal que lhes provocam as emoções, e se possível vivenciá-las nos seus picos de auge. Quando são felizes toda a gente sabe, quando não o são toda a gente o sabe também. Não existe auto-suficiência, existe sempre a necessidade recorrente do estímulo exterior para repor os seus níveis emocionais. Não sabem desenvolver emoções, focam-se fora de si, e nunca dentro de si, dão-se em várias doses intensamente, e na maior parte dos casos de forma inconsequente e irresponsável sobre terceiros, com tudo de bom e mau que isso acarreta. Tal intensidade permite-lhes atingir picos de beleza extrema, conferindo-lhes um poder de criatividade único, que paralisa o mundo desde há vários séculos com as mais belas obras de arte, um legado único, tentador, imprescindível e capaz de calar o mais potente racional. Este é o seu maior contributo, a marca da sua emotividade transformada em expressão visível ou audível.

Se são felizes? Creio que sim, porque importa para eles vivenciar todas as experiências com a maior intensidade possível. Isto coloca o seu próprio sistema neural como prioridade absoluta, o que deixa também a sua satisfação pessoal (ego) para segundo plano, tal é embriaguez hormonal a que se submetem.

Se fazem alguém feliz? Tenho sérias dúvidas, um ser com fortes tendências emocionais não ama humanos, não carrega o amor verdadeiro ao próximo, venera antes objectos e imagens que lhe despertam estímulos, alimenta-se disto para viver, não sabe lidar com estímulos menos bons. No momento que os seus objectos de adoração se mostrarem imperfeitos e reais, tendem à fuga permanente.

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Os seus irmãos, os apelidados de racionais, os cinzentos, e que se apresentam como tendencialmente pragmáticos, não despertam paixões intensas imediatas, não são urgentes em nada, são calculistas nas suas entregas e recusam-se a aceitar uma vida baseada em hormonas. Os psicopatas situam-se neste território, desprovidos de emoções (por deficiência física cerebral), actuam na sociedade de forma exclusivamente calculista. De uma forma simplista, todo este pragmatismo deve-se apenas a fracas ou inexistentes intensidades neurais, biologicamente, são seres cuja produção de hormonas se faz em baixa escala, motivo pelo qual, não experimentam sensações emocionais que provoquem grande aventura. Chega a ser assustadora a frieza com que lidam com temas de extrema delicadeza ou sensibilidade. Não se comovem com a teatralidade dos seus congéneres emocionais, e muito menos têm capacidade para amar o próximo, ou ter algum gesto altruísta que seja. Não existe satisfação ou tristeza plena nestes seres, existe uma trajectória de vida marcada nalguma agenda da memória, e executam-na de forma exímia. Chegam a ser geniais na evolução do conhecimento, ou no desenvolvimento técnico de soluções, este é o seu grande contributo para a sociedade, o legado proveniente do aperfeiçoamento que executaram sobre a sua mais-valia natural. Bastante reservados, são seres que de uma forma fria e puramente calculada, encontram forma de combater todas as adversidades que lhes surjam.

Se são felizes? A felicidade não é um tema importante para um ser tendencialmente racional. As suas roldanas não passam pelo crivo das sensações, é importante executar e alargar conhecimento, importa para ele o tecnicismo dos processos, a execução padronizada dos mesmos.

Se fazem alguém feliz? À semelhança dos irmãos emocionais, não creio. Importa para eles no relacionamento com terceiros, que o mesmo seja previsível e entre nalgum manual de procedimentos padronizado. Não se preocupam com a emoção alheia, ainda que em determinados momentos possa parece-lo. Sem ilusões, são extremamente calculistas, e nunca se escravizarão às emoções, tendem naturalmente à fuga ou à imposição da sua razão quando lidam com situações de descontrolo emocional.

Dizem os emocionais aos racionais, que são medrosos, um dia de emoções vale por uma vida. Dizem os racionais aos emocionais, que são inconsequentes, um dia de emoção extremada pode deitar ao lixo uma vida. Nenhum dos dois raia a perfeição, até porque tal seria desinteressante. No entanto, num exercício prático conseguimos rapidamente perceber o que seria do mundo se estivesse a ser gerido pelo pelotão dos emocionais: a perfeita loucura em estado descontrolado, todos se matariam por nada, todos se amariam por nada, tudo começaria, terminaria e recomeçaria à velocidade da luz. Que seria do mundo à mercê dos racionais, um charco de raposas calculistas, um mar de seres individualizados sem o menor sentido comunitário ou social. É precisamente este o momento de compreender que é possível salvar a nossa raça, num exercício tão simples como saltar para lá do auto-condicionalismo humano.

