SOBRE AUTO-SABOTAGEM

SOBRE AUTO-SABOTAGEM

É mais fácil deixar o guarda-chuva aberto ao menor sinal de uma nuvenzinha negra. Muito melhor desligar o fogão antes que a água ferva muito e faça um estrago. É importante sair de casa com um casaco mesmo estando um dia lindo de sol e um calor de 30 graus. E é mais cômodo sabotar um amor antes que ele aconteça.

Foram tantos tombos, tantos caras babacas, alguns amores desmanchados sem que nada tivesse sentido. Algumas expectativas criadas, não porque não houvesse perspectivas, pelo contrário. Mas minha mãe sempre diz: não crie expectativas. Crie seus cachorros que é melhor.

De tanto cair, obviamente a gente aprende a levantar. E em muitos casos, aprende a se auto- sabotar também. E eu sou realmente boa nisso, segundo a minha terapeuta. As coisas estão indo bem, o cara é legal, divertido e atencioso. E aí, num primeiro ato falho, numa primeira resposta um pouco vaga do cara, a auto-sabotagem entra em ação.

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Não, não quero esperar passar um tempinho e observar o comportamento do cara. Eu já quero acabar logo com a história, com o romance que mal começou. Nada de sofrimento, esse é o lema do auto-sabotador dos próprios casos amorosos.

E como acabar com o relacionamento sem um motivo concreto? Como sabotar a coisa toda? Sou ótima nisso. Vamos brigar! Vamos encher o cara de cobranças, dar uma pentelhada, ignorar, fazer alguma besteira que o deixe chateado. Pronto. Auto-sabotagem realizada com sucesso.

O auto-sabotador vive com os punhos erguidos, como um boxeador a espera de um golpe na face. Baixar a guarda é algo inaceitável no boxe. A defesa é o melhor ataque. Então vamos viver assim, à espera de um golpe qualquer, que pode vir de qualquer um dos lados. Não vamos deixar ser nocauteados, não é mesmo?

É mais fácil deixar o guarda-chuva aberto ao menor sinal de uma nuvenzinha negra. Muito melhor desligar o fogão antes que a água ferva muito e faça um estrago. É importante sair de casa com um casaco mesmo estando um dia lindo de sol e um calor de 30 graus. Afinal, o tempo pode virar a qualquer momento, já dizia a minha avó.

O que se ganha se auto-sabotando? Vivendo na defensiva? Se preparando para algo que não se sabe se vai acontecer? Na minha opinião ansiosa, só de não ganhar sofrimento, é um grande lucro. Mas na opinião de alguém que enxerga as coisas com clareza, sem a interferência de um ataque de ansiedade, nada se ganha. Só se perde. E muito.

Perde-se a chance de entender o outro exatamente como ele é. De perceber que todos nós temos defeitos e podemos conviver numa boa se aceitarmos isso. Deixa-se escapar a possibilidade de fazer os ajustes necessários no início dos relacionamentos, para que eles sigam em frente de forma saudável. O coração se fecha, se endurece. Não fica tão fácil acreditar em qualquer palavra ou mensagem bonita recebida.

E como é que faz então para desligar esse sinal de alerta que fica aceso o tempo todo? Como aposentar as luvas de boxe e abrir os braços para o ataque, que nem sempre vem de forma violenta? Como fechar o guarda-chuva e aceitar se molhar, mesmo que se fique gripado?

Não sei. Não encontrei essa fórmula. Só sei que arriscar acaba sendo algo fora de cogitação. E que a auto-sabotagem é algo meio inconsciente, meio pé no chão. É uma questão de escolha, uma espécie de lição de vida que não devia ser divulgada por aí nem perpetuada dentro de ninguém. Sabotagem é uma palavra que remete a perigo, que parece vinda dos filmes de ação em que os mocinhos sofrem com explosões provocadas pelos vilões. E esses vilões estão bem aqui, dentro de nós, aguardando a próxima oportunidade de detonar um explosivo para que a gente entre em um esconderijo e se esconda do fogo.

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