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Feita esta apresentação básica e algo redutora, regressamos ao ponto inicial: não existem seres unicamente emocionais ou racionais, existem no entanto, padrões enraízados na sociedade, e a verdade, é que a sociedade aceita o tema, sem qualquer auto-crítica, e do mais ignorante ao mais intelectualizado cidadão, existe esta categorização entre emocional e racional. Esta é uma das grandes “inverdades” com consequências graves nos comportamentos relacionais da sociedade moderna. Na verdade, somos convergentes, carregamos ambas as dualidades dentro de nós. É com extrema admiração e estranheza que observo a ausência de alguns pensadores e intelectuais contemporâneos deste tema, que não só se omitem desta reflexão incontestável, como fomentam este separatismo cerebral. O exercício de auto-conhecimento é sem dúvida decisivo para uma saúde emocional e racional equilibrada. Só através da percepção da nossa verdadeira essência, encontraremos a verdade do que somos e representamos. É um exercício extremamente simples, mas que nos posiciona num patamar diferente de existência. Como todo o conhecimento adquirido, é um processo irreversível, mas progressivo e construtivo.

Em momento nenhum, deve ser criticado o emocional ou o racional. Não faz sentido essa crítica, nesta reflexão existe apenas uma tentativa primeira de aceitação da falência perfeccionista humana, e uma segunda de apelar à importância vital da negligência involuntária em que todos incorremos ao aceitar esta classificação. Não acredito que o ser humano tenha por missão viver à volta do seu umbigo, mas antes, usar as suas melhores ferramentas ao serviço da humanidade. Somos eternamente responsáveis uns pelos outros, somos nós, de forma colectiva, os únicos responsáveis pelas chacinas humanitárias de que somos alvo diariamente. Esta é a importância deste tema, a de resgatar a humanidade enfrentando de uma vez por todas a nossa verdade.

No meio deste carnaval intelectual, é urgente perguntar: Como sublimar as entregas, as essências, os sentimentos? Como melhorar as relações com o próximo? Como melhorar as relações afectivas? Como melhorar a sociedade? Como intervir neste processo de forma sã e construtiva? Com a perfeita consciência da inexistência da perfeição, com a vontade de ir mais além do nosso epicentro na única vida de que temos conhecimento: esta que estamos a viver! Com a auto-responsabilização imputada e não amputada, com a noção de que o altruísmo não é uma qualidade, mas antes uma capacidade ao nosso dispor, e por fim, com o inconformismo próprio de quem não aceita a mediocridade intelectual e emocional como forma de vida.

Nesta dualidade que tenta equilibrar-se, sabemos que é no nosso lado racional que nasce a construção de um afecto, provindo da vontade de fazer perdurar as emoções, isto faz-se com inteligência, faz-se com a vontade de tornar duradouro algo que nos faz bem em momentos pontuais. As emoções existem, ponto! É bom saber que este gatilho dispara a qualquer momento, não temos capacidade cerebral para seleccionar as emoções que queremos vivenciar, não temos como escolher só vivenciar as positivas. A dependência emocional, tem como consequência, o disparar dos mais variados impulsos, sejam positivos ou negativos. Se conseguirmos desligar o ego, e aceitar esta nossa fraqueza, sem dúvida que estaríamos mais aptos a relacionar-nos melhor. Neste ponto, convém sempre parar e pensar na dimensão, o nosso mundo gira à volta da saúde relacional, sejam relacionamentos familiares, afectivos, profissionais, amigáveis, sociais, etc. É de extrema importância melhorar a qualidade das nossas relações, sob pena de não sair da espiral de degradação humana a que assistimos diariamente.

As debilidades existem, e no entanto exigimos aos outros o que não temos capacidade para providenciar. Porque toleramos em nós fraquezas que não aceitamos em terceiros? A Fraqueza, no limite transforma-se num adjectivo que fere o ego, é apenas isto, e? Não podemos dar de barato o idiota de um adjectivo por um mundo melhor? A defesa do ego é mais importante que tudo o resto? A confissão das nossas fraquezas, não faz de nós seres menos válidos, apenas conscientes de que conseguimos ser fortes mas também fracos. É isto que nos faz ir mais longe no relacionamento humano, e permite um espaço de compreensão, aceitação e tolerância para com a fraqueza alheia. Só desta forma poderemos fortalecer uma das poucas tábuas de salvação da humanidade. As filosofias de algibeira em nada ajudam este processo, e contribuem para o desenvolvimento do individualismo politizado, fomentando teorias egocêntricas de bem-viver. Não pretendemos ser santos, trata-se apenas de auto-responsabilização, de não egoísmo, e tal só será possível com uma entrega verdadeira a nós próprios, com a maturação e auto-observação necessários ao reconhecimento da condição humana.

Alguém que admiro, disse um dia: “Somos responsáveis não só pelo que fazemos, mas também pelo que deixamos de fazer.”

